Há alguns dias, uma pesquisa veio mostrar o que todos aqueles que realmente se preocupam com reforma tributária no Brasil sabem: os ricos pagam pouco imposto.
Quem recebe R$ 3.300 por mês, leva para casa, descontados Imposto de Renda e Previdência, 84% do seu salário. Já alguém que ganha R$ 26.600 por mês, leva 74%.
Um profissional holandês, por exemplo, pode contar apenas com 55% de seu salário, e mesmo um norte-americano traz para casa menos que um brasileiro: 70%.
Ao mesmo tempo em que descobríamos a vida tranquila dos ricos brasileiros, chega a notícia de que a quantidade de milionários no Brasil aumentou 5,9% em 2010, atingindo a marca de 115,4 mil pessoas com fortuna de, ao menos, US$ 1 milhão.
O que não deveria nos surpreender. Afinal, vivemos em um país onde o processo de concentração de renda está tão institucionalizado que as classes mais abastadas têm um sistema de defesa de seus rendimentos sem par em outros países industrializados.
Dentro de alguns anos, a chamada nova classe média descobrirá que não conseguirá mais continuar sua ascensão social. Entre outras coisas, ela tomará consciência de como seu orçamento é brutalmente corroído por despesas com educação e saúde.
Um Estado preocupado com seu povo taxaria os ricos e as grandes fortunas a fim de ter dinheiro suficiente para criar um verdadeiro sistema público de educação e saúde.
Por que não criar, por exemplo, um imposto sobre grandes fortunas vinculado exclusivamente à educação? Isto permitiria que essa nova classe média continuasse sua ascensão social.
Tal ascensão seria ainda mais facilitada se a carga tributária brasileira parasse de privilegiar o consumo, e focasse a renda. Uma carga focada no consumo, ou seja, embutida em produtos, é mais sentida por quem ganha menos.
Há pouco, um estudo mostrou como o 0,1% mais bem pago no Reino Unido recebia, em 1979, 1,3% dos salários.
Hoje, recebe 5% e, em 2030, deve receber 14%.
Costuma-se dizer que uma das maiores astúcias do Diabo é nos convencer de que ele não existe. Uma das maiores astúcias do discurso conservador é nos convencer, diante de dados dessa natureza, de que conflito de classe é um delírio de esquerdista centenário.
Mesmo que vejamos um processo brutal de concentração de renda institucionalizado e intocado por qualquer partido que esteja no poder, mesmo que vejamos a tendência de espoliação dos recursos de países industrializados por camadas mais ricas da população, tudo deve ser um complô dos incompetentes contra aqueles que bravamente venceram na vida graças apenas a seu entusiasmo e capacidade visionária, não é mesmo?
terça-feira, 5 de julho de 2011
domingo, 3 de julho de 2011
Soberania grega deve ser limitada, diz Juncker
A Grécia pode sofrer grandes restrições na sua soberania e deve privatizar ativos do Estado em uma escala similar à feita pela Alemanha Oriental nos anos 90, depois da queda do comunismo, disse o presidente do Eurogroup, Jean-Claude Juncker.
Em uma entrevista publicada depois que os ministros das Finanças da zona do euro no Eurogroup aprovaram um empréstimo de 12 milhões de euros ao país, Juncker disse estar otimista de que medidas negociadas com Atenas vão ajudar a resolver os problemas do país.
"A soberania da Grécia será grandemente limitada," afirmou Juncker à revista Germany's Focus, em entrevista publicada neste domingo. Ele também disse que equipes de especialistas da zona do euro irão para a Grécia.
"Para a onda de privatizações que virá, eles vão precisar, por exemplo, de uma solução baseada em um modelo da 'agência Treuhand', da Alemanha," afirmou Juncker, referindo-se à agência de privatizações que vendeu 14 mil empresas da Alemanha Oriental entre 1990 e 1994.
O Parlamento grego votou na quinta-feira a montagem de uma agência de privatizações devido a projetos de austeridade acertados com a União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional), o que provocou violentos protestos das ruas de Atenas.
Os gregos estão sensíveis às violações de sua soberania ou indicações de que "comissários" estrangeiros se envolverão na governança do país.
"Não podemos deixar que alguém insulte os gregos. Mas alguém tem que ajudá-los. Eles disseram estar prontos para receber expertise da zona do euro," afirmou Juncker.
Atenas deve vender cinco bilhões de euros em ativos do Estado só neste ano ou então correr o risco de não atingir as metas do programa da UE e do FMI, o que poderia cortar o fluxo de financiamentos cruciais para manter o governo funcionando e evitar a moratória da dívida.
Uma repetição da experiência da Treuhand pode ser amarga para os gregos, que já sofrem com crescente desemprego e uma recessão que já está em seu terceiro ano.
Naquela época a maior holding do mundo, a Treuhand tinha que vender propriedades do Estado com lucro, mas fechou seus balanços com um déficit gigantesco e um legado de crueldade para o grande número de trabalhadores cujos empregos foram destruídos.
Quatro milhões de alemães estavam empregados em empresas controladas pela Treuhand em 1990, mas apenas 1,5 milhão de postos de trabalho sobraram em 1994, quando a agência fechou.
Em vez de colher os lucros e distribuir para toda a população da Alemanha Oriental, como foi projetada para fazer, a holding ficou com um déficit de 172 milhões de dólares com a venda de ativos.
"NÃO TOTALMENTE FUNCIONAL"
Juncker, que também é primeiro-ministro de Luxemburgo, levantou inicialmente a ideia de uma agência como a Treuhand para a Grécia em maio. Ele disse acreditar que o país pode levantar consideravelmente mais do que 50 bilhões de euros em vendas de ativos.
"O atual pacote de medidas, ao qual Atenas concordou, trará solução para a questão grega," afirmou Juncker na entrevista à revista. Contudo, ele acrescentou que o sistema de coleta de impostos da nação "não é totalmente funcional."
No sábado, ministros das Finanças da zona do euro concordaram que a quinta parcela do pacote de auxilio à Grécia de 110 bilhões de euros, acordado em maio de 2010, será paga até 15 de julho, caso o FMI assine o empréstimo. A entidade deve se reunir em 8 de julho para aprová-lo.
O pagamento permitirá que a Grécia evite uma ameaça imediata de moratória, mas o país ainda precisa de um segundo pacote de auxílio, que deve levantar mais 110 bilhões de euros e que provavelmente será finalizado apenas em setembro.
Juncker disse que a crise grega foi causada principalmente pelo próprio país. "Entre 1999 e 2010, os salários subiram 106,6 por cento, embora a economia não tenha crescido no mesmo ritmo. As políticas salariais estavam completamente fora de controle e não baseadas na produtividade," afirmou
Fonte: Reuters
Em uma entrevista publicada depois que os ministros das Finanças da zona do euro no Eurogroup aprovaram um empréstimo de 12 milhões de euros ao país, Juncker disse estar otimista de que medidas negociadas com Atenas vão ajudar a resolver os problemas do país.
"A soberania da Grécia será grandemente limitada," afirmou Juncker à revista Germany's Focus, em entrevista publicada neste domingo. Ele também disse que equipes de especialistas da zona do euro irão para a Grécia.
"Para a onda de privatizações que virá, eles vão precisar, por exemplo, de uma solução baseada em um modelo da 'agência Treuhand', da Alemanha," afirmou Juncker, referindo-se à agência de privatizações que vendeu 14 mil empresas da Alemanha Oriental entre 1990 e 1994.
O Parlamento grego votou na quinta-feira a montagem de uma agência de privatizações devido a projetos de austeridade acertados com a União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional), o que provocou violentos protestos das ruas de Atenas.
Os gregos estão sensíveis às violações de sua soberania ou indicações de que "comissários" estrangeiros se envolverão na governança do país.
"Não podemos deixar que alguém insulte os gregos. Mas alguém tem que ajudá-los. Eles disseram estar prontos para receber expertise da zona do euro," afirmou Juncker.
Atenas deve vender cinco bilhões de euros em ativos do Estado só neste ano ou então correr o risco de não atingir as metas do programa da UE e do FMI, o que poderia cortar o fluxo de financiamentos cruciais para manter o governo funcionando e evitar a moratória da dívida.
Uma repetição da experiência da Treuhand pode ser amarga para os gregos, que já sofrem com crescente desemprego e uma recessão que já está em seu terceiro ano.
Naquela época a maior holding do mundo, a Treuhand tinha que vender propriedades do Estado com lucro, mas fechou seus balanços com um déficit gigantesco e um legado de crueldade para o grande número de trabalhadores cujos empregos foram destruídos.
Quatro milhões de alemães estavam empregados em empresas controladas pela Treuhand em 1990, mas apenas 1,5 milhão de postos de trabalho sobraram em 1994, quando a agência fechou.
Em vez de colher os lucros e distribuir para toda a população da Alemanha Oriental, como foi projetada para fazer, a holding ficou com um déficit de 172 milhões de dólares com a venda de ativos.
"NÃO TOTALMENTE FUNCIONAL"
Juncker, que também é primeiro-ministro de Luxemburgo, levantou inicialmente a ideia de uma agência como a Treuhand para a Grécia em maio. Ele disse acreditar que o país pode levantar consideravelmente mais do que 50 bilhões de euros em vendas de ativos.
"O atual pacote de medidas, ao qual Atenas concordou, trará solução para a questão grega," afirmou Juncker na entrevista à revista. Contudo, ele acrescentou que o sistema de coleta de impostos da nação "não é totalmente funcional."
No sábado, ministros das Finanças da zona do euro concordaram que a quinta parcela do pacote de auxilio à Grécia de 110 bilhões de euros, acordado em maio de 2010, será paga até 15 de julho, caso o FMI assine o empréstimo. A entidade deve se reunir em 8 de julho para aprová-lo.
O pagamento permitirá que a Grécia evite uma ameaça imediata de moratória, mas o país ainda precisa de um segundo pacote de auxílio, que deve levantar mais 110 bilhões de euros e que provavelmente será finalizado apenas em setembro.
Juncker disse que a crise grega foi causada principalmente pelo próprio país. "Entre 1999 e 2010, os salários subiram 106,6 por cento, embora a economia não tenha crescido no mesmo ritmo. As políticas salariais estavam completamente fora de controle e não baseadas na produtividade," afirmou
Fonte: Reuters
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Um breve panorama sobre a questão Líbia

A OTAN dá mais um passo em sua estratégia para derrubar Kadhafi, como noticiado pelos principais jornais no mundo, a França forneceu armamento aos rebeldes que lutam contra o governo Líbio.
Vamos traçar uma breve linha do desenrolar dos fatos que culminaram nesta minha postagem. Primeiro, após a onda de manifestações no que o ocidente intitulou “Revolução Árabe”, ou “Crise no Oriente Médio”, um grupo insurgente líbio iniciou a insurreição nos bastiões da resistência, á saber Benghazi, Derna e Tobruk , já conhecidos de longa data quando há algumas décadas estes grupos financiados pelos EUA e seus aliados ensaiaram um levante sem sucesso contra o governo de Kadhafi. O grupo iniciou uma onda de ataque contra as tropas do governo, sob a bandeira de manifestantes, algo que logo nas primeiras imagens ficou claro se tratar de um golpe contra o governo líbio, que reagiu energicamente na repressão.
Quero deixar aqui um ponto importantíssimo para que possamos ter uma visão real do que se passa na Líbia, a Carta das Nações Unidas defende que o Estado Soberano utilize dos meios que se façam necessários para garantir sua integridade institucional, algo que ficou claro quando “manifestantes” atacaram órgãos representantes do Estado Líbio com fuzis e granadas, armas classificadas como instrumentos de guerra, dando com isso a legalidade para que Kadhafi lança-se suas tropas para conter o movimento rebelde.
Segundo, em momento algum houve qualquer prova de desrespeito aos direitos humanos pelas tropas leais ao governo, uma vez que, ao contrário do divulgado pela grande mídia global, o governo realizou bombardeios contra seus próprios paióis de armamento nas cidades tomadas pelos insurgentes a fim de evitar que tais armas caíssem nas mãos destes criminosos. Posteriormente foram realizados ataques de artilaria contra posições rebeldes nas cidades ocupadas.
Terceiro, Kadhafi após apelo internacional tentou estabelecer cessar fogo, porém o mesmo foi rompido pelos rebeldes, sendo revidados pelo governo Líbio, que por conseguinte foi acusado pela ONU de atacar “civis inocentes”. Daí presenciamos uma forte pressão européia e americana para aprovar sanções contra o governo líbio e autorizar uma ação militar orquestrada pela OTAN, sob a prerrogativa de “ajuda humanitária” e “salvaguarda de civis”. Estabeleceu-se então uma zona de exclusão aérea.
Antes de passar ao próximo ponto, vamos aqui esclarecer o que seria uma zona de exclusão aérea. Esta zona trataria teoricamente de uma área a ser demarcada no mapa, onde qualquer aeronave militar seria proibida de sobrevoar, sob pena de ser abatida em caso de violação desta zona. Tal missão não tem qualquer prerrogativa para ataque a tropas terrestres, uma vez que a zona é de exclusão aérea e não zona desmilitarizada, até pelo fato que, caso se institui-se uma zona desmilitarizada, os rebeldes também deveriam respeitar tal área. Outro fator importante de se salientar é que tal missão em teoria não explicita atacar bases fora da zona de exclusão ou
prédios do governo.
Quarto, foi posteriormente divulgado que semanas antes do início das hostilidades na Líbia, representantes do grupo rebelde e um de seus líderes que residia há mais de 20 anos nos EUA, se reuniram secretamente em Paris com membros da inteligência daquele país.Demonstrando assim claramente se tratar de uma ação orquestrada pelos interesses ocidentais.
Quinto, após um longo período de bombardeios ás tropas leais ao governo de Kadhafi, ficou claro ao estrategistas da OTAN que os rebeldes não possuem capacidade de vencer as tropas legais apenas com o apoio aéreo, a OTAN passou a atacar zonas civis de Trípole a fim de neutralizar o governo, bombardeando onde possivelmente estaria Kadhafi, com isso vitimando em um desses ataques criminosos, filhos e netos do governante Líbio. Ainda observamos um aumento exponencial de vítimas desta guerra após a entrada da OTAN, que supostamente entrou para salvar vidas, tem matado mais do que protegido com suas bombas e munições “sujas”, conforme denunciamos aqui constantemente.
A penúltima medida foi condenar Kadhafi no TPI, para assim dar legalidade ao assassinato do mesmo em uma provável ação da OTAN, que como bem sabemos é expert em despejar bombas a esmo, como no Iraque, Afeganistão e outros exemplos do passado recente.
Hoje vemos a França fornecer armas e mísseis a estes rebeldes como forma de tentar finalmente derrubar o governo Líbio representado por Kadhafi, que embora seja ignorado pela comunidade internacional, possui apoio da grande maioria da população líbia, tendo mesmo levado o país á uma extraordinária posição nos índices de desenvolvimento humano e social nas últimas décadas.
Agora eu convido o amigo leitor a tirar suas próprias conclusões, para isso peço porém que leia o histórico de todas as notícias que postamos aqui, traçando assim um panorama real do que se passa naquela nação.
texto de Angelo D. Nicolaci Fonte:GeoPolitica Brasil
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Antecedentes da catástrofe grega

A Grécia não é apenas um bloco monolítico de oprimidos, acossados pelo poder financeiro mundial. A opressão financeira ganhou vertiginosa transparência nos dias que correm. Mas por trás das multidões desesperadas que afluem às ruas e cercam o parlamento tentando retomar o controle sobre o seu destino, a incapacidade que está no cerne da tragédia grega clássica, existe uma história de conflitos sociais devastadores.
Ela, história, explica, em parte, como foi que se chegou ao atual desfecho expresso em uma dívida externa de 30 mil euros per capita, democraticamente atribuída a cada um dos 11,9 milhões de habitantes do país.
Sob a sanguinária ditadura dos coronéis, que dominou a Grécia de 1967 a 1974, a elite local viveu um período de fastígio e evasão fiscal ímpar no planeta. Grosseiramente pode-se dizer que o endividamento externo que hoje passa de 115% do PIB serviu de biombo à complacente justiça fiscal dos quartéis.
Pesquisas indicam que sob o tacão dos coronéis menos de 100 mil abnegados pagavam imposto de renda na Grécia. Um Olimpo de transgressores. Conta-se que uma tentativa de afrontar a evasão com o rastreamento aéreo das piscinas encravadas nas mansões da plutocracia local foi driblada por uma corrida às capas de grama sintética, que confundiam as imagens dos satélites.
Ao restaurar a democracia, a esquerda não teve a coragem de retirar as capas que recobriam privilégios e caixas milionários de investidores, empresas e bancos.
O endividamento externo persistiu como a solução de compromisso na busca da linha de menor resistência. Com o ingresso na UE, os controles ficaram mais rígidos. Como se sabe, pelo Tratado de Maastricht, um país membro não pode ter déficit fiscal superior a 3%.
A saída encontrada pelos governantes para contornar a linha fiscal estreita foi pagar polpudas consultorias a grandes bancos norte-americanos e financeiras, como a indefectível Goldman Sachs, hábeis em montar operações de engenharia contábil para manter a irrigação do caixa público sem afrontar Maastricht, nem penalizar a elite local.
As capas de grama sintética cederam lugar então a um longo manto tecido pela criatividade deliquente da grande finança. Um dos artifícios chancelados pelo selo da Goldman Sachs foi penhorar receitas futuras do Estado grego, em troca de antecipações de recursos, naturalmente subtraídas taxas e descontos polpudos para a remuneração do intercurso entre consultores e bancos credores.
O saque ao futuro incluiu, por exemplo, anos e anos de taxas de embarque e desembarque em aeroportos, penhorados pelo Estado grego. Como o dinheiro antecipado foi gasto em outras áreas, é de se supor que o futuro do tráfego aéreo no país, desprovido de fundos para novos investimentos, terá sérios problemas pela frente. A irresponsabilidade ganha cores berrantes quando se sabe que o turismo representa mais de 14% do PIB grego.
O fato é que durante anos, o Estado se endividou sem registrar o rombo como déficit público, graças aos meninos espertos da Goldman Sachas. Quando estourou a crise mundial, a retração dos investidores pôs em xeque a ciranda grega e o déficit verdadeiro explodiu.
Muito superior ao limite previsto pela UE, imaginou-se inicialmente que ele seria de 10,5%, tendo sido revisto agora para algo em torno de 12%, mas alguns acham que pode ir além. É nessa quadratura do círculo que os pacotes ortodoxos negociados pelo governo socialista de Papandreu pretendem transferir à população, na forma de cortes de serviços, salários, privatizações e, ah, sim, impostos, a tarefa de sanear décadas de ladroagem fiscal e covardia política.
Assim fica mais fácil entender a fúria da multidão que cercou o Parlamento grego no centro de Atenas, na última terça-feira, 21 de junho, quando 155 deputados eleitos pelo povo deram seu voto de confiança à forma como o ministro Papandreu busca resolver esse passivo histórico.
Fonte: Carta Maior
sábado, 25 de junho de 2011
A crise da "sociedade de mercado"

I
A particularidade da “sociedade de mercado” que se difundiu com extrema rapidez do século XIX em diante, dos centros às periferias, recebe um novo embate, variado, inconcluso, popular, desde regiões muito distintas.
Há algo da “promessa” do ideário liberal que, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial, parece estar desvanecendo-se no ar: suas instituições fundamentais atravessam uma fase de muito desprestígio, o que antecipa um próximo período de rearranjos organizacionais, culturais e ideológicos de diversas magnitudes, sem que possa especular-se ainda sobre seus tempos de desenvolvimento nem sobre suas direções.
Mas pela cadeia de respostas e “indignações” que se manifestam diariamente neste novo ciclo de crise capitalista pode afirmar-se, retomando K. Polanyi, que uma (nova) Grande Transformação está ocorrendo de maneira cada vez mais explícita: a pretensão da autorregulação pressuposta em uma “sociedade de mercado” perdeu novamente sua força retórica moralizante e estruturadora dos comportamentos.
O que está se reclamando de diferentes formas é, no fundo, que a sociedade não fique como refém exclusivo do mercado, ou seja, que exista alguma forma de “intervenção social” sobre o mesmo, de regulação, com a variedade de opções e contradições que supõe um pedido desta natureza; em resumo, a sociedade antes que o mercado, e não o contrário.
II
O fim da primeira versão do padrão ouro internacional constituiu um momento chave na história do capitalismo, distinguindo duas épocas: representou um freio ao liberalismo (econômico) como modelo civilizatório, com sua variada edificação conceitual de ideologias conexas e instituições, dando lugar a uma transformação radical nas ideias sobre os destinos coletivos, inclusive deixando espaço de atuação para aquelas opções que terminaram por constituir um dos capítulos mais dolorosos da história do homem em sociedade.
No entanto, por processos históricos superpostos e derivados daquelas mudanças, após as modificações nos padrões de transação monetária dos anos 70 e a internacionalização das forças produtivas, acoplados à gravitação crescente dos circuitos de valorização financeira, um (novo) liberalismo conseguiu se reposicionar como modelo de sociedade, em paralelo com a hegemonia estadunidense.
Agora, esse mesmo (neo)liberalismo que foi se desenvolvendo desde então como discurso e prática econômica se desenhou ideologicamente sobre uma similar pretensão de “sociedade de mercado” autorregulada, com o acréscimo de que, pelas complexidades das circunstâncias, essa mesma pretensão devia ser equalizada por meio de alguns organismos supranacionais chave – FMI, Banco Mundial, Banco Central Europeu, entre outros – que dariam curso e projeção ao próprio “equilíbrio natural”.
Como aquele, agora é este neoliberalismo que está sob suspeita, sobretudo a partir da crise do capital financeiro (2008) que colocou a maioria dos países centrais diante da impossibilidade de, por um lado, reestabelecer uma dinâmica de acumulação que reverta a situação de default generalizado e, por outro controlar as derivas da própria especulação financeira que, longe de ter se moderado, espalha-se para múltiplos segmentos – como as commodities alimentares, questão que pode tornar o panorama global ainda menos auspicioso.
III
O que hoje se ativa em distintas partes do mundo é, como nos anos 30 do século XX, uma crítica profunda ao liberalismo, agora neoliberalismo. Evidentemente não se expressa de uma forma orgânica nem homogênea, o que debilita em certa medida a ressonância de questionamentos comuns feitos em diferentes tempos, espaços e idiomas.
Mas no centro das críticas populares, massivas, desordenadas, estão quase os mesmos elementos de antanho, com suas novas roupagens: em grandes traços e segundo as idiossincrasias de cada território, os protestos se dirigem contra as limitações das fórmulas representativas do Estado – ao fim das contas, a garantia de que as engrenagens sociais mantenham os privilégios – e as incapacidades derivadas para exercer a administração, e também contra a vacuidade na qual caiu a ficção liberal do consumo e do progresso individual, que espatifou contra a materialidade das realidades.
Uma crise econômica e substantivamente ideológica, de sentido, que não anula o sistema de um instante para outro, muito pelo contrário, mas que afeta a legitimidade e a autoridade de suas instituições no médio e longo prazo, questão não menor no que diz respeito à reprodução de uma determinada ordem social.
Se agora, esta ficção da “sociedade de mercado” autorregulada se fratura na Grécia e na Espanha, esse movimento é resultado de um processo que vem de vários anos e de outros países. Talvez suas primeiras manifestações tenham surgido nas periferias; neste sentido, o ciclo de protestos sociais latino-americanos que deu lugar a certos governos progressistas deve somar-se a essa lista.
Não é causalidade, então, que seja no Chile – na contramão destes governos e dos processos que os forjaram – onde também se replica o atual descontentamento, a partir de um rígido esquema universitário exclusivamente orientado à figura de um consumidor privilegiado.
IV
Como socialização política, o liberalismo/neoliberalismo volta a colapsar; como modelo organizador da sociedade volta a evidenciar sua incapacidade de modo contundente. Nisso consiste, a atual crise do capitalismo: a sucessão de “indignados” não faz mais do que exibir o fracasso de sua proposta civilizatória, a inconsistência de seus princípios, a contradição de suas instituições.
A pretensão autorregulatória neoliberal se desmancha dia após dia, do mesmo modo que suas “promessas”. Resulta fundamental que as demandas de intervenção e regulação desta crise não se resolvam autoritariamente como no século passado, uma tendência latente se se leva em conta os triunfos das direitas políticas em boa parte dos países europeus.
Neste sentido, certas medidas políticas definidas por alguns governos latino-americanos parecem estar à altura das circunstâncias, o que é inclusive, admitido por acadêmicos estadunidenses e europeus. Não é pouco, levando em conta o tradicional lugar que foi outorgado à região.
Por Amílcar Salas Oroño - Professor do Instituto de Estudos da América Latina e Caribe, da Universidade de Buenos Aires.
Fonte: Carta Maior
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Porto Rico, uma colônia dos EUA; gringos queriam o mesmo para Cuba

O Comitê de Descolonização das Nações Unidas (ONU) retomou, nessa segunda-feira (20), o debate sobre a situação de Porto Rico. O Comitê debate anualmente a questão, há pelo menos três décadas, sem que se resolva o pleito dos que querem o fim da centenária relação de dependência dessa ilha com os Estados Unidos (EUA). Diante desse quadro, a Frente Socialista de Porto Rico denuncia a inação do Comitê e o acusa de cumplicidade com os EUA.
A Frente pede que a questão seja discutida no âmbito do Pleno da Assembleia Geral das Nações Unidas. “Seguir postergando essa discussão e intervenção internacional é converter-se em cúmplice de um sistema que continua em seu plano de aniquilar uma nacionalidade com o intuito de manter um enclave econômico-militar no Caribe”, afirma o Comunicado de Imprensa da Frente Socialista.
Este ano, o debate no Comitê está sendo realizado aproximadamente uma semana depois da visita de Barack Obama, presidente dos EUA, a Porto Rico. Durante a visita, o tema veio à tona pelos protestos de movimentos sociais. Eles reivindicaram independência e liberdade para presos políticos que lutam pela descolonização da ilha.
A visita foi a primeira de Obama, após 50 anos da ida de John F. Kennedy. Barack Obama, que estaria fazendo campanha para sua reeleição em 2012, prometeu realizar plebiscito sobre o tema. Os movimentos rechaçam e duvidam de tal postura, já que sequer podem manifestar livremente suas opiniões atualmente, diante da repressão aos independentistas. Oscar López Rivera, por exemplo, é o preso político mais antigo do hemisfério, detido há quase três décadas.
Nesse sentido, o comunicado da Frente Socialista de Porto Rico denunciou também “a criação de um grupo especial do FBI [Departamento Federal de Investigações] para perseguir e deter os lutadores políticos, classificando-os em uma nova categoria de terroristas domésticos, a qual permite às agências repressivas federais dos Estados Unidos violarem nossos direitos e utilizar todos os recursos para perseguir os independentistas”.
O Comitê discute um projeto de resolução, apresentado por Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela. O projeto enfatiza a urgência de que o governo estadunidense assuma sua responsabilidade de propiciar um processo que permita aos porto-riquenhos exercer seu direito inalienável à autodeterminação. Tal ação de solidariedade desses países é recebida com apreço pelos membros da Frente.
“O projeto de resolução afirma que Porto Rico é e seguirá sendo, por sua cultura, história e tradições e, especialmente, pela inquebrantável vontade de seu povo, uma nação latino-americana e caribenha, com uma identidade nacional própria, que os porto-riquenhos souberam manter mesmo com o processo colonizador ao qual estão submetidos”, afirmou o diplomata cubano, Pedro Núñez Mosquera, com representação no Comitê.
Breve histórico
Porto Rico esteve sob colonização espanhola por cerca de 400 anos. Em 1898, o exército estadunidense invadiu a ilha durante a chamada Guerra Hispano-cubano-americana e o território passou a ser colônia norte-americana. Desde então, os porto-riquenhos têm nacionalidade norte-americana. Desde 1952, Porto Rico está sob o status de Estado Livre Associado. Até hoje, parte de sua população a luta pela total desvinculação com os Estados Unidos, mesmo sofrendo intimidações e repressões.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
O que conta mais: formação ou informação?

Pessoas nascidas até a penúltima década do século passado, atribuíam ao “canudo” condição sine qua non para a conquista de bons empregos e ganhos.
Se você tem mais de 30 anos, provavelmente, tenha sido muito cobrado, pela família, a conquistar formação universitária e aprovação em concurso público para melhorar de vida. Pessoas nascidas até a penúltima década do século passado, atribuíam ao "canudo" condição sine qua non para a conquista de bons empregos e ganhos.
Naquela época, os dois momentos mais importantes na vida da família eram formar e casar os filhos. Não raro, quando um descendente conseguia o tão sonhado diploma, os pais se orgulhavam em contar a novidade aos amigos, e os almoços e jantares com familiares era de praxe para comemorar a conquista.
Os tempos mudaram e, atualmente, ter uma boa formação superior conta, mas sozinha ela já não garante o sucesso profissional de mais ninguém. O foco mudou da formação para informação. Antes, ao pegar o diploma dizia-se, "ralei, mas agora estou formado". A idéia era que com a graduação concluída, a pessoa não precisaria mais se preocupar com os estudos.
O conceito agora é outro, a pessoa que busca uma boa colocação no mercado precisa, também, de muitas e boas informações. Uma boa formação pode até abrir algumas portas no mercado de trabalho, mas é preciso também ter cultura geral admirável para que o candidato conquiste as melhores posições. Fique atento, pois como já dissemos, possuir muita informação não basta, é preciso ter boas informações e usá-las de forma direcionada e inteligente.
Do que adianta saber, por exemplo, que a árvore mais antiga do planeta é uma conífera que vive na Suécia e tem 9.550 anos de idade; que a biblioteca do Congresso americano tem 650 quilômetros de prateleiras e livros em 470 idiomas; que alguns mosquitos batem as azas 600 vezes por segundo ou que a China tem o computador mais veloz e poderoso do planeta. Ter boas informações e não usá-las corretamente, é como ter boas sementes e não ter terra para semeá-las.
É preciso lembrar que a informação de qualidade pode salvar vidas e o real valor dela, depende do que fazemos com ela. Vale ainda enfatizar que a informação não é um conjunto de fatos e sim conhecimento, e para que tenha valor é preciso ser verdadeira, completa e usada com habilidade. Veja, o exemplo, da experiente professora de piano que vira para o aluno e diz: "eu ouço todas as notas, mas eu não ouço nenhuma música". Logo, decorar o almanaque mundial poderá não lhe ser muito útil.
Vamos ser claros, a informação não é apenas aprendizagem, não é poesia, arte, fé ou sabedoria, ela é conhecimento constantemente lapidado. Portanto, não poderá ser encontrada em cópias na impressora, não surge com o estalar dos dedos. Ela pode e deve ser adquirida em bons livros, revistas, jornais, internet e na sala de aula com professores competentes.
O caminho para o sucesso é pavimentado com formação e informação de qualidade, além disso, não devemos esquecer de que a aprendizagem não é obra do acaso, ela precisa ser conquistada com ardor.
Texto de Evaldo Costa - Diretor do Instituto das Concessionárias do Brasil Escritor, consultor, conferencista e professor.
Fonte: http://www.administradores.com.br/
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