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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Estado Palestino: muitas fronteiras a serem estabelecidas


Em setembro, ao que tudo indica, a Assembleia Geral da ONU preparará o reconhecimento do estado palestino, dentro das chamadas fronteiras da Linha Verde (1967). Os palestinos deram passos políticos internos decisivos, de unificação e de reunião sob a OLP, para obterem esse reconhecimento. A “justiça social”, a “primavera árabe” de longa duração e o movimento internacional dos palestinos comparecem, na atual conjuntura, como miragens desejosas de habitarem um horizonte.

Desde o começo de agosto, milhares, em alguns momentos centenas de milhares de israelenses tomaram as ruas do país lutando por “justiça social”. O protesto foi puxado por uma alta de aproximadamente 50% no valor das moradias (tanto para compra e venda como para locação), em Israel, nos últimos dois anos. Acampados em barracas e pedindo a saída de Netanyahu, trabalhadores, classe média baixa e estudantes fizeram coro com os sem teto, na luta pela construção de moradias públicas, populares e pela diminuição no custo de vida do país.

Dentre os que ocuparam as ruas havia e há – os protestos continuam – os que associam e os que não associam a conjuntura econômica e social de Israel com a ocupação dos territórios palestinos. Em meio a uma das maiores manifestações de rua da história de Israel, na segunda semana de agosto, havia moradores de assentamentos ilegais, para onde escoa boa parte dos recursos orçamentários do estado, além do orçamento da defesa.

Reduzir ou cortar o orçamento para os assentamentos ilegais e nos gastos militares e reinvestir os fundos públicos no estado de bem estar social, atualmente parasitado por uma elite neoliberal estão no centro da agenda dos manifestantes. A associação do mal estar, causados pelo desemprego, pelos baixos salários e pelo alto custo de vida com o preço econômico da ocupação militar e territorial dos palestinos, no entanto, não parece comparecer sequer na agenda da chamada social democracia israelense, hoje representada pelo Partido Trabalhista, que tem entre suas lideranças mais promissoras um quadro parlamentar para quem os assentamentos não são um problema correlato à crise econômica e social que tem levado milhares às ruas do país [Ler: Líder trabalhista não vê assentamentos como crime].

Em setembro, ao que tudo indica, a Assembleia Geral da ONU preparará o reconhecimento do estado palestino, dentro das chamadas fronteiras da Linha Verde (1967). [Ler: Embaixador de Israel na ONU: não há como interditar reconhecimento de Estado palestino] . Os palestinos deram passos políticos internos decisivos, de unificação e de reunião sob a OLP, para obterem esse reconhecimento. Enfrentam uma grave crise econômica e não está nem de perto claro qual será o destino dos milhões de refugiados palestinos na proposta de acordo encabeçada por Abbas [Ler: Professor adverte sobre riscos para refugiados palestinos].

Na prática, é possível que a declaração da ONU não leve a grandes mudanças e, pior, que Israel a utilize para recuperar o status quo [Ler: Os planos da direita israelense para "restaurar o status quo"]. Assim, o país seguirá utilizando o expediente retórico e político de se dizer sem interlocutor, seguirá desrespeitando as decisões e recomendações da comunidade internacional e perseverará na construção de assentamentos, preferencialmente para comunidades ultra ortodoxas, em territórios palestinos, estabelecendo como que um cinturão de fanáticos religiosos e de elementos de uma direita bélica e paranoide, cercando a Israel legal, em nome de um delírio expansionista, eventualmente com um temerário e assombroso fundamento religioso [Ler: Novos assentamentos: Israel não precisa de um "lebensraum"].

As vozes críticas, isto é, que estabelecem as conexões e não lidam com os fatos a despeito de sua história são poucas e de certa idade. Talvez esse seja um dos elementos mais melancólicos para quem é de esquerda e sabe o que Israel significou para gerações de militantes antirracistas, antimilitaristas, socialistas e humanistas liberais, no pós Segunda Guerra. Há também ex-diplomatas israelenses nos EUA que defendem a viabilidade do retorno à Linha Verde, além da pequena esquerda israelense.

A decisão pelo recuo de Israel ao seu status legal, conforme aos ditames das Nações Unidas e na iminência do reconhecimento do estado palestino conta ainda com outros complicadores. Se essa possibilidade é real, no sentido de que é algo mais forte do que apenas um preceito inteligível e mensurável - em termos de compensações financeiras, rearranjos urbanísticos e no âmbito dos serviços públicos -, ela também depende do estado das coisas no mundo árabe.

E o fato é que os palestinos que lideram a proposta, quer dizer, os grandes grupos políticos da palestina (Fatah, Hamas e AlMubadara, respectivamente) não contam com aliados certos e firmes dentre as lideranças dos países Árabes. O Irã já disse que Israel deve ser varrido do mapa, o governo sírio, que vem aplicando mão de ferro para esmagar os protestos por democracia no seu país chegou a bombardear um campo de refugiados palestino ; o Egito, com a escalada de violência no sul de Israel e frente ao que se tornou o Sinai, depois da queda de Mubarak, não está em posição de garantir grande apoio, mesmo que o faça. O Iraque não existe, pelo menos por um bom tempo, como um país soberano. Quer dizer, a Liga Árabe apoia, como um todo, a causa palestina, mas quando se observa de perto, vê-se que esse apoio é menos decisivo e homogêneo do que poderia ser, coisa que, a despeito da primavera árabe, não configura novidade alguma. O Líbano apoia, mas o Hezbollah já disse que os palestinos não devem abrir mão nem de um grão de areia.

Ao norte, na fronteira com o Líbano, e ao sul, na fronteira com o Egito, há focos de tensão a partir dos quais pode haver escalada de violência. O governo de Netanyahu, que tem um ser como Avigdor Lieberman como ministro de Relações Exteriores, enfrenta insatisfação interna e se prepara para setembro com expedientes demagógicos e manobras legais que secundarizam explicitamente o conceito de Israel como democracia [Ler: Israel está oficialmente abrindo mão da democracia?]. E o embaixador estadunidense em Israel já avisou que os EUA vetarão a proposta palestina, do jeito que ela está.

O ato fundacional de um estado pode não ser um ato em si mesmo legítimo, enraizado em costumes ou derivado de uma longa história. Disso não se segue que estados só se originem à força, obviamente. Mas se segue que sem o estabelecimento de uma lei originária, de um fundamento normativo, presente e positivo, não há garantia, no limite, da existência mesma do próprio estado. É por isso que, neste momento, a fundação de Israel aparece revisitada em boa parte das análises críticas sobre o estado das coisas no país [Ler: Para que haja paz, Israel precisa reconhecer dor palestina).

Porque o seu ato fundador parece sempre em aberto, não concluso, enquanto o debate sobre as fronteiras permanecer como fator de desentendimento, violação de direitos e opressão.

O território é um dos requisitos, segundo a doutrina do direito internacional público, para todo e qualquer reconhecimento de um estado. O povo, a história e, contemporaneamente, a democracia, são outros requisitos, além da língua. O que ata a fundação do Estado de Israel à fundação do Estado Palestino nunca esteve tão próximo e nunca foi tão equivalente, em termos de fragilidade política. Os palestinos, pode-se objetar, são obviamente muito mais frágeis e militarmente desqualificados frente às Forças de Defesa de Israel. É verdade; mas também é verdade que Israel enfrenta crises mais profundas e enfraquecedoras do que os palestinos. Para Israel a crise é social, é governamental, está na oposição, na relativa distância do seu aliado de primeira hora (os EUA), atualmente imerso na própria e difícil agenda e na sua falta de autoridade moral.

Tudo se passa como se, finalmente, os acontecimentos tenham tornado a íntima e necessariamente íntima vinculação entre palestinos e israelenses auto evidente. A hipótese remota de que o estado palestino e o estado israelense coadunem um modo de existir pacífico, em acordo com a comunidade internacional e com relativo financiamento de bem estar para os seus povos (inclusive os hoje refugiados), a cada requisito elementar preenchido – mesmo como hipótese remota -, parece mais utópica e ingênua. A “justiça social”, a “primavera árabe” de longa duração e o movimento internacional dos palestinos comparecem, na atual conjuntura, como miragens desejosas de habitarem um horizonte. Caso esse horizonte se apresente, afinal, como um só, então pode ser que algo concreto seja reconhecido, e então se tenha uma alternativa, como defendeu o professor e historiador Tony Judt, que defendeu a retomada da tese da esquerda socialista europeia e israelense, nos anos 60 (em sua maior parte, judia) de um estado republicano, laico, único, binacional.

Para uma miragem ou outra, muitas fronteiras, além de território, terão de ser estabelecidas.

Fonte: Carta Maior

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mudanças Geopolíticas no Oriente Médio e o Ocidente


O governo dos EUA historicamente tem promovido uma imagem de comprometimento com a liberdade e os preceitos democráticos ao redor do globo. Mas nas últimas décadas, para ser mais preciso após o ataque contra o WTC em 11 de setembro de 2001 assistimos a abertura de uma verdadeira cruzada rumo ao Oriente Médio, arrastando para essa nova guerra seus aliados.

Relativo a esta afirmação temos várias questões a serem analisadas e pontos de vista a serem interpretados para compor uma posição fidedigna a real situação e interesses envolvidos naquela região tão instável e importante de nosso planeta.

Após os ataques terroristas de 11 de setembro, o então presidente George W. Bush assumiu posição de “cruzado” ao declarar a dita “guerra ao terror”, onde iniciou uma campanha sem precedentes na história, desrespeitando resoluções das Nações Unidas em prol dos interesses americanos de combater o terrorismo transnacional e a rede Al Qaeda de Osama Bin Laden, milionário saudita que nos anos 80 foi apoiado pelo governo americano para promover um movimento de insurgência e oposição á ocupação Soviética no Afeganistão que agora se tornaria o inimigo número 1 do Ocidente. Aonde vimos não só uma série de desrespeitos as normas e leis internacionais, mas a violação dos direitos humanos e principalmente a sua tão defendida liberdade individual.

No ano de 2005 Bush enviou a sua então representante Condoleza Rice ao Cairo como forma de reafirma o apoio da Casa Branca as reformas democráticas que cresciam na região, declarando assim uma nova postura política em relação ao Oriente Médio, onde a exaltação da estabilidade mesmo que fosse mantida sob governos totalitários e repressores das liberdades individuais que imperavam até então na região estava sendo revisada em prol do apoio aos movimentos pró-democráticos, mostrando a influência exercida pelos novos conceitos geoestratégicos e políticos. Cito como exemplo um livro que Bush constantemente citava ou recomendava como leitura: “The Case for Democracy. The Power of freedom to overcome tyranny & terror” de Natan Sharansky.

A primeira analise podemos ter a impressão que na visão Americana, a sobrevivência dos preceitos de liberdade e do “American way of life” estavam ligados diretamente e dependente do sucesso da democracia e “liberdade” em outros países, sob uma teoria que a democracia tem como característica em seu regime político a orientação pacífica na resolução de conflitos e interesses tanto no âmbito interno quanto exterior nos Estados que adotam o regime democrático, teoricamente com isso tornando menores os focos de tensão que culminam em guerras e conflitos armados entre estados soberanos ou mesmo conflitos internos como guerras civis e movimentos separatistas.

Já na Europa temos a vertente dos conceitos de Brzezinski, que considera a postura America de se por como a polícia do mundo e os paladinos defensores da liberdade e democracia muito perigosa, principalmente pela sua movimentação extremamente hostil e até certo ponto xenófoba, onde o árabe era comumente rotulado como radical terrorista até que se prove o contrário, somando a tudo isso à ilegitimidade de campanhas como a promovida no Iraque, onde se descumpriu as resoluções na ONU.

Brzezinski defendia uma postura alternativa com foco na promoção das políticas pró-direitos humanos.

Hoje alguns anos após a mudança americana em relação ao apoio as reformas democráticas no Oriente Médio, presenciamos uma verdadeira onda que varre os governos daquela região, ressaltando que a principal mola propulsora deste movimento que atinge não só o Oriente Médio, mas também o norte da África, que conveniente costumo me referir como um anexo à região devido aos fortes laços culturais e religiosos que estão profundamente arraigados a esta região da África, tornando assim em minha concepção uma extensão do Oriente Médio, seja pela aproximação de valores sociais ou a proximidade estratégica, possui como pano de fundo não uma ideologia política ou religiosa como muitos tem tentado justificar os fatos. Este locomotor dos fatos e o principal ator são os movimentos de classe, principalmente apoiados e promovidos pela população que compõe a base da sociedade destes Estados, onde há pouco mais de duas décadas assiste a degradação das suas condições de sobrevivência em relação às grandes riquezas que seus Estados adquiriram neste período com a exploração do petróleo.


Podemos notar em relação à postura dos EUA no inicio da década passada em sua cruzada pela liberdade e democracia rumo ao Oriente Médio e os dias atuais, é que diferente do ocorrido no Iraque e Afeganistão, onde o movimento democrático foi inserido pela força da ocupação estrangeira, hoje na Tunísia, Egito e demais países que passam por esse processo de mudanças, esta iniciativa foi interna, partiu de dentro e não imposto por um ator externo.

O que nos mostra a confirmação de que um regime não pode ser imposto à força por atores externos ao estado. Com isso temos um bom “laboratório” para analisarmos as questões políticas nesta região do planeta. Onde temos uma clara definição sobre a postura de intervenção nos assuntos internos dos países não só daquela região, mas como um todo, classificando esta medida como um grande erro.

O processo regimentar deve ser definido pelo povo e não imposto a força a um povo por governos alheios ao seu meio. Cabendo aos demais estados e governos a se portarem com expectadores, se limitando ao apoio aos processos apenas, mesmo não sabendo qual será o seu resultado final.

Cria-se, no entanto grandes questões difíceis de solucionar: Como fazer que os acessos a liberdades e os direitos democráticos tenham sucesso? Ou como garantir a estabilidade da região sem uma intervenção externa na política destes estados?

Como em todo processo, as mudanças não podem definir claramente um futuro de imediato, há vários caminhos que podem ser percorridos e escolhidos, levando assim ao que podemos convencionar como “sucesso” algo que não podemos ter pré-definido.
Toda mudança enfrenta várias influências e esta suscetível ao sucesso ou fracasso, isso vai depender do ponto de vista adotado e ao resultado final do processo como citei, mas no caso do Oriente Médio, temos ali vários ingredientes que tornam o estudo ainda mais complexo. Só para termos uma pequena noção, lidamos na região com a influência religiosa, embora em boa parte destes estados esta seja limitada, temos a participação das divisões sociais de acordo com sua linha religiosa, assim temos movimentos que competem entre si dentro da própria população, elencamos aqui os Xiitas x Sunitas, há os interesses externos e os interesses da elite dessas nações e principalmente o ator econômico comum em todas as relações geopolíticas e estratégicas mundiais.

O ideal para a região seria uma transição rápida e ordeira como temos acompanhado, por exemplo, no Egito. Há um governo transitório e a organização em breve de eleições populares para eleger um novo governo de acordo com os preceitos da democracia. Mas mesmo havendo uma transição política rápida, ainda teremos outro problema que manterá a tensão dentro dos estados e poderá resultar em futura instabilidade interna e desordem, a economia.

A crise econômica regional que se abateu e influenciou nas mudanças que assistimos, não dá sinais de que vá mudar á curto ou médio prazo, não oferecendo uma resposta imediata aos anseios da população que enfrenta o desemprego e dificuldades de cunho social. Sendo a tendência atual o agravamento desta crise econômica, principalmente pelo próprio movimento popular, devi do a sua mobilização pelas mudanças gerou um enorme prejuízo á sua economia, atingindo desde o comércio local ao turismo.

Com relação mais uma vez aos EUA e seus aliados europeus, o significado do “sucesso” para estes será manter uma zona de influência e um relativo controle sobre a política no Oriente Médio, em especial nos Estados produtores de petróleo, mantendo aliados estratégicos como o Bahrein, Arábia Saudita, Iêmen dentre alguns que cito.

Para o Ocidente a provável perda de parceiros estratégicos, como no caso de Hosni Mubarak no Egito, põe em dúvida a estabilidade relativa que se possuía na região, pois se perde um importante aliado nas fronteiras de Israel, principalmente devido à histórica contenda entre árabes e israelenses. Não sabemos ainda como será a transição no Egito e quem assumirá as rédeas do país, tornando nebuloso e imprevisível o futuro da região.


Por Angelo D. Nicolaci - Editor do GeoPolítica Brasil e estudante de Relações Internacionais pela Universidade Cândido Mendes GeoPolítica Brasil

quinta-feira, 10 de março de 2011

Revolta árabe: o colapso da velha ordem do petróleo


Qualquer que seja o resultado dos protestos, levantes e rebeliões que agora varrem o Oriente Médio, uma coisa é certa: o mundo do petróleo será permanentemente transformado. Considere tudo que está acontecendo agora como apenas a primeira vibração de um petro-terremoto que irá sacudir nosso mundo em suas bases.

Por um século, voltando até a descoberta de petróleo no sudoeste da Pérsia, antes da Primeira Guerra, forças ocidentais têm repetidamente promovido intervenções no Oriente Médio para garantir a sobrevivência de governos autoritários dedicados à produção de petróleo. Sem tais intervenções, a expansão das economias ocidentais após a Segunda Guerra e a atual abundância das sociedades industriais seria inconcebível.
Aqui, porém, está a notícia que deveria estar na capa dos jornais em todos os lugares: a velha ordem que sustenta esse petróleo está morrendo, e com o seu fim veremos também o fim do petróleo barato e de fácil acesso – para sempre.

O fim da era do petróleo?
Vamos tentar medir o que exatamente está em risco nos tumultos atuais. Para começar, não há praticamente chance alguma de fazer justiça completa ao papel fundamental que o petróleo do Oriente Médio representa na equação de energia do planeta. Embora o carvão barato tenha originalmente movido a Revolução Industrial, sendo o combustível das estradas de ferro, navios a vapor e fábricas, o óleo barato fez possível o automóvel, a indústria da aviação, os subúrbios, a agricultura mecanizada, e uma explosão de economia globalizada. E enquanto umas poucas principais região de produção deram início à era do petróleo– EUA, México, Venezuela, Romênia, a área próxima a Baku (então parte do Império Russo) e as índias Orientais Holandesas – é o Oriente Médio que tem satisfeito a sede de petróleo do planeta desde a Segunda Guerra.

Em 2009, o ano mais recente para o qual existe dados, a BP relatou que os fornecedores no Oriente Médio e norte da África conjuntamente produziram 29 milhões de barris por dia, ou 36% do produzido no planeta – e nem mesmo isso começa a sugerir a importância da região para a economia baseada em petróleo. Mais que qualquer outra local, o Oriente Médio tem canalizado sua produção para a exportação, de modo a satisfazer as necessidades de energia de poderosos importadores de petróleo como os EUA, China, Japão e União Europeia. Estamos falando de 20 milhões de barris destinados aos mercados internacionais a cada dia. Compare isso com a Rússia, o maior produtor individual, com sete milhões de barris destinados a exportação, com o continente africano e seus seis milhões, ou a América do Sul com apenas um milhão.

Os produtores do Oriente Médio serão ainda mais importantes nos anos vindouros pois estima-se que possuam dois terços das reservas não exploradas de petróleo. Segundo projeções recentes do Departamento de Energia dos EUA, o Oriente Médio e o Norte da África irão responder juntos por aproximadamente 43% do suprimento de petróleo do mundo em 2035 (em 2007 era 37%) e irão produzir uma parte maior ainda do que é destinado a exportação.

Falando diretamente: a economia mundial requer um suprimento cada vez maior de petróleo a um preço razoável. O Oriente Médio pode prover isso. É por isso que governos Ocidentais tem apoiado por tanto tempo regimes autoritários “estáveis” pela região, providenciando com regularidade suprimentos e treinamentos para as forças de segurança. Agora essa ordem, ferida e petrificada, cujo maior sucesso foi prover petróleo para a economia mundial, está se desintegrando. Não conte com qualquer nova ordem (ou desordem) para fornecer suficiente petróleo barato para preservar a Era do Petróleo.

Para compreender as razões disso, uma breve aula de História é necessária.

O golpe iraniano
Depois que a Companhia de Petróleo Anglo-Persa (APOC, pela sigla em inglês) descobriu petróleo no Irã (então Pérsia), em 1908, o governo britânico procurou exercer controle imperial sobre o estado persa. O arquiteto-chefe dessa manobra foi Winston Churchill, então primeiro Lorde Comissário do Almirantado da Marinha Real britânica. Tendo ordenado a conversão dos navios de guerra do carvão para o óleo antes da Primeira Guerra e determinado a colocar uma significativa fonte de petróleo sob controle de Londres, Churchill orquestrou a nacionalização da APOC em 1914. Na véspera da Segunda Guerra, o então primeiro-ministro Churchill supervisionou a remoção do pró-germânico mandatário persa Shah Reza Pahlavi e a ascendência de seu filho de 21 anos, Mohammed Reza Pahlavi.

Embora inclinado a explorar (míticos) laços com o passado império Persa, Mohammed Reza Pahavi foi uma ferramenta dos britânicos. Seus comandados, porém, estavam cada vez menos dispostos a tolerar a subserviência a Londres. Em 1951, o democraticamente eleito primeiro-ministro Mossadeq ganhou apoio parlamentar para a nacionalização da APOC, renomeando-a Anglo-Iraniana Companhia de Petróleo (AIOC). O movimento foi amplamente popular no Irã, mas causou pânico em Londres. Em 1953, a fim de salvar o seu grande troféu, os líderes britânicos engendraram - conjuntamente com o a administração do presidente Eisenhower em Washington e com a CIA – um golpe de estado que depôs Mossadeq e trouxe Mohammed Reza Pahlavi (também Shah ou Xá) de volta do exílio em Roma, uma história recentemente contada por Stephen Kinzer no livro “Todos os Homens do Xá” (editora Bertrand Brasil).

Até sua deposição em 1979, o xá exerceu um controle cruel e ditatorial sobre a sociedade iraniana, graças em parte ao generoso apoio militar e policial dos EUA. Primeiro ele esmagou a esquerda secular, os aliados de Mossadeq, e então a oposição religiosa, liderada do exílio pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. Devido à brutal exposição à polícia e ao material de cárcere fornecido pelos EUA, os oponentes do xá vieram a odiar a monarquia e Washington na mesma medida. Em 1979, o povo iraniano tomou as ruas, o xá foi deposto e Khomeini chegou ao poder.

Muito se pode aprender desses eventos que levaram ao atual impasse nas relações entre EUA e Irã. O ponto chave para se ater aqui porém é que a produção de petróleo iraniana nunca se recuperou da revolução de 1979-1980.

Entre 1973 e 1979 o Irã havia alcançado um fluxo de quase seis milhões de barris de petróleo por dia, um dos maiores do mundo. Depois da revolução, AICO (rebatizada British Petroleum ou simplesmente BP) foi nacionalizada pela segunda vez e gestores iranianos assumiram as operações da companhia. Para punir os novos líderes iranianos, Washington impôs duras sanções de comércio, dificultando os esforços da companhia estatal de petróleo para obter tecnologia e ajuda estrangeira. O fluxo iraniano caiu para dois milhões de barris por dia, e mesmo passadas três décadas, retornou para apenas algo perto de quatro milhões de barris por dia, ainda que o país possua a segunda maior reserva do mundo, depois da Arábia Saudita.

Sonhos do invasor
O Iraque seguiu uma trajetória assustadoramente similar. Sob Saddam Hussein, a Iraque Companhia de Petróleo (IPC) produziu até 2,8 milhões de barris por dia até 1991, quando a primeira Guerra do Golfo com os EUA e as sanções derrubaram a produção para meio milhão de barris por dia. Embora em 2001 a produção tenha subido para quase 2,5 milhões de barris por dia, nunca mais encontrou os níveis máximos. Conforme o Pentágono se preparava para a invasão do Iraque em final de 2002, porém, as pessoas de dentro da administração Bush e expatriados iraquianos bem relacionados sonhavam com o surgimento de uma era de ouro na qual empresas estrangeiras de petróleo seriam convidadas a retornar ao país, a companhia nacional de petróleo seria privatizada e a produção chegaria a níveis nunca antes vistos.

Quem esquece os esforços da administração Bush e de seus oficiais em Bagdá para que o sonho virasse realidade? Afinal de contas, os primeiros soldados norte-americanos a chegar a capital iraquiana protegeram o prédio do Ministério do Petróleo, mesmo que isso deixasse os saqueadores livres para agir no resto da cidade. Paul Bremer III, o cônsul mais tarde escolhido pelo presidente Bush para supervisionar a formação do novo Iraque, trouxe uma equipe de executivos do petróleo dos EUA para supervisionar a privatização da indústria de petróleo do país, enquanto que o departamento de Energia previa, confiante, em maio de 2003 que a produção iraquiana poderia subir para 3,4 milhões de barris por dia em 2005 e para 5,6 milhões em 2020.

Obviamente que nada disso virou verdade. Para muitos iraquianos a decisão dos EUA de se dirigir imediatamente para o prédio do Ministério do Petróleo foi um ato decisivo para que um possível apoio na derrubada de um tirano se transformasse em raiva e hostilidade. A condução de Bremer da privatização da estatal de petróleo produziu forte retaliação nacionalista de engenheiros, que essencialmente sabotaram o plano. Não demorou para a explosão de uma insurgência sunita em larga escala. A produção de petróleo rapidamente caiu, registrando em média 2 milhões de barris por dia entre 2003 e 2009. Em 2010, finalmente voltou à marca dos 2,5 milhões -- ainda um deserto de distância daqueles sonhados 4,1 milhões. Não é difícil chegar a uma conclusão: esforços de forasteiros para controlar a ordem política do Oriente Médio visando um maior fluxo de petróleo irão inevitavelmente gerar pressões opostas que resultarão em menor produção.

Os EUA e outros poderes que observam os levantes, as rebeliões e os protestos que varrem o Oriente Médio devem estar precavidos certamente: seja quais forem seus desejos políticos e religiosos, as populações locais sempre acabam por abraçar uma feroz e apaixonada hostilidade à dominação estrangeira e irão escolher independência e a possibilidade de liberdade ao aumento de produção. As experiências do Irã e do Iraque não podem ser comparadas com as da Argélia, Bahrein, Egito, Jordânia, Líbia, Omã, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão, Tunísia e Iêmen.

Todas eles, porém (e outros países próximos de serem arrastados para a crise), exibem alguns elementos de molde politico-autoritário e estão conectados com a velha ordem do petróleo. Argélia, Egito, Iraque, Omã e Sudão são produtores de petróleo; Egito e Jordânia mantêm oleodutos vitais e, no caso do Egito, uma passagem crucial (Canal de Suez) para o transporte do óleo; Bahrein, Iêmen e Omã ocupam pontos estratégicos ao longo de importantes rotas marítimas.

Todos recebiam substancial ajuda militar dos EUA e/ou abrigam importantes bases militares dos norte-americanos. E em todos esses países o coro é o mesmo: "O povo quer que o regime seja derrubado". Dois deles já foram, três estão balançando e há outros em risco. O impacto nos preços internacionais do petróleo têm sido rápido e impiedoso: em 24 de fevereiro, os preços do Brent do Mar do Norte, uma referência da indústria, quase alcançou 115 dólares por barril, o mais alto desde o colapso financeiro de outubro de 2008. O West Texas Intermediate, igualmente padrão, rápida e ameaçadoramente passou a barreira dos 100 dólares.

Por que os Sauditas são fundamentais
Até agora, o mais importante produtor do Oriente Médio, a Arábia Saudita, ainda não exibiu sinais claros de vulnerabilidade, do contrário os preços teriam disparado ainda mais. Porém, o vizinho Bahrein enfrenta profundos problemas; dezenas de milhares de manifestantes -- mais de 20% da sua população de meio milhão de habitantes - tem repetidamente ido às ruas apesar das ameaças de repressão a bala, em um movimento pela abolição do governo autocrático do rei Hamad ibn Isa al-Khalifa, e sua substituição por um comando genuinamente democrático. Esses acontecimentos são especialmente preocupantes para a liderança saudita, já que a pressão por mudanças em Bahrein está sendo conduzida pela maioria xiita, há muito tempo alvo de abusos da minoria sunita encastelada no poder.

A Arábia Saudita também tem grande população xiita (embora não em maioria como em Bahrein) que da mesma forma sofre com a discriminação dos mandatários sunitas. Há nervosismo em Riyadh, medo que a explosão em Bahrein possa se espalhar para a adjacente e rica em petróleo província do oeste – a área do reino onde os xiitas formam a maioria – criando um desafio para o regime.

Parcialmente para obstruir qualquer rebelião juvenil, o rei Abdullah, aos 87 anos, acabou de prometer crédito de 10 bilhões de dólares, parte de um pacote de 36 bilhões em mudanças econômicas, para ajudar jovens sauditas que pretendem se casar e comprar casas e apartamentos.

Mesmo que a revolta não alcance a Arábia Saudita, a velha ordem do Oriente Médio não pode ser reconstruída. O resultado, sem dúvidas, será um declínio de longo prazo na disponibilidade futura de petróleo para exportação. Três quartos dos 1,7 milhões de barris produzidos diariamente pela Líbia foram rapidamente tirados do mercado conforme a agitação tomou conta do país. Muito disso segue desconectado e fora do mercado por um período indefinido. Pode-se esperar que Egito e Tunísia retomem a produção – modesta em ambos os casos – a níveis pré-revolução, mas é improvável que abracem os tipos de parcerias com empresas estrangeiras que possam alavancar a produção às expensas do controle local. Iraque, cuja principal refinaria de petróleo foi severamente danificada por insurgentes na semana passada, e Irã não mostram sinais de serem capazes de aumentar a produção substancialmente nos próximos anos.

O papel fundamental caberá à Arábia Saudita, que acaba de aumentar a produção para compensar as perdas do mercado com a Líbia. Mas não espere que esse padrão se mantenha para sempre. Assumindo que a família real sobreviva ao atual momento de rebeliões, com toda certeza terá que direcionar mais de seu fluxo diário para satisfazer os níveis de consumo doméstico e incentivar a indústria petroquímica local, que poderá oferecer trabalhos mais bem remunerados à sua crescente e inquieta população.

Entre 2005 e 2009, os sauditas usaram cerca de 2,3 milhões de barris diários, deixando aproximadamente 8,3 milhões para a exportação. Apenas se a Arábia continuar a fornecer pelo menos essa quantia para os mercados internacionais o mundo poderá manter seu padrão de consumo de petróleo. Isso não deve acontecer. A família real saudita tem se mostrado relutante em aumentar a extração de petróleo para além de 10 milhões de barris por dia, temendo comprometer os seus campos remanescentes e causar um declínio dos lucros futuros. Ao mesmo tempo, o aumento da demanda doméstica deverá consumir uma parte cada vez maior da produção da Arábia Saudita. Em abril de 2010, o executivo-chefe da saudita Aramco, Khalid al-Falih, previa que o consumo doméstico poderia alcançar surpreendentes 8,3 milhões de barris por dia por volta de 2028, deixando apenas uns poucos milhões de barris para a exportação e garantindo que, se o planeta não conseguir mudar para outras fontes de energia, enfrentará problemas de fornecimento de petróleo.

Em outras palavras, para quem quiser traçar uma trajetória razoável para os atuais acontecimentos no Oriente Médio já há um esboço na parede. Como nenhuma outra região é capaz de substituir o Oriente Médio como principal exportador de energia do planeta, a economia do petróleo irá encolher - e com ela a economia do planeta como um todo..

Considere o recente aumento nos preços do petróleo apenas um tímido anúncio do petro-terremoto que está por vir. O petróleo não desaparecerá dos mercados internacionais, mas nas próximas décadas não irá mais alcançar os volumes necessários para satisfazer a estimada demanda global, o que significa que escassez será a condição dominante do mercado – mais cedo do que tarde. Apenas o veloz desenvolvimento de fontes alternativas de energia e a dramática redução do consumo de derivados de petróleo pode salvar o mundo das mais severas repercussões econômicas.

Fonte: Carta Maior e GeoPolítica Brasil

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Chegou a vez do Coronel Kadafi?


A marcha das revoluções continua com vigor no mundo árabe. Agora é a vez da Líbia. Os protestos tiveram início com a prisão do advogado líbio e ativista dos direitos humanos Fathi Terbil dias antes do "Dia de Fúria" (17 de fevereiro).

Terbil representa um grupo de famílias cujos filhos foram massacrados (por volta de 1200 prisioneiros opositores do regime) pelas autoridades da Líbia, em 1996, em Trípoli (prisão de Abu Salim). No dia 17 de fevereiro, o líbio-americano Najla Abdurrahman escrevia, indignado, um artigo na revista Foreign Policy com o seguinte título: líbios estão entregando suas vidas para derrubar Muammar al-Gaddafi. Será que ninguém está prestando atenção?

Com razão. Até o momento não há nenhum sinal de qualquer ação mais contundente da celebrada “comunidade internacional”. Mesmo após centenas de mortos, no 5º dia de repressão, a repercussão ainda é pequena. O que seria de se estranhar, num primeiro momento, pois o regime de coronel Kadafi está no poder mais tempo do que qualquer outra ditadura no mundo árabe (42 anos) além de ser responsável por várias ações terroristas na década de 80.

Mas, não deixa de ser tão surpreendente assim se lembrarmos que, em 2008, a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, realizou um tour no norte da África passando por Tunísia, Argélia, Marrocos e Líbia ( coincidência?) declarando, ao final, que as relações entre os EUA e a Líbia entravam numa nova era de cooperação.

Quando questionada sobre o problema dos direitos humanos naquele pais, Rice disse que havia discutido com o Sr Kadafi “de maneira respeitosa”. O ministro líbio de Relações Exteriores, por sua vez, disse que a presença de Rice foi a prova de que a Líbia, os EUA e o mundo tinham mudado. Sem dúvida nenhuma que o mundo mudou! A Líbia foi reabilitada de seu status de Estado pária, em 2003, concordando em abandonar seu programa nuclear e promover a abertura aos investimentos ocidentais, principalmente para as grandes empresas petrolíferas que assinaram contratos bilionários.

A Líbia, conformando-se às resoluções da ONU, livrou-se do embargo econômico, e passou a restabelecer seus laços políticos e diplomáticos com os países europeus e os EUA, reintegrando-se na comunidade internacional. Em 2006, o coronel Kadafi aderiu a um programa para instaurar o livre mercado e reconheceu o papel central da iniciativa privada na Líbia, preparando o caminho para implementar as chamadas reformas econômicas sob a supervisão do FMI e do Banco Mundial. O ministro Tony Blair teve atuação destacada nesse entendimento aprovando ainda a venda de gás lacrimogêneo, armas de “controle de multidões”, fuzis e metralhadoras para Bahrein e Líbia.

O embaixador norte-americano na Líbia, Cretz, em depoimento no Carnegie Endowment for Peace, em 2008, informou que houve grandes progressos durante esses dois anos de “normalização” nas relações EUA-Líbia e que estava iniciando uma cooperação significativa entre os dois países. Cretz elogiou ainda os esforços de privatização, enfatizando que as missões de comércio dos EUA tiveram excelente receptividade.

No que se refere aos Direitos Humanos, o embaixador afirmou existir um diálogo aberto e franco entre os dois paises, reconhecendo, entretanto, que a promoção da democracia é uma questão delicada e deve ser abordada com cuidado.

Mas o embaixador esqueceu de mencionar que a economia da Líbia continua extremamente dependente das flutuações dos preços internacionais do petróleo e do gás. Os bilhões de dólares acumulados ao longo dos anos não foram utilizados para diversificar a economia. Há uma enorme discrepância entre as várias classes sociais e seus respectivos setores produtivos. O setor agrícola, por exemplo, emprega 20% da força de trabalho, embora contribua apenas com 2% do PIB. O setor industrial, incluindo petróleo, gás e petroquímica, é responsável por mais de 60% do PIB, e emprega menos de 25% da força de trabalho. As taxas de desemprego variam entre 20 a 30 %.

É importante notar que a Líbia é um Estado-nação sui generis onde as ligações tribais são fundamentais. Kadafi tem governado por meio da mediação de um "comitê de liderança social", composto por cerca de 15 representantes de várias tribos que tem presença até mesmo dentro das fileiras das forças armadas, cada qual representando um grupo tribal. Assim, ao contrário dos militares da Tunísia ou Egito, a inexistência de coesão e profissionalismo não permite a intervenção para resolver o conflito com os manifestantes.

Ainda não se sabe quais as unidades militares foram envolvidas na tentativa de conter os distúrbios e se há cisão entre elas. Também não sabemos se são verídicas as informações de que há mercenários e criminosos contratados pelo governo. Entretanto algumas declarações que começam a circular na mídia podem indicar o desfecho da crise. Uma das lideranças mais destacadas da poderosa tribo Al-Zuwayya disse à rede Al Jazeera que já intimou o coronel Kadafi deixar o país, ameaçando cortar as exportações de petróleo.

Infelizmente, ao que tudo indica, o alerta do filho de Kadafi, de que há risco iminente de uma verdadeira guerra civil, parece ser procedente, pois como bem observou um jornalista perspicaz o comportamento dos manifestantes e das forças de segurança dão razão para acreditamos que qualquer recuo de um dos lados significará a morte ou a prisão definitiva. Será que ninguém está disposto a ajudar os líbios?

Por Reginaldo Nasser, Professor de Relações Internacionais da PUC-SP

Fonte: Carta Maior

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A longa Revolução Árabe: dois tipos de revoltas


A revolta árabe de 2011 é incessante. Os protestos continuam em lugares tão improváveis como Bahrein. No Valentine’s Day [Dia dos Namorados no hemisfério norte ocidental], uma marcha de protesto em Manama não tinha amor para dar à família real al-Khalifah. Queria enviá-los sua mensagem: “Nossa exigência é uma constituição escrita pelo povo”, cantavam os manifestantes. O líder da oposição, Abdul Wahab Hussain disse à imprensa: “O número de policiais do batalhão de choque é imenso, mas nós mostramos que o uso da violência contra nós só nos torna mais fortes”. A polícia usou balas de borracha até em pequenos grupos. “Isso é só o começo”, disse Hussain, depois de ter sido atingido nas ruas.

Essas manifestações só parecem improváveis porque a onda de protestos que irrompeu no fim dos anos 50 e chegou aos 70 foi interrompida no início dos anos 80. Encorajada pela derrubada do monarca no Egito com o golpe liderado por Gamal Abdel Nasser, as pessoas comuns ao redor do mundo árabe queriam suas próprias revoltas. O Iraque e o Líbano seguiram a mesma linha. Na península, o povo queria o que Fred Halliday chamou de “Arábia sem sultões”. Os militantes da Frente de Libertação do Golfo Árabe Ocupado emergiram da batalha de Dhofar (Oman). Queriam levar adiante sua campanha à toda a península. Em Bahrein, o braço mais tímido da batalha foi a Frente Popular. Não durou muito. Com o declínio do Nasserismo nos anos 70, chegou um novo momento para esse republicanismo árabe a partir da Revolução Iraniana de 1979. A Frente Islâmica de Libertação do Bahrein tentou dar um golpe em 1981. Eles tinham a mesma inspiração, mas não a organização. Esse arquipélago árabe não pôde traçar o caminho do Iêmen, onde uma revolução levada a cabo por uma organização marxista tomou o poder em 1967.

Os esforços dessas forças revitalizadas nos anos 90 encontraram forte resistência do regime al-Khalifah. Mas o seu novo dirigente, Hamad (graduado na Universidade Cambridge), foi esperto. Ele conhecia uma coisa ou outra de hegemonia, mas não o suficiente para chocar as lideranças islâmicas. Rapidamente convocou um parlamento eleito, permitiu que as mulheres votassem e libertou alguns prisioneiros políticos. Não foi o bastante para satisfazer Washington e as companhias de petróleo. Nada de estabilidade que pareça democracia.

O vírus egípcio de 2011, no entanto, supera a democracia de fachada de Hamad. Os protestos estão de volta.

O contágio não é apenas político. É também, talvez decisivamente, econômico. A riqueza de Bahrein depende de seu petróleo. O dinheiro do petróleo induz à especulação imobiliária (o modelo Dubai). Os beneficiários desse processo tem sido a família real e seus comparsas. O povo, de maioria xiita, está furioso porque quase toda sua riqueza não tem destinação social. Com medo da população xiita, o monarca importou 50 mil trabalhadores para reconfigurar a paisagem demográfica. Essa política bahranizista serviu como cortina de fumaça para pôr os trabalhadores locais contra os estrangeiros. Não deu certo. Para piorar, um dos resultados da crise de crédito desde 2007 tem sido a proposta do governo de Bahrein de cortar subsídios de alimentos e combustíveis. Por causa da ira do povo essa proposta já foi retirada. A juventude, na Tunísia, no Egito e no Iêmen é muito parecida com a juventude da Grã Bretanha, da Irlanda, da França, Itália – todos estão nas ruas contra a austeridade. A população jovem está no front das revoltas porque são quem mais tem a perder com os cortes e com as políticas que hipotecam seus futuros. Essas são também, portanto, convulsões contra os excessivamente remunerados agentes (banqueiros) das superpotências (a elite de Davos e suas instituições).

Enquanto isso, a quinta frota dos EUA tem uma base em Bahrein. O vice-almirante Mark Fox deve delegar poder aos vagabundos da EA-6B para ações de emergência.

As informações sobre a Revolta Árabe confundem. Há aqueles que se refugiam no aspecto trans-histórico, vendo nela um exemplo da luta pela dignidade humana. Os árabes estavam com raiva. Não podiam mais aguentar. Isso tudo é muito bom, mas é generalidade demais. Por que os protestos acontecem agora, por que desta maneira, por que essas exigências?

Há outros que vão noutra direção, longe do aspecto trans-histórico, para uma circunstância específica. Eles pensam que explicações amplas são reducionistas, de modo que se refugiam no contingente: este evento (a imolação) leva a que este evento (protesto), que leva a um outro evento (a ocupação da Praça Tahrir), e então ao grande evento (Mubarak fugir para a beira do mar vermelho). A história se torna uma série de eventos que mede as mudanças sem ir além da superfície.

Essas tentativas de entender a Revolta Árabe levam a duas direções: elas confundem essas revoltas com revolução e tendem a vê-las como a revolução de 2011 contra a de 1952, liderada por Nasser. Por mais inspiradoras que essas revoltas atuais sejam, elas são parte de um longo processo no mundo Árabe que remonta ao século XIX. Esse longo processo é a Revolução Árabe, cuja luta é por uma transformação total das estruturas de dominação que constrangem o futuro árabe. Um episódio desta longa Revolução Árabe é a revolta de Nasser em 1952. Ela foi derrotada no fim dos anos 60, e retornou no Egito (e no mundo árabe) contra sua subordinação histórica. Outro episódio é a onda atual. A longa Revolução Árabe põe duas questões que permanecem sem resposta. Elas podem lançar as bases para entender o que está em curso nas terras árabes. A primeira questão é a sua política; a segunda, sua economia.

Política

Quando os árabes comandarão a si mesmos, e não serão comandados por ditaduras de partidos únicos e monarcas sustentados por mercados de ações e capital externo? Não há muito tempo a França de Sarkozy e os EUA de Clinton rendiam homenagens aos seus amigos “democráticos” Ben Ali e Mubarak. Para superar a obscenidade só Obama se reunindo com os sauditas para debater a transição democrática no Egito, o que é como perguntar a um vegetariano como se faz uma costela minga.

Em 1953, o velho rei Farouk içou as velas em seu iate al-Mahrusa protegido pela marinha egípcia, e acenou para quem considerava seus inferiores: Nasser, filho de um carteiro, e Sadat, filho de um pequeno fazendeiro. O golpe que eles tentaram visava a romper de uma vez com a monarquia e com a dominação imperial. A nacionalização da infraestrutura econômica veio junto à reforma agrária. Mas foram mal concebidas e eles não conseguiram domar o poder da burguesia egípcia (cujo vício pelo dinheiro fácil continuou, com três quartos de novos investimentos inflacionando uma bolha imobiliária). A economia sofreu uma sangria para suportar a ampliação do aparato militar, majoritariamente voltado para combater os armamentos estadunidenses dos israelenses. A derrota do Egito na guerra de 1967 levou Nasser a renunciar em 10 de junho. Milhares de pessoas tomaram as ruas do Cairo, desta vez para pedir a Nasser que voltasse ao gabinete, coisa que ele fez, embora muito enfraquecido.

A abertura democrática de 1952, no entanto, não conseguiu emergir. Oficiais militares, embora progressistas, relutaram em tomar as rédeas do poder. O aparato de segurança da Fraternidade Muçulmana certamente não, mas é ferozmente contra os comunistas. Nasser não construiu uma cultura política independente forte. Seu ‘socialismo’, como Stavrianos anotou, “foi um socialismo por decreto presidencial, implementado pelo exército e pela polícia. Não houve iniciativa ou participação enraizada da sociedade civil”. Por essa razão, quando Sadat moveu o país para a direita, nos anos 70, quase não havia oposição a ele. O nasserismo depois de Nasser era um vazio como o peronismo depois de Perón.

A revolta atual é contra o regime levado a cabo por Sadat e desenvolvido por Mubarak. É um estado de segurança nacional sem pretensões democráticas. Em 1977 Sadat identificou o nasserismo com “campos de detenção, custódia e sequestro e um sistema de única opinião e um só partido”. Sadat permitiu que três tipos de forças emergissem, então rapidamente os enfraqueceu (caso do de esquerda Partido do Grupo Progressista Nacional), cooptou (o Partido Socialista Árabe e o Partido Liberal Socialista) ou tolerou a existência (Irmandade Muçulmana). Astutamente, Sadat pôs em ação o que acusava Nasser de fazer. Foi sob Sadat e Mubarak (com Omar Suleiman a reboque) que os campos de detenção e as câmaras de tortura floresceram.

Na Praça Tahrir, Ahmed Abdel Moneim, de 22 anos, disse: “Levou muito tempo, depois da Revolução Francesa, para o povo vir a ter seus direitos efetivados”. Esta luta em 2010 consiste em repelir o estado de segurança nacional. Essa é a exigência básica para retomar o slogan da Revolução Francesa. A dinâmica de que Ahmed quer tomar parte é a do nasserismo, mas desta vez sem os militares. Esta é uma lição da história.

A outra lição vem de Nadine Naber, que nos lembra que a mulher forma parte crucial desta onda de revolta, como o fez nas anteriores e, mesmo assim, quando as revoltas são bem sucedidas as mulheres são postas de lado, como agentes políticas secundárias. “Quais são as possibilidades de uma democratização de direitos no Egito”, pergunta Naber, “em que a participação das mulheres, os direitos das mulheres, o direito de família e os direitos de organização, de protesto e de liberdade de expressão sejam centrais?” Naber repete uma questão levantada em 1957 por Karima El-Said, a vice-ministra de educação da República Árabe Unida: “Em países afro-asiáticos onde o povo ainda sofre o jugo do colonialismo, as mulheres participam ativamente na luta por uma independência nacional completa. Elas estão convencidas de que este é o primeiro passo para sua emancipação e as qualificará para ocupar um verdadeiro lugar na sociedade”. Esta é a segunda lição da história, que a democracia que emerja capacite as pessoas.

Economia

A segunda questão sem resposta da longa Revolução Árabe tem a ver com o pão e com a dignidade do trabalho. Quando as economias da região árabe serão capazes de sustentar suas populações, antes de engordarem instituições financeiras no mundo Atlântico, e de ofereceram fundos maciços e seguros para ditadores e monarcas? Amaldiçoado pelo petróleo, o mundo árabe tem visto pouca diversificação econômica e quase não consegue usar a riqueza do petróleo para fomentar e equilibrar o desenvolvimento social para o povo. Em vez disso, o dinheiro do petróleo migra para o Norte, para providenciar crédito a consumidores superaquecidos nos EUA e alimentarem os bancos de vastos fundos que de outra forma não acumulariam, com uma população que parou de poupar (há muito que os estadunidenses economizam 1% de seus contracheques, um quadro compreensível, dada a estagnação de salários desde 1973). O dinheiro do petróleo também foi para o boom imobiliário no Golfo, e para as mesas de cristais baccarat e seguranças, de Mônaco (a Las Vegas da Europa, que tem outro monarca decrépito, Albert II, como representante).

Como parte da des-nasserização do Egito, Sadat abriu a economia (infatah) para o capital externo. A nacionalização e os subsídios acabaram, e as zonas de livre comércio foram criadas em fevereiro de 1974. Sadat queria uma “transfusão de sangue” para a economia egípcia, e então os bancos do Atlântico começaram a tirar litros de sangue da sofrida classe trabalhadora egípcia. Devolveram-nos com lojas de bebidas e boates (o centro dos ataques de janeiro de 1977 no Cairo). A desigualdade floresceu no Egito e as políticas neoliberais produziram uma alta burguesia com mais investimento em Londres do que na Alexandria. Em 2008, algo como 40% da população vivia com menos de 2 dólares por dia. Em outubro de 2010, o judiciário ordenou ao governo que aumentasse o salário mínimo de 70 dólares por mês para 207. Dado que Sadat e Mubarak inviabilizaram a tentativa de criar uma economia diversa, o Egito agora depende de renda externa para sua sobrevivência (remessas de trabalhadores emigrados, pedágios do Canal de Suez, exportação de gás e petróleo, divisas oriundas do turismo e pagamento pela privatização, entre outros). Parte substancial desses recursos foi desviada por Mubarak aos seus comparsas, nos bancos suíços. Não há democracia para sua economia. O tirano aqui não é somente Mubarak, mas o FMI, o Banco Mundial, os bancos, os mercados de ações, as corporações multinacionais.

Greves de trabalhadores em todo o Egito, protestos diante do palácio presidencial, protestos nos mercados de alimentos – esta é a face da revolta em curso. Os egípcios parecem ter clareza de que a derrubada de Mubarak também significa o fim da libertação do neoliberalismo que tomou conta do país nos anos 70. Eles querem expandir a mobilização social para dirigirem melhor a entrada de recursos que leve o país a ampliar sua atividade econômica.

Ao longo dos últimos vinte anos, vimos dois tipos de revoltas. As primeiras, de tipo das do leste europeu, por exemplo, foram revoltas contra a opressão do estado da era soviética. Indiferente à destruição das promessas desse socialismo, o povo refugiou-se no glamour da economia de mercado. Foram revoltas pelo mercado. Duas décadas depois, o europeu do leste imagina que se tornou um pesadelo horrendo. O segundo tipo são essas revoltas no mundo árabe hoje, mas também a revolta do povo das Filipinas contra Marcos e do povo da Indonésia contra Suharto, foram revoltas contra o mercado. Revoltas massivas que quiseram aumento salarial. Começaram como revoltas contra autocracias longevas (Ben Ali, Mubarak, Marcos, Suharto) e desembocaram numa luta por uma ordem social e econômica diferente.

Para a região árabe, esses eventos de 2011 não são a inauguração de uma nova história, mas a continuação de uma luta sem fim, que tem 100 anos. Algumas pessoas já caíram em desânimo, menosprezando as quedas de Ben Ali e Mubarak. Esses acontecimentos fortalecem a confiança do povo e põem as lutas em movimento. A velha ordem pode permanecer, ainda, mas se sabe que seu tempo está acabando. No filme Gladiador (Ridley Scott, 2000), os bárbaros germânicos arrancam a cabeça de um soldado romano e a jogam na frente das linhas de batalha romanas. Um dos generais romanos diz: “As pessoas deveriam saber quando são conquistadas”. Ele quis dizer os bárbaros. Os ditadores do mundo árabe, nossos bárbaros, podem arremessar algumas cabeças, ainda, diante do avanço do povo. Mas já devem saber que estão derrotados. É simplesmente uma questão de tempo: 100 anos ou 10.

Por: Vijay Prashad é o titular da cadeira George e Martha Kellner de História da Ásia do Sul e diretor de estudos internacionais no Trinity Colleg, Hartford, TC. Seu livro mais recente, The Darker Nations: A People's History of the Third World, [As nações mais escuras: uma história do povo do Terceiro Mundo] ganhou o prêmio Muzaffar Ahmad de melhor livro de 2009.

Fonte: Carta Maior

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tunísia, Egito, Marrocos… Essas “ditaduras amigas”

Os meios de comunicação e jornalistas ocidentais insistiram durante décadas que Tunísia e Egito, eram “Estados moderados”? Atualmente a horrível palavra “ditadura” estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano ao regime iraniano.

Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os seus leitores devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”?

A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia ocidental? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia.

Sua prodigiosa vitória liberou os europeus e outros povos "ocidentais" da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossas mídias.

Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que nós estudiosos e críticos da visão unilateral das grandes mídias já sabíamos há algum tempo, a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados.

Por acaso Nicolás Sarkozy ( 1º ministro francês)não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?

“Não havíamos apreciado em sua justa medida…” Em 23 anos…Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país…Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência…). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio… Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação… Democracia ruinosa…

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelos EUA e seus aliados ocidentais que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical.

O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.

Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, a grande mídia, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso.

E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores, preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.

Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo.

As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção”.

Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde.

Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução.

Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade”.

Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.

A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.

Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país (Marrocos), uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas.

Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.

No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos líderes políticos ocidentais, os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião.

Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat. Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”.

Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (hipocrisia dos governos ocidentais dando guarita a essas ditaduras corruptas).

Ainda que as autoridades ocidentais desmintam as informações sobre o apoio as ditaduras do passado e do presente., está claro que a sociedade dos outros países árabes está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas ditatoriais existente no Norte da África e Oriente Médio. E nos amantes da verdadeira democracia devemos cobrar todos aqueles que,nos EUA e na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.


Fonte: agenciacartamaior - texto original de Ignacio Ramonet com tradução Marco Aurélio Weissheimer

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Egito. O que está à vista? Mudança de liderança ou de regime?


Há doze dias, ainda não tinham começado as manifestações de protesto, a grande prioridade da comunidade ocidental era a preservação da estabilidade no Egito.

O tempo de alguma pressão sobre Mubarack para “abrir” o regime, de que Bush foi um dos protagonistas, não resistiu ao desfecho das eleições na Palestina que deu a vitória ao Hamas. Acabaram por prevalecer as preocupações sobre a segurança de Israel, de que o Egito se tinha tornado pedra-chave em 1978, data do Acordo de Paz, a prioridade do combate ao terrorismo e islamismo radical, e a segurança das fontes de abastecimento de petróleo na região.

Agora pretende-se uma transição ordeira para um regime democrático, uma verdadeira democracia e um diálogo nacional, para usar as próprias palavras da Secretária de Estado americana; mas com uma ressalva: a de que não resulte daí um regime que fomente a violência e o caos, acrescentou depois Hilary Clinton.

Faz sentido a preocupação, mas não se sabe como isso poderá ser garantido, quando a principal força da oposição é a Irmandade Muçulmana que não dá essa garantia e não se vêm outros movimentos políticos com força suficiente para evitar esse desfecho de uma forma democrática.

Mubarack, entretanto, deu mais uma contribuição para evitar que a oposição se una, encarregando o recentemente nomeado Vice-Presidente (Suleiman) de vir a público para mostrar disponibilidade do regime para falar com a oposição e prometer a repetição das eleições de Novembro para o Parlamento em todos os distritos onde os tribunais reconheceram ter havido fraudes.

Recorde-se que o Partido de Mubarack garantiu então a ocupação de 209 dos 211 lugares possíveis no Parlamento. A facção pragmática da oposição verá aqui uma saída da crise, mas as outras continuarão, muito provavelmente, a insistir que só aceitam negociar diretamente com os militares.

A divisão da oposição pode interessar diretamente a Mubarack mas dificilmente interessará ao País. A Mubarack pode vir a permitir-lhe ter argumentos, em face da continuação prolongada do caos de que a população não gosta (principalmente quando o pão aumentou quatro vezes de preço nos últimos dias), para atuar ao seu estilo contra os que não se mostrem disponíveis para entrar em acordos. Ao País em geral e em particular para os que desejam voltar ao seu dia a dia tão cedo quanto possível não interessa porque a falta de um representante único dos descontentes vai prolongar o impasse em que o País se encontra.

Mubarack pode ter a expectativa de que o prolongamento da situação vai cansar os que protestam e a seu tempo causar baixas por desistência mas pode acontecer exatamente o contrário: aumentar a impaciência e agravar-se o conflito.

Estará o Exército à altura de conter a crise? Para já contenta-se em manter uma estabilidade mínima marcando claras linhas vermelhas de proteção das instituições.

Não contando com a polícia para o primeiro controle da segurança do país e não desejando pôr em causa o crédito de prestígio de que desfruta na população, não lhe resta senão tentar contemporizar o mais possível. Até quando? Provavelmente até ao momento que se sentir que a sua autoridade fica irremediavelmente em causa.

Mubarack optou por um caminho cheio de riscos para tentar sair airosamente da crise; começou por fazer algumas promessas, aparentemente pensadas para trazer para o seu lado a fração pragmática da oposição - os que pensam que se já esperaram 30 anos bem podem agora esperar oito meses até às próximas eleições. Resolveu apostar também no cansaço dos manifestantes, agora já no décimo primeiro dia de demonstrações com confrontos entre facções pró e contra a agravarem-se de dia para dia.

Presumivelmente, Mubarack espera que os incidentes que começaram a verificar-se, já não sendo apenas demonstrações de protesto, lhe dão margem suficiente de legitimidade para exigir que o Exército se interponha entre as partes e imponha a ordem.

No entanto, as Forças Armadas ainda não terão feito a opção final sobre o caminho a adotar. As forças estacionadas na Praça Tahrir, que supostamente deviam controlar a situação, mantêm-se, de forma estranha, quase indiferentes ao que se passa à sua volta; nem sequer impediram, como é elementar, que a multidão acabasse por envolve-los totalmente, ficando dessa forma quase de mãos atadas. Nesta postura, vai ser muito difícil mudarem para uma postura de intervenção ativa, como a situação o exige.

Quanto mais demorarem a decidir-se por recuperar o controlo da situação mais esta se agravará e mais difícil será então resolvê-la. Terão muito provavelmente que chamar outras forças; as que têm estado no terreno dificilmente terão condições de atuar.

Mubarack não tem outro apoio a que possa recorrer, mas nem mesmo este recurso está a gerir inteligentemente. Ao nomear um militar (ex-Chefe do Estado Maior da Força Aérea) para o cargo de Vice-Presidente, está a dar ao País a imagem que, afinal, as Forças Armadas continuam a funcionar como a tábua de salvação do regime. Quando a população não tiver dúvidas sobre isso, então a imagem quase mítica de que o Exército beneficia junto dos egípcios começará a esvanecer-se rapidamente e acabará o crédito de confiança que dispõe para gerir o processo de transição.

De algum modo isso já está acontecer; o aproveitamento político do prestígio dos militares, que tentou fazer com a nomeação do Vice-Presidente, já não chegou para evitar que a oposição não aceite essa decisão desde o primeiro momento.

Os EUA e agora também a UE, em particular os cinco que objetivamente se manifestaram sobre a situação (França, Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha), insistem que a transição “deve começar já” embora em nenhuma circunstância refiram que o processo deve começar pela saída do Presidente. Começa, no entanto, a ficar explícito que é precisamente isso que esperam a fim de evitar maior deterioração da situação. Fica a incógnita preocupante do rumo que o País poderá tomar a partir daí; em especial, saber se a oposição secular conseguirá organizar-se em tempo oportuno e de modo eficaz a “travar o passo” aos avanços da Irmandade Muçulmana.

Obviamente, os interesses ocidentais sairão seriamente comprometidos se a queda do regime se processar em favor de grupos radicais ou de um regime que questione a paz com Israel. No entanto, o risco, pelo menos, não é imediato. Não havendo nenhuma força política por detrás dos manifestantes, para já o processo de transição será liderado pelas Forças Armadas. Depois será um processo político impossível de prever e como tal preocupante.

Para o curto prazo, o interessante é uma notícia que passou a circular recentemente relacionada a Israel. Mesmo ferindo os termos de um Acordo de 2005 com o Egito (na seqüência dos Acordos de Paz), Israel tinha autorizado o estacionamento de dois batalhões do Exército egípcio (cerca de 800 homens) em Shar-el-Sheikh, na Península do Sinai; é um movimento curioso porque nada explica essa movimentação e começou-se a especular com o fato de Mubarack ter uma residência nessa zona.

É possível que o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas egípcias esteja a considerar uma solução de saída minimamente digna à volta dessa possibilidade, com o apoio de Israel e dos EUA. Se esta associação tem de fato consistência então temos aí um sinal de que um primeiro desfecho da situação poderá estar para breve.

Fonte: Jornal da Defesa e Relações Internacionais postado http://brasilnicolaci.blogspot.com/

domingo, 30 de janeiro de 2011

As causas da explosão popular no Egito


As mobilizações populares na Tunísia, Egito, Iêmen e em outros lugares são um alerta para o chamado mundo desenvolvido e seria uma grande avanço para a democracia se esta região que permanece imersa na violência, em fraudes eleitorais e miséria crescente da população recebesse o devido apoio internacional nesse momento.

O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os EUA poderão revisar a ajuda ao Egito. O presidente Obama solicitou às autoridades egípcias que evitem o uso de qualquer tipo de violência contra manifestantes pacíficos, alertando que " aqueles que protestam nas ruas têm uma responsabilidade de expressar-se pacificamente. Já a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que a “estabilidade do país é muito importante, mas não a qualquer preço”. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que "os líderes do Egito escutem as preocupações legítimas e os desejos de seus cidadãos”. O primeiro ministro britânico David Cameron declarou: “Eu acho que precisamos de reformas. Quero dizer que nós apoiamos o progresso e o reforço da democracia”.

Como avaliar a atitude desses líderes mundiais? Patética, cínica, hipócrita, irresponsável? Talvez devêssemos recorrer a um grande pensador liberal do século XIX, Aléxis de Tocqueville, e ouví-lo a respeito dos períodos revolucionários na França. Tocqueville alertava para o fato de líderes, que adquiriram experiência em lidar com a política em ambiente de ausência de liberdade, quando se encontraram diante de uma revolução que chegou “inesperadamente”, se assemelhavam aos remadores de rio que, de repente, se vêem instados a navegar no meio do oceano. Os conhecimentos adquiridos em suas viagens por águas calmas vão proporcionar mais problemas do que ajuda nessa aventura, e na maioria das vezes exibem mais confusão e incerteza do que os próprios passageiros que supostamente deveriam conduzir.

Já havia sinais reveladores dessas turbulências, mas o Ocidente preferia se preocupar com burcas, minaretes e terrorismo. Um relatório do Banco Mundial, publicado em 2009, informava que os países árabes importavam cerca de 60% dos alimentos que consomem e já são os maiores importadores de cereais no mundo, dependendo de outros países para a sua segurança alimentar. A elevação dos preços nos mercados mundiais, desde 2008, já causou ondas de protestos em dezenas de países e milhões de desempregados e pobres nos países árabes, como foram os casos da Argélia , em 1988, e da Jordânia em 1989. Um exemplo mais recente, além da região árabe, é o Quirguistão onde um aumento da eletricidade e tarifas de celulares causaram manifestações com dezenas de mortos e milhares de feridos.

Aqueles que temem o crescimento do “islamismo radical” como fator de instabilidade nessa região, deveriam estar mais atentos em relação às “ditaduras amistosas” que, na verdade, são as principais responsáveis pela insegurança no mundo. Desemprego em massa, preços dos alimentos e repressão política é uma combinação explosiva mais perigosa do que os homens bomba.

A demografia no mundo árabe é também um grande problema. A população cresceu cinco vezes durante o século XX, e o crescimento continua a uma média anual de 2,3%. A população do Egito está em torno de 80 milhões. Em 2050 (de acordo com projeções da ONU) deverá ter 121 milhões. A população da Argélia irá crescer de 33 milhões em 2007 para 49 milhões em 2050; a do Iêmen de 22 a 58 milhões. Isso significa que mais empregos precisam ser criados - e mais alimentos importados, ou aumentar a capacidade para produzir mais. No caso do Egito dois terços da população são jovens abaixo de 30 anos, dos quais 90% estão desempregados.

Baseada no turismo, na agricultura e na exportação de petróleo e algodão, a economia é incapaz de sustentar a taxa de crescimento demográfico. 40% da população vive com menos de US$ 2 (R$ 3,30) por dia, o país está na 101ª posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)

De certa forma a auto-imolação do jovem tunisiano, Mohamad Bouazizi, que deflagrou a onda de protestos na Tunisia revela, no nível individual, aquilo que está acontecendo nas sociedades daquela região como um todo. Ele não se rebelou, apenas porque não encontrou trabalho que refletisse suas ambições profissionais, mas sim quando um oficial da polícia confiscou as frutas e legumes que estava vendendo sem autorização. Quando foi fazer uma reclamação para buscar justiça, sua demanda foi rejeitada.

Provavelmente foi este sentimento de injustiça que levou Mohamed Bouazizi e milhares de pessoas às ruas, empenhados em quebrar o ciclo da miséria e opressão.

Talvez seja mais confortável para a chamada comunidade internacional lidar com um mundo árabe dividido entre nacionalistas, relativamente seculares, de um lado e islamismo radical, de outro, do que um mundo mais complexo, com problemas econômicos, sociais e políticos que conta com sua cumplicidade.

Fonte : altamiroborges.blogspot.com, artigo de Reginaldo Nasser, publicado no sítio Carta Maior:

sábado, 29 de janeiro de 2011

Analistas comparam protestos no Oriente Médio


Logo depois da derrubada do presidente da Tunísia Zine El Abidine Ben Ali, observadores traçaram paralelos entre os protestos tunisianos e os que ocorrem em outros países da região.

Existe especulação a respeito de um possível efeito dominó, parecido com o que levou ao colapso de governos comunistas na Europa Oriental a partir de 1989.

Em vários países do Oriente Médio ou do norte da África, populações jovens que aumentam cada vez mais enfrentam problemas como o aumento dos preços do alimentos, altos índices de desemprego e falta de representação política. Alguns países são liderados por autocratas envelhecidos que também enfrentam problemas de sucessão.

A BBC analisa abaixo os países envolvidos e a real possibilidade de mudança em cada um deles.


EGITO
O Egito tem muitas semelhanças com a Tunísia: dificuldades econômicas, corrupção no governo e pouca oportunidade para seus cidadãos expressarem insatisfação com o sistema político. O presidente Hosni Mubarak, de 82 anos, tem o monopólio quase completo do poder e ocupa a Presidência nas últimas três décadas, além de buscar a reeleição em 2011.

Foram relatados vários casos de autoimolação no Egito em janeiro, em aparentes tentativas de imitar as ações do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, que ateou fogo ao corpo em dezembro e morreu dias depois no hospital, desencadeando o protesto que acabou resultando na derrubada do presidente Ben Ali.

No dia 25 de janeiro, a profunda frustração de egípcios comuns foi parar nas ruas do Cairo. Manifestantes, muitos com bandeiras tunisianas e egípcias, foram às ruas em grande números, algo que não era visto desde a década de 70. Grupos de oposição exigiram a renúncia do presidente Mubarak e pediram o fim da pobreza, corrupção, desemprego e de abusos da polícia.

A polícia foi pega de surpresa pelo tamanho e força das demonstrações, de acordo com o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne.

Mas, a mudança não virá tão facilmente para o Egito. O país é oito vezes maior que a Tunísia, a população tem menos educação e menos acesso à internet. Os sindicatos não são tão poderosos e o forte aparato de segurança de Mubarak é bem equipado e mais experiente no combate a dissidentes.


IÊMEN
O Iêmen teve vários dias de protestos. O país é um dos mais pobres do mundo árabe e metade da população vive com menos de US$ 2 (cerca R$ 3,30) por dia.
Jovens e grupos de oposição tomaram as ruas da capital, Sanaa, e a cidade de Áden, no sul do país, exigindo a renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh, no poder há quase 32 anos.

Para tentar diminuir os protestos, Saleh anunciou no dia 23 de janeiro que tinha ordenado um corte pela metade no imposto de renda e dado instruções ao governo para controlar os preços de mercadorias básicas. Ele também negou acusações de que estava planejando entregar o poder a seu filho, Ahmed.

O governo do Iêmen também libertou 36 pessoas presas por participarem dos protestos, incluindo a ativista Tawakul Karman, famosa por defender os direitos humanos no país.

Mas, ao mesmo tempo, o presidente aumentou os salários de funcionários públicos e funcionários das Forças Armadas, uma medida que visa, aparentemente, manter a lealdade destes empregados. E também enviou a tropa de choque e soldados para áreas importantes do Iêmen.


ARGÉLIA
Enquanto os protestos aumentavam na Tunísia, o vizinho do oeste, a Argélia, também teve grandes números de jovens tomando as ruas. Assim como na Tunísia, os problemas econômicos parecem ter sido o gatilho que desencadeou os protestos, particularmente os grandes aumentos nos preços de alimentos.

O país vive em estado de emergência desde 1992 e demonstrações em público na capital, Argel, foram proibidas. Mas há protestos repentinos regularmente em outros lugares do país.

Nas últimas semanas, estes protestos ocorreram simultaneamente em toda a Argélia pela primeira vez, incluindo em Argel.

No entanto, os protestos não aumentaram de intensidade como na Tunísia, algo que analistas afirmam ser consequência da reação mais contida das forças de segurança, além da intervenção do governo para limitar os aumentos de preços.

O governo da Argélia tem uma riqueza considerável, vinda da exportação de petróleo e gás, e está tentando enfrentar as demandas econômicas e sociais com um grande programa de gasto público. Mas as reclamações continuam, incluindo a insatisfação da população com desemprego, corrupção, burocracia e falta de reformas políticas.

A tumultuada história recente da Argélia contrasta com a da Tunísia. O país teve a abertura do sistema político em 1988, que resultou no relaxamento de restrições à imprensa e eleições multipartidárias. Por sua vez, isto levou a um conflito sangrento entre forças de segurança e rebeldes islâmicos.


LÍBIA
A reação do líder líbio, Muamar Khadafi, no sábado, à queda do presidente Ben Ali, da Tunísia, parece refletir seu nervosismo em relação a um possível efeito dominó na região.

"Não há ninguém melhor que Zine para governar a Tunísia. A Tunísia agora vive com medo", disse o líbio.

Depois de 41 anos no poder, Khadafi é o líder que está no poder há mais tempo na África e no Oriente Médio, e também o mais autocrático.

Protestos de qualquer tipo são proibidos no país, mas há informações de que houve manifestações na cidade de al-Bayda. No entanto, a população da Líbia é muito menor e o país tem muitas riquezas advindas do petróleo.


JORDÂNIA
Milhares participaram de manifestações na Jordânia em um chamado "dia de fúria" no sábado, protestando contra o aumento do preço dos alimentos e o desemprego. Alguns exigiram a renúncia do primeiro-ministro Samir Rifai.

O governo diminuiu os preços de certos alimentos e de combustíveis, mas manifestantes afirmam que é preciso fazer mais para enfrentar a pobreza causada pela inflação.

A Jordânia é uma monarquia e algumas partes da sociedade são leais à família real. O rei Abdullah 2º, que ocupa o trono desde 1999, parece ter escapado à maior parte da fúria dos manifestantes.

E, até agora, os protestos foram pacíficos e não ocorreram prisões.


MARROCOS
Como a Tunísia, o Marrocos está enfrentando problemas econômicos e acusações de corrupção no poder.

A reputação do governo do Marrocos foi atingida depois que o site Wikileaks revelou acusações de crescente corrupção, principalmente nos negócios da família real e também da "espantosa ambição" de pessoas próximas ao rei Mohammed 6º.



Fonte: BBC Brasil

domingo, 5 de dezembro de 2010

Palestinos elogiam "solidariedade" brasileira por reconhecer seu Estado


A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) chamou de mostra de "solidariedade" e "resposta não violenta ao unilateralismo israelense" a decisão do governo brasileiro de reconhecer o Estado palestino com fronteiras anteriores a 1967. O anúncio é um "reflexo da histórica amizade e irmandade dos povos brasileiro e palestino".

O apoio foi reafirmado em carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Mahmoud Abbas, presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), datada em 1º de dezembro de 2010, informou o Itamaraty.

O apoio não é uma novidade. O governo brasileiro já declarara apoio à formação de um Estado palestino nos territórios pré-1967 em uma votação da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em 1988. Mais recentemente, em fevereiro de 2006, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu em comunicado que Israel se retirasse dos territórios ocupados.

Em teoria, a afirmação corresponde à posição tradicional do Itamaraty, segundo a qual Israel tem o direito à segurança e à existência dentro de “fronteiras internacionalmente reconhecidas”, expressão que equivale às fronteiras existentes antes de 1967. Paralelamente, a diplomacia brasileira também reconhece o direito palestino de exercer sua soberania sobre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

O novo reconhecimento foi mais um gesto político de aproximação, feito por Lula em resposta a carta enviada por Abbas, no último dia 24 de novembro, com solicitação nesse sentido.

"A iniciativa é coerente com a disposição histórica do Brasil de contribuir para o processo de paz entre Israel e Palestina, cujas negociações diretas estão neste momento interrompidas, e está em consonância com as resoluções da ONU, que exigem o fim da ocupação dos territórios palestinos e a construção de um Estado independente dentro das fronteiras de 4 de junho de 1967", disse o texto.

O Itamaraty ressalta, contudo, "a decisão não implica abandonar a convicção de que são imprescindíveis negociações entre Israel e Palestina, a fim de que se alcancem concessões mútuas sobre as questões centrais do conflito".

O Itamaraty lembra que mais de cem países reconhecem o Estado palestino. "Entre esses, todos os árabes, a grande maioria dos africanos, asiáticos e leste-europeus. Países que mantêm relações fluidas com Israel, como Rússia, China, África do Sul e Índia, entre outros - reconhecem o Estado palestino. Todos os parceiros do Brasil no IBAS e no BRICS já reconheceram a Palestina".

A maior parte dos reconhecimentos veio após à Declaração de Independência adotada pelo Conselho Nacional Palestino, em novembro de 1988, em Argel. A declaração foi aprovada, no mesmo ano, pela Assembleia Geral da ONU com o voto favorável do Brasil.

O Brasil reconhece ainda, desde 1975, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) como legítima representante do povo palestino dotada de personalidade de direito internacional público. Em 1993, lista ainda o Itamaraty, o Brasil autorizou a abertura de Delegação Especial Palestina, com "status" diplomático semelhante às representações das organizações internacionais. Em 1998, o tratamento concedido à Delegação foi equiparado ao de uma Embaixada, para todos os efeitos.

Em 2004, o Brasil abriu Escritório de Representação em Ramallah, na Cisjordânia.

Fonte: EFE e http://brasilnicolaci.blogspot.com/