Acostumamo-nos a pensar na política como uma estrada esburacada e pedregosa por onde transita a democracia, mas, em verdade, ela não passa de um preço que se paga para viver no regime democrático, pois é uma atividade intrinsecamente vil, ainda que imprescindível.
Vemos políticos se portando como lordes ingleses em relação aos adversários e muito mais em relação aos correligionários, ao menos publicamente. Entretanto, isso não impede que mandem a fleuma para o espaço quando lhes convém.
Essa imagem de civilidade e respeito mútuo que os políticos tentam passar à sociedade é um biombo para uma atividade repleta de jogadas baixas, de covardia, de egolatria, de mentiras, de perversidade, de mesquinhez e, acima de tudo, da mais deslavada hipocrisia.
Mas as pessoas se esquecem de que os políticos não vieram de Marte, de Venus ou de outra dimensão. Eles saem do seio do povo e, quer queiramos quer não, são um retrato da sociedade que os elege. Isso quando há democracia – veja você, leitor.
Quando não há um sistema para excluir setores da sociedade da representação política – fenômeno que subverte o conceito de democracia –, os partidos, seus eleitos e as militâncias se constituem em mera amostragem do tecido social. E essa é a verdadeira democracia.
Se prevalecer esta tese – e, na opinião deste que escreve, prevalece –, não será bonito o retrato deste povo. Todavia, podemos nos consolar com o fato de que em praticamente qualquer sociedade a política é a mesma guerra que se vê no Brasil.
Ao contrário do que se pensa, os embates políticos mais duros – e, muitas vezes, os mais sujos – são travados, primeiro, entre os grupos políticos e em privado. Só depois de estabelecidas as estruturas de poder intrapartidárias é que os políticos passam a se engalfinhar publicamente.
Entre os grupos políticos é que começa a luta dissimulada, ou nem tanto, pelo protagonismo. Talvez este seja o estágio mais duro da política, pois aqueles que deveriam ser pares chegam a usar, sem hesitação, golpes que hesitariam em usar contra adversários declarados.
A diferença da política para a guerra é a de que a primeira não virou a segunda, ainda que ambas sejam faces da mesma moeda. No estágio político puro, portanto, os golpes são contra a imagem dos adversários do seu ou de outros grupos. Quando tais ataques “evoluem” para a violência, aí a política também “evolui” e vira guerra declarada.
E o pior é que ninguém foge da política. Pode-se fugir da partidária, mas não se foge da política que fazemos em nosso cotidiano em família, entre amigos ou no trabalho.
Estamos sempre buscando uma condição superior na hierarquia social ou na pública e quem se interpõem em tal busca acaba tendo que ser anulado, e não se anula um adversário usando flores e beijos…
Impressiona que, com tantos avanços tecnológicos que o homem logrou no curso da história, tão pouco tenha avançado em termos de organização social e política. Nesta última, aliás, foi onde logrou menos. Nesse ponto, estamos onde estávamos há pelo menos cem anos.
A conclusão é inescapável: um sinal de que o homem se civilizou um pouco mais só virá no dia em que surgir uma forma nova e menos vil de organização social e política, pois a forma atual nos mantém em um conflito permanente e irracional com os semelhantes.
Fonte: Por Eduardo Guimarães - http://www.blogcidadania.com.br
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sexta-feira, 2 de março de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Hipócritas reclamam de “uso político”
Começo a ficar irritado com observadores e analistas que se declaram preocupados com o “uso político” de determinados acontecimentos. Pergunto a origem desse comportamento. Recentemente até políticos se pronunciaram contra o “uso político” do despejo de moradores do Pinheirinho.
Um número imenso se revela incomodado com o “uso político” das UPPs no Rio de Janeiro. Idem para a Cracolândia. Para a taxa de juros.
O Bolsa-Família já foi muito criticado por seu “uso político.” O argumento era assim: “a idéia não é ruim. O problema é o uso político.”
Com esse argumento, procura-se separar o eventual benefício de determinada proposta daqueles dividendos (ou prejuízos) que ela poderia gerar às autoridades. Faz sentido?
Numa sociedade democrática, é natural que erros e acertos produzam efeitos políticos. Isso porque as pessoas se informam, têm liberdade para julgar, dão opinião, tomam partido, discutem. Seria hipocrisia fingir que não é assim.
Ousaria até dizer que a grandes ações e propostas dos governantes do mundo inteiro nascem como idéias políticas que, cedo ou tarde, serão usadas politicamente. A favor, quando dão certo. Contra, quando dão errado. O jogo é esse.
Quando pode desfrutar de liberdades públicas, uma sociedade faz “uso político” de tudo, o tempo inteiro. Quando fala de um buraco na rua, do aumento da violencia, da queda no desemprego.
Mesmo quem procura apoio em análises de caráter técnico — que sempre são as melhores num debate produtivo — também não deixa de fazer uso político dessas informações.
As queixas contra o “uso político” são uma forma de “uso político” também. É um recurso para desqualificar o argumento do adversário como interesseiro, desinformado, panfletário e, simultaneamente, dar um verniz desinteressado, técnico e maduro para o próprio ponto de vista.
Com uma retórica paternal, ou professoral, ou ambas, encobre-se a própria opinião política para assumir a postura de quem está acima do debate dos simples mortais. É uma forma de sugerir um saber superior, inalcançável para o cidadão comum.
Texto de Paulo Moreira Leite - http://colunas.revistaepoca.globo.com
Um número imenso se revela incomodado com o “uso político” das UPPs no Rio de Janeiro. Idem para a Cracolândia. Para a taxa de juros.
O Bolsa-Família já foi muito criticado por seu “uso político.” O argumento era assim: “a idéia não é ruim. O problema é o uso político.”
Com esse argumento, procura-se separar o eventual benefício de determinada proposta daqueles dividendos (ou prejuízos) que ela poderia gerar às autoridades. Faz sentido?
Numa sociedade democrática, é natural que erros e acertos produzam efeitos políticos. Isso porque as pessoas se informam, têm liberdade para julgar, dão opinião, tomam partido, discutem. Seria hipocrisia fingir que não é assim.
Ousaria até dizer que a grandes ações e propostas dos governantes do mundo inteiro nascem como idéias políticas que, cedo ou tarde, serão usadas politicamente. A favor, quando dão certo. Contra, quando dão errado. O jogo é esse.
Quando pode desfrutar de liberdades públicas, uma sociedade faz “uso político” de tudo, o tempo inteiro. Quando fala de um buraco na rua, do aumento da violencia, da queda no desemprego.
Mesmo quem procura apoio em análises de caráter técnico — que sempre são as melhores num debate produtivo — também não deixa de fazer uso político dessas informações.
As queixas contra o “uso político” são uma forma de “uso político” também. É um recurso para desqualificar o argumento do adversário como interesseiro, desinformado, panfletário e, simultaneamente, dar um verniz desinteressado, técnico e maduro para o próprio ponto de vista.
Com uma retórica paternal, ou professoral, ou ambas, encobre-se a própria opinião política para assumir a postura de quem está acima do debate dos simples mortais. É uma forma de sugerir um saber superior, inalcançável para o cidadão comum.
Texto de Paulo Moreira Leite - http://colunas.revistaepoca.globo.com
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
E se o PMDB engolir o DEM?
Cá na província, de agora até a quarta-feira de cinzas tudo é carnaval – e se fundem prévias de troças, blocos e agremiações diversas com balões de ensaio na política. E como papel aceita tudo, qualquer especulação pode virar notícia.
Assim, como gato escaldado que tem medo de água fria, leio a notícia veiculada na Folha de S. Paulo da última quarta-feira, 5, que dá conta de entendimentos entre o PMDB e o DEM com vistas a alianças nos pleitos municipais de outubro como uma espécie antessala de uma hipotética fusão futura entre os dois partidos. Com o olhar benevolente do Planalto. O próprio vice-presidente da República, Michel Temer, estaria no comando das tratativas.
Alianças diversificadas e muitas delas surpreendentes costumam acontecer em eleições para prefeito e vereador pelo país afora. No âmbito municipal a política é furta cor: legendas aliadas em plano estadual ou federal disputam entre si o poder local, assim como se formam coligações dentre as que se digladiam. Isto reflete a complexidade da sociedade brasileira e o grau ainda insatisfatório de construção da maioria dos partidos políticos. Não há necessariamente uma coerência verticalizada no comportamento dos partidos.
Por esse ângulo, nada a estranhar na notícia da Folha. Mas chama a atenção que um dos focos das conversações seja exatamente a capital de São Paulo; e se cogite de uma futura fusão entre o partido do vice-presidente e o partido da barulhenta bancada da extrema direita. Ou, dito de modo mais preciso, a absorção do DEM pelo PMDB.
O pano de fundo dessa especulação é algo maior do que o visível raquitismo do DEM; está na fragilidade da oposição como um todo. Sem rumo, sem discurso, sem proposições alternativas à orientação adotada pelo governo federal os partidos oposicionistas quase que se limitam a replicar o que se publica na grande mídia, esta sim convertida em força organizada de combate ao governo. De tal sorte que o trio PSDB, DEM e PPS, abatido em anemia crônica, tende a se enfraquecer mais ainda.
Bom ou ruim? À primeira vista a absorção do DEM poderia favorecer o governo da presidenta Dilma, premiada com o alargamento de sua base de sustentação parlamentar. Mas nem tanto, pois reforçaria o setor mais conservador dessa base, em desvantagem para o segmento mais avançado da coalizão governista.
Numa visão mais de longo prazo, melhor seria que houvesse uma oposição partidária programática capaz de alimentar a polêmica acerca dos rumos da Nação, incluindo o diretista DEM. Daria cor e consistência ao debate democrático e contribuiria (pelo confronto de ideias) para a formação de uma consciência social avançada, fator indispensável para a transformação da sociedade.
Fonte: brasil247 por Luciano Siqueira (membro do Comitê Central do PCdoB, deputado estadual em Pernambuco)
Assim, como gato escaldado que tem medo de água fria, leio a notícia veiculada na Folha de S. Paulo da última quarta-feira, 5, que dá conta de entendimentos entre o PMDB e o DEM com vistas a alianças nos pleitos municipais de outubro como uma espécie antessala de uma hipotética fusão futura entre os dois partidos. Com o olhar benevolente do Planalto. O próprio vice-presidente da República, Michel Temer, estaria no comando das tratativas.
Alianças diversificadas e muitas delas surpreendentes costumam acontecer em eleições para prefeito e vereador pelo país afora. No âmbito municipal a política é furta cor: legendas aliadas em plano estadual ou federal disputam entre si o poder local, assim como se formam coligações dentre as que se digladiam. Isto reflete a complexidade da sociedade brasileira e o grau ainda insatisfatório de construção da maioria dos partidos políticos. Não há necessariamente uma coerência verticalizada no comportamento dos partidos.
Por esse ângulo, nada a estranhar na notícia da Folha. Mas chama a atenção que um dos focos das conversações seja exatamente a capital de São Paulo; e se cogite de uma futura fusão entre o partido do vice-presidente e o partido da barulhenta bancada da extrema direita. Ou, dito de modo mais preciso, a absorção do DEM pelo PMDB.
O pano de fundo dessa especulação é algo maior do que o visível raquitismo do DEM; está na fragilidade da oposição como um todo. Sem rumo, sem discurso, sem proposições alternativas à orientação adotada pelo governo federal os partidos oposicionistas quase que se limitam a replicar o que se publica na grande mídia, esta sim convertida em força organizada de combate ao governo. De tal sorte que o trio PSDB, DEM e PPS, abatido em anemia crônica, tende a se enfraquecer mais ainda.
Bom ou ruim? À primeira vista a absorção do DEM poderia favorecer o governo da presidenta Dilma, premiada com o alargamento de sua base de sustentação parlamentar. Mas nem tanto, pois reforçaria o setor mais conservador dessa base, em desvantagem para o segmento mais avançado da coalizão governista.
Numa visão mais de longo prazo, melhor seria que houvesse uma oposição partidária programática capaz de alimentar a polêmica acerca dos rumos da Nação, incluindo o diretista DEM. Daria cor e consistência ao debate democrático e contribuiria (pelo confronto de ideias) para a formação de uma consciência social avançada, fator indispensável para a transformação da sociedade.
Fonte: brasil247 por Luciano Siqueira (membro do Comitê Central do PCdoB, deputado estadual em Pernambuco)
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Governo Federal - 2011: o ano em que a oposição sumiu
O principal fato político do ano não foi produzido pelo governo, como costuma ser, mas pela oposição. Foi, na verdade, um não fato: o desaparecimento da oposição partidária (sobrou apenas aquela que se abriga em setores da velha mídia e em alguns blogs).
O PSDB e seus satélites DEM e PPS sumiram da cena política brasileira junto com seus líderes, que não pararam de brigar entre si durante todo o ano, e deixaram o campo livre e tranquilo para a presidente Dilma Rousseff inaugurar o seu governo.
A tal da "Faxina da Esplanada", outro tema de destaque em 2010, que fez Dilma trocar sete ministros em menos de um ano, foi mais um evento de imprensa do que uma iniciativa do novo governo, que ainda não começou para valer, dando apenas continuidade ao que herdou.
O DEM, ou o que sobrou da antiga Arena, que virou PDS, PFL e outros partidos menores, foi engolido pelo PSD, a antiga sigla ressuscitada pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab.
Outro fato político de destaque do ano, o neo-PSD já nasceu com mais de 50 deputados e se tornou a terceira maior legenda do país. Com largo espectro ideológico ("não é de direita, nem de centro, nem de esquerda"), já nasceu governista.
Juntos, os três partidos de oposição chegaram ao final do ano com apenas 88 deputados federais (elegeram 109 em 2010), aos quais podemos agregar ainda os três figurantes do nanico PSOL, que também estão fora da monumental base aliada, mas correndo pela esquerda radical.
Levantamento publicado pela "Folha" neste final de semana contabiliza somente 17,5% das cadeiras da Câmara Federal ocupadas por parlamentares oposicionistas _ o menor índice desde a redemocratização do país.
Desta forma, a presidente Dilma Rousseff deitou e rolou no Congresso Nacional, aprovando tudo o que queria, sem maiores sacrifícios, a não ser atender aos apetites dos aliados, que lhe deram bem mais trabalho do que a indigente oposição.
Este cenário projeta um 2012 tranquilo para Dilma na área política, embora sua anunciada reforma ministerial possa deixar aqui e ali alguns descontentes entre os partidos aliados.
Diante desta maioria avassaladora, no entanto, levando ainda em conta os altos índices de aprovação popular da presidente Dilma e uma economia razoavelmente estabilizada, que alternativa restaria aos aliados que se sentirem rejeitos na reforma?
Vão se jogar ao mar para se agarrar às bóias murchas da oposição mambembe? Correrão para os braços de Serra, Aécio, Agripino Maia, Roberto Freire?
Aécio conseguiu derrotar Serra em todas as instâncias partidárias tucanas, mas o ex-governador paulista não quer largar o osso da sucessão presidencial em 2014 e o ex-govenador mineiro ainda não se afirmou como liderança oposicionista de expressão nacional. Os outros dois estão juntando os cacos.
Com Lula momentaneamente fora de combate tratando um câncer na laringe e Fernando Henrique Cardoso dedicando-se mais às suas palestras, já sem esperanças de dar um rumo ao PSDB, Dilma assumiu de vez o protagonismo político. Em outubro, enfrentará sua primeira eleição na cadeira de presidente dando as cartas numa posição bastante confortável, com cacife alto e sem concorrentes à vista para 2014.
Seus principais adversários não conseguem se entender nem para lançar um candidato para a Prefeitura de São Paulo, berço do tucanato, capaz de enfrentar Fernando Haddad, o candidato petista de Lula/Dilma. O PMDB, como de costume, a tudo assiste, calculando onde poderá obter maiores vantagens.
Em 2012, tudo pode mudar, claro, a depender do que vai acontecer com a abalada economia mundial. No final de 2011, porém, a um ano das eleições municipais, é este o quadro, absolutamente favorável ao governo central e seus aliados, e melancólico para a oposição.
O PSDB e seus satélites DEM e PPS sumiram da cena política brasileira junto com seus líderes, que não pararam de brigar entre si durante todo o ano, e deixaram o campo livre e tranquilo para a presidente Dilma Rousseff inaugurar o seu governo.
A tal da "Faxina da Esplanada", outro tema de destaque em 2010, que fez Dilma trocar sete ministros em menos de um ano, foi mais um evento de imprensa do que uma iniciativa do novo governo, que ainda não começou para valer, dando apenas continuidade ao que herdou.
O DEM, ou o que sobrou da antiga Arena, que virou PDS, PFL e outros partidos menores, foi engolido pelo PSD, a antiga sigla ressuscitada pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab.
Outro fato político de destaque do ano, o neo-PSD já nasceu com mais de 50 deputados e se tornou a terceira maior legenda do país. Com largo espectro ideológico ("não é de direita, nem de centro, nem de esquerda"), já nasceu governista.
Juntos, os três partidos de oposição chegaram ao final do ano com apenas 88 deputados federais (elegeram 109 em 2010), aos quais podemos agregar ainda os três figurantes do nanico PSOL, que também estão fora da monumental base aliada, mas correndo pela esquerda radical.
Levantamento publicado pela "Folha" neste final de semana contabiliza somente 17,5% das cadeiras da Câmara Federal ocupadas por parlamentares oposicionistas _ o menor índice desde a redemocratização do país.
Desta forma, a presidente Dilma Rousseff deitou e rolou no Congresso Nacional, aprovando tudo o que queria, sem maiores sacrifícios, a não ser atender aos apetites dos aliados, que lhe deram bem mais trabalho do que a indigente oposição.
Este cenário projeta um 2012 tranquilo para Dilma na área política, embora sua anunciada reforma ministerial possa deixar aqui e ali alguns descontentes entre os partidos aliados.
Diante desta maioria avassaladora, no entanto, levando ainda em conta os altos índices de aprovação popular da presidente Dilma e uma economia razoavelmente estabilizada, que alternativa restaria aos aliados que se sentirem rejeitos na reforma?
Vão se jogar ao mar para se agarrar às bóias murchas da oposição mambembe? Correrão para os braços de Serra, Aécio, Agripino Maia, Roberto Freire?
Aécio conseguiu derrotar Serra em todas as instâncias partidárias tucanas, mas o ex-governador paulista não quer largar o osso da sucessão presidencial em 2014 e o ex-govenador mineiro ainda não se afirmou como liderança oposicionista de expressão nacional. Os outros dois estão juntando os cacos.
Com Lula momentaneamente fora de combate tratando um câncer na laringe e Fernando Henrique Cardoso dedicando-se mais às suas palestras, já sem esperanças de dar um rumo ao PSDB, Dilma assumiu de vez o protagonismo político. Em outubro, enfrentará sua primeira eleição na cadeira de presidente dando as cartas numa posição bastante confortável, com cacife alto e sem concorrentes à vista para 2014.
Seus principais adversários não conseguem se entender nem para lançar um candidato para a Prefeitura de São Paulo, berço do tucanato, capaz de enfrentar Fernando Haddad, o candidato petista de Lula/Dilma. O PMDB, como de costume, a tudo assiste, calculando onde poderá obter maiores vantagens.
Em 2012, tudo pode mudar, claro, a depender do que vai acontecer com a abalada economia mundial. No final de 2011, porém, a um ano das eleições municipais, é este o quadro, absolutamente favorável ao governo central e seus aliados, e melancólico para a oposição.
sábado, 20 de agosto de 2011
O pacto administrativo de Dilma
Para entender os últimos passos de Dilma Rousseff - reunindo-se com governadores tucanos e com o ex-presidente FHC.
Alguns jornais imaginam que ela esteja se apeoximando da oposição como reação ao suposto esfacelamento de sua base de apoio.
Vamos com calma.
A gestão de Dilma na Casa Civil - especialmente na condução do PAC - foi marcada pela consolidação do pacto federativo. Considerava-se - com razão - ser impossível administrar obras por todo o país sem a parceria com estados e municípios. Foi um pactgo que funcionou bem porque compartilhava-se inclusive os frutos políticos de cada inauguração.
E funcionava porque não havia privilégios partidários na alocação de recursos. Prefeitura ou estado com um projeto consistente entrava em cada programa.
Tome-se o caso do Minha Casa, Minha Vida, em que as próprias prefeituras definiam por elas próprias as empreiteiras a atuar em sua cidade.
Enquanto a velha mídia declarava guerra, no Brasil administrativo consolidava-se um modelo fundamentalmente cooperativo.
Nas eleições de 2006 julguei que a fase dos templários na política (senadores, incendiários em geral) seria substituída pela era dos Estadistas - governos de Estado empenhados em consolidar o pacto federativo. E dizia claramente que seria a maneira de José Serra consolidar sua imagem. Obviamente faltou grandeza política para que ele percebesse o novo momento.
Agora reedita-se o pacto tendo um conjunto de governadores civilizados, incluindo Alckmin, Anastasia, mais os governadores aliados.
Com essa aproximação, além de azeitar a gestão de projetos - o que será bom para todas as partes envolvidas e especialmente para o país - Dilma tenta esvaziar os incendiários, restritos a José Serra (cada vez mais isolado em seu próprio partido) e alguns órgãos de imprensa.
Foi imprudente quando trabalhou de forma precipitada as denúncias da mídia, quando se afastou de sua base.
Mas nada que não possa ser corrigido com o tempo.
Texto de Nassif www.advivo.com.b
Alguns jornais imaginam que ela esteja se apeoximando da oposição como reação ao suposto esfacelamento de sua base de apoio.
Vamos com calma.
A gestão de Dilma na Casa Civil - especialmente na condução do PAC - foi marcada pela consolidação do pacto federativo. Considerava-se - com razão - ser impossível administrar obras por todo o país sem a parceria com estados e municípios. Foi um pactgo que funcionou bem porque compartilhava-se inclusive os frutos políticos de cada inauguração.
E funcionava porque não havia privilégios partidários na alocação de recursos. Prefeitura ou estado com um projeto consistente entrava em cada programa.
Tome-se o caso do Minha Casa, Minha Vida, em que as próprias prefeituras definiam por elas próprias as empreiteiras a atuar em sua cidade.
Enquanto a velha mídia declarava guerra, no Brasil administrativo consolidava-se um modelo fundamentalmente cooperativo.
Nas eleições de 2006 julguei que a fase dos templários na política (senadores, incendiários em geral) seria substituída pela era dos Estadistas - governos de Estado empenhados em consolidar o pacto federativo. E dizia claramente que seria a maneira de José Serra consolidar sua imagem. Obviamente faltou grandeza política para que ele percebesse o novo momento.
Agora reedita-se o pacto tendo um conjunto de governadores civilizados, incluindo Alckmin, Anastasia, mais os governadores aliados.
Com essa aproximação, além de azeitar a gestão de projetos - o que será bom para todas as partes envolvidas e especialmente para o país - Dilma tenta esvaziar os incendiários, restritos a José Serra (cada vez mais isolado em seu próprio partido) e alguns órgãos de imprensa.
Foi imprudente quando trabalhou de forma precipitada as denúncias da mídia, quando se afastou de sua base.
Mas nada que não possa ser corrigido com o tempo.
Texto de Nassif www.advivo.com.b
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Gastadores e farsantes
Existe um ponto falso na discussão economica americana. Os políticos conservadores gostam de se apresentar como cidadãos austeros, que defendem o dinheiro do contribuinte e evitam o desperdício. É uma forma de acusar os adversários de irresponsáveis e populistas, interessados em cortejar o eleitorado com favores do Estado.
O problema é que os supostos campeões da austeridade não conseguem sequer cumprir o ponto número 1 de seu discurso — a promessa de economizar dinheiro público. Na prática, foram eles que deram a principal contribuição para elevação do déficit americano.
O retrospecto mostra isso. Veja o levantamento. Em 1981, quando o republicano Ronald Reagan recebeu o governo do democrata Jimmy Carter, o déficit era de 1 trilhão de dólares. Reagan fez uma campanha de denúncia contra os gastos, atacou as despesas com a Previdencia — pouco depois, o mesmo discurso chegaria ao Brasil — mas no fim de seu governo conseguiu elevar o défict em US$ 1,9 trilhão.
Ou seja: desde 1776 os EUA acumulou um déficit de US$ 1 trilhão. Em oito anos de governo Reagan, subiu em US$ 1,9 trilhão.
Mas não foi só. Em quatro anos de mandato o também republicano George Bush pai elevou o défict em US$ 1,5 trilhão. Em oito anos Bill Clinton elevou em US$ 1,4 trilhão. Em tres anos Barack Obama acumulou US$ 2,4 trilhões.
Na relação de presidentes gastadores, George Bush filho deixou um recorde histórico — e por isso merece uma atenção à parte. Sua contribuição para o déficit americano foi de US$ 6,4 trilhões. Bush filho gastou muitas vezes mais do que seus antecessores. Seu custo final é igual a 400% dos gastos de seu próprio pai. Quem conhece a tumultuada convivência entre ambos até teria o direito de perguntar: tantas despesas seriam expressão trilionária de um imenso complexo de Édipo?
Uma forma simples de examinar esses números é acusar os republicanos americanos do mais conhecido dos pecados políticos — o costume de pregar uma coisa e fazer seu oposto. Este pecado é verdadeiro, obviamente.
Mas há uma lição a ser apreendida com essa hipocrisia. Ela demonstra que a decisão de gastar — ou não — jamais representa uma escolha em si, mas é expressão de determinadas políticas e de determinados interesses. As despesas de toda administração estão sempre subordinadas a suas opções. Não há governo de contadores.
Observação: Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência, veja os números dos 8 anos de FHC e 8 anos de Lula no tocante ao déficit público, você terá uma boa surpresa, em termos de endividamento FHC "gastou" bem mais que o Lula.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Lula foi o presidente que modernizou o Brasil, diz jornal francês
Uma reportagem na edição desta terça-feira do jornal francês Le Figaro afirma que Luiz Inácio Lula da Silva foi o presidente responsável por "modernizar o Brasil". O texto, que recebeu uma chamada na capa do Le Figaro, é assinado pela correspondente do jornal no Rio de Janeiro, Lamia Oualalou.
A reportagem conta a história de Ricardo Mendonça, paraibano de Itatuba que se mudou para o Rio de Janeiro à busca de emprego em 2003 e conseguiu entrar na universidade graças a uma bolsa do programa Pro-Uni, do governo federal. O jornal atribui o sucesso de Mendonça às políticas do governo Lula.
"Histórias como esta de Ricardo o Brasil registra aos milhões. A três meses do fim do seu segundo mandato, este é um país mudado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará ao seu sucessor", escreve o Le Figaro.
O jornal diz que quando Lula chegou ao poder, em 2003, o Brasil era um país sem "grandes esperanças" que havia finalmente dado uma chance a um "turbulento barbudo onipresente na cena eleitoral deste o restabelecimento da democracia".
O Le Figaro destaca que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu combater a hiperinflação com o Plano Real, mas que se tornou "muito impopular" antes de deixar o poder em 2002.
Citando analistas políticos brasileiros, o jornal diz que Lula foi responsável por ampliar políticas sociais do governo anterior. "O chefe de Estado reagrupou algumas medidas sociais do seu antecessor e às deu uma dimensão inimaginável", diz a reportagem do jornal.
"Pela primeira vez na história, o Brasil assiste a uma redução continua e inédita das desigualdades. Em dois mandatos, 24 milhões de brasileiros saíram da miséria e 31 milhões entraram para a classe média."
O jornal diz que o governo quer agora usar a riqueza dos novos campos de petróleo descobertos no litoral brasileiro para criar um fundo que beneficie os mais pobres. O Le Figaro destaca que apesar dos avanços, o Brasil ainda é um dos mais desiguais da América Latina e do mundo, com altos índices de analfabetismo e problemas crônicos de saúde pública.
O jornal alerta também que as autoridades e parte dos analistas no Brasil não estão imunes a "complacência".
Fonte:www.terra.com.br
A reportagem conta a história de Ricardo Mendonça, paraibano de Itatuba que se mudou para o Rio de Janeiro à busca de emprego em 2003 e conseguiu entrar na universidade graças a uma bolsa do programa Pro-Uni, do governo federal. O jornal atribui o sucesso de Mendonça às políticas do governo Lula.
"Histórias como esta de Ricardo o Brasil registra aos milhões. A três meses do fim do seu segundo mandato, este é um país mudado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará ao seu sucessor", escreve o Le Figaro.
O jornal diz que quando Lula chegou ao poder, em 2003, o Brasil era um país sem "grandes esperanças" que havia finalmente dado uma chance a um "turbulento barbudo onipresente na cena eleitoral deste o restabelecimento da democracia".
O Le Figaro destaca que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu combater a hiperinflação com o Plano Real, mas que se tornou "muito impopular" antes de deixar o poder em 2002.
Citando analistas políticos brasileiros, o jornal diz que Lula foi responsável por ampliar políticas sociais do governo anterior. "O chefe de Estado reagrupou algumas medidas sociais do seu antecessor e às deu uma dimensão inimaginável", diz a reportagem do jornal.
"Pela primeira vez na história, o Brasil assiste a uma redução continua e inédita das desigualdades. Em dois mandatos, 24 milhões de brasileiros saíram da miséria e 31 milhões entraram para a classe média."
O jornal diz que o governo quer agora usar a riqueza dos novos campos de petróleo descobertos no litoral brasileiro para criar um fundo que beneficie os mais pobres. O Le Figaro destaca que apesar dos avanços, o Brasil ainda é um dos mais desiguais da América Latina e do mundo, com altos índices de analfabetismo e problemas crônicos de saúde pública.
O jornal alerta também que as autoridades e parte dos analistas no Brasil não estão imunes a "complacência".
Fonte:www.terra.com.br
quinta-feira, 1 de julho de 2010
O jeito paulista de fazer política
1-Auto-suficiência
Todo político paulista acredita que nasceu para ser governante do país. Sendo poder em São Paulo, não haveria motivos para não dirigir o país. Afinal, São Paulo é a sexta maior cidade do planeta; tinha o maior acervo de cobras do país (acabou sofrendo o maior incêndio contra o maior acervo de cobras do país); centro corporativo e financeiro da América Latina; é a décima cidade mais rica do planeta; maior população do Brasil; maior registro de migrantes; motor econômico, responsável por 1/3 do PIB nacional. Todos estes dados são ouvidos pelos paulistas desde que nascem. Imaginem o que as mães dos políticos falam para eles desde pequenos? Paulista dificilmente pensa nos outros Estados como iguais. Há, é verdade, uma ponta de inveja em relação aos cariocas, com seu charme praiano. Se um carioca tiver interesse em provocar um paulista, basta dizer que paulista trabalha para carioca poder aproveitar a praia;
2-Arrogância
A conseqüência natural de todo pensamento acima é uma arrogância espontânea de todo político paulista, independente de partido. De Maluf à Marta Suplicy, passando por Serra e FHC, todos destilam este olhar altivo, sempre mirando acima do ombro do interlocutor. Não fala com dúvida. Paulista dificilmente tem alguma dúvida sobre qualquer assunto que diz respeito ao Brasil. A fala é meio que definitiva. Afinal, o Estado sempre deu certo. Há, em toda fala de político paulista, algo de pensamento linear do antigo conceito de progresso. São Paulo, evidentemente, estaria na linha final do progresso. Todos outros Estados estariam abaixo do ranking, tentando chegar ao que São Paulo já é;
3- Ética do Sucesso
Até aqui, político paulista parece uma ave de rapina, olhando fixo para sua presa. Mas é aparência. Paulista sofre consigo mesmo. Ele é seu principal inimigo. Todo paulista procura o sucesso. Sem sucesso é visto como fracasso. Não há meio termo. É fundamental que seja o primeiro em algo. Daí político paulista ter sido sempre o primeiro a construir ou criar algo. O sofrimento é atroz porque é preciso assistir todos os filmes comentados por críticos, todos os jogos de futebol transmitidos pelos canais a cabo (não vale canal aberto), fazer todas as coleções da revista Caras, reproduzir sem gaguejar o obituário do dia anterior, saber os shows de rock que São Paulo sediará nos próximos cinco anos e assim por diante. Um sofrimento. Tempo é dinheiro ou sucesso. Não existe possibilidade de beber uma cerveja com um amigo depois do expediente sem que não ocorra alguma disputa enciclopédica. Mesmo que seja para discorrer sobre todas as cervejas do mundo, seus diversos sabores e harmonização;
4-Disponibilidade total para a guerra
O sucesso no encalço faz do político paulista um guerreiro. Sempre está preparado para o ataque, desde o primeiro "bom dia". A derrota, assim como para o norte-americano, é declaração de incompetência. É sofrido. Acreditem;
5- Força com pouca astúcia
Como sempre está preparado para o ataque, a força é sempre mais cortejada e valorizada por um político paulista que a astúcia. Para que, afinal, perder tempo? Trata-se da fase anterior à Maquiavel, quando os romanos acreditavam que virtú significava virilidade. Daí o jeito masculinizado de fazer política. Todo político paulista escamoteia para não revelar seu lado agressivo e guerreiro. Como escamotear é perda de tempo, não conseguem iludir por muito tempo. Não que não saibam encenar – afinal, "todo ator paulista é melhor" -, mas tem hora para tudo;
6- Estresse
Todos os pontos anteriores deságuam no estresse extremo. Político paulista à altura do nome é sempre estressado, dorme pouco, memoriza todos os dados, não improvisa, está sempre atrasado (porque dá a sensação que sempre faz muita coisa importante que o atrasa), deveria comer melhor (mas não tem tempo para questões secundárias), poderia ter tirado 10 ao invés de 9,75 e assim por diante. As olheiras são um adorno que prova que é paulista da gema;
7- Ansiedade travestida de racionalidade
Todo político paulista é ansioso. Mas como bom paulista, não pode revelar este traço de falibilidade. Assim, a ansiedade ganha uma vestimenta providencial: o de racionalidade. Quem é racional não gosta de firulas. É direto, objetivo, "doa a quem doer". Tem algo de gente que parece pouco educada, pouco afável. Não é o que parece. É ansiedade. Paulista tem que correr atrás do sucesso. E, lembre-se: assim que atingir o sucesso almejado, começa nova campanha (já que o sucesso passa a subir de patamar!);
8- Impessoalidade
Tal ansiedade-racionalidade leva à total impessoalidade. Cheira a populismo e falta de tempo o sorriso. Graça ou humor é infantilismo. Perda de tempo. Dizer bom dia ou boa noite é perda de tempo. Ser delicado é perda de tempo. Seria um preâmbulo desnecessário. O foco é o sucesso. Tudo tem que ser muito prático e objetivo. Para político paulista, às vezes o fim justifica os meios. Lembrar de um nome e do passado vale a pena se leva a ganhar pontos no presente e futuro. Caso contrário, é perda de tempo;
9- Corrida contra o tempo
Por este motivo, o tempo é mais veloz para os paulistas. Sempre falta tempo. E o trânsito ainda ajuda a potencializar esta sensação. A conquista do sucesso (e a ansiedade) aumenta a correria. Por este motivo é sempre difícil caminhar com um paulista. Se for paulistano é quase impossível. Em pouco tempo dá a sensação que estamos disputando uma maratona. E, às vezes, o que parece é o que é;
10- Demonstrações públicas
Por tudo o que se disse anteriormente, político paulista é o mais performático de todos brasileiros. Tudo se faz em público. Lembro de Jânio Quadros jogando o livro que Franco Montoro acabara de ler, em pleno debate na televisão. Recordo de Suplicy levantando o cartão vermelho no Senado. Até o ataque ao adversário do mesmo partido tem que ser performático. Porque é preciso que todos saibam do poder que se tem. O político paulista até sabe que não seria bom revelar o quanto é agressivo e competitivo. Mas não consegue se conter. É por demais saboroso o gosto da vitória.
Texto de Rudá Ricci extraído do portal www.advivo.com.br/blog/luisnassif/, com algumas modificações
observação: eu sou paulista, filho de paulistas, neto de paulistas
Todo político paulista acredita que nasceu para ser governante do país. Sendo poder em São Paulo, não haveria motivos para não dirigir o país. Afinal, São Paulo é a sexta maior cidade do planeta; tinha o maior acervo de cobras do país (acabou sofrendo o maior incêndio contra o maior acervo de cobras do país); centro corporativo e financeiro da América Latina; é a décima cidade mais rica do planeta; maior população do Brasil; maior registro de migrantes; motor econômico, responsável por 1/3 do PIB nacional. Todos estes dados são ouvidos pelos paulistas desde que nascem. Imaginem o que as mães dos políticos falam para eles desde pequenos? Paulista dificilmente pensa nos outros Estados como iguais. Há, é verdade, uma ponta de inveja em relação aos cariocas, com seu charme praiano. Se um carioca tiver interesse em provocar um paulista, basta dizer que paulista trabalha para carioca poder aproveitar a praia;
2-Arrogância
A conseqüência natural de todo pensamento acima é uma arrogância espontânea de todo político paulista, independente de partido. De Maluf à Marta Suplicy, passando por Serra e FHC, todos destilam este olhar altivo, sempre mirando acima do ombro do interlocutor. Não fala com dúvida. Paulista dificilmente tem alguma dúvida sobre qualquer assunto que diz respeito ao Brasil. A fala é meio que definitiva. Afinal, o Estado sempre deu certo. Há, em toda fala de político paulista, algo de pensamento linear do antigo conceito de progresso. São Paulo, evidentemente, estaria na linha final do progresso. Todos outros Estados estariam abaixo do ranking, tentando chegar ao que São Paulo já é;
3- Ética do Sucesso
Até aqui, político paulista parece uma ave de rapina, olhando fixo para sua presa. Mas é aparência. Paulista sofre consigo mesmo. Ele é seu principal inimigo. Todo paulista procura o sucesso. Sem sucesso é visto como fracasso. Não há meio termo. É fundamental que seja o primeiro em algo. Daí político paulista ter sido sempre o primeiro a construir ou criar algo. O sofrimento é atroz porque é preciso assistir todos os filmes comentados por críticos, todos os jogos de futebol transmitidos pelos canais a cabo (não vale canal aberto), fazer todas as coleções da revista Caras, reproduzir sem gaguejar o obituário do dia anterior, saber os shows de rock que São Paulo sediará nos próximos cinco anos e assim por diante. Um sofrimento. Tempo é dinheiro ou sucesso. Não existe possibilidade de beber uma cerveja com um amigo depois do expediente sem que não ocorra alguma disputa enciclopédica. Mesmo que seja para discorrer sobre todas as cervejas do mundo, seus diversos sabores e harmonização;
4-Disponibilidade total para a guerra
O sucesso no encalço faz do político paulista um guerreiro. Sempre está preparado para o ataque, desde o primeiro "bom dia". A derrota, assim como para o norte-americano, é declaração de incompetência. É sofrido. Acreditem;
5- Força com pouca astúcia
Como sempre está preparado para o ataque, a força é sempre mais cortejada e valorizada por um político paulista que a astúcia. Para que, afinal, perder tempo? Trata-se da fase anterior à Maquiavel, quando os romanos acreditavam que virtú significava virilidade. Daí o jeito masculinizado de fazer política. Todo político paulista escamoteia para não revelar seu lado agressivo e guerreiro. Como escamotear é perda de tempo, não conseguem iludir por muito tempo. Não que não saibam encenar – afinal, "todo ator paulista é melhor" -, mas tem hora para tudo;
6- Estresse
Todos os pontos anteriores deságuam no estresse extremo. Político paulista à altura do nome é sempre estressado, dorme pouco, memoriza todos os dados, não improvisa, está sempre atrasado (porque dá a sensação que sempre faz muita coisa importante que o atrasa), deveria comer melhor (mas não tem tempo para questões secundárias), poderia ter tirado 10 ao invés de 9,75 e assim por diante. As olheiras são um adorno que prova que é paulista da gema;
7- Ansiedade travestida de racionalidade
Todo político paulista é ansioso. Mas como bom paulista, não pode revelar este traço de falibilidade. Assim, a ansiedade ganha uma vestimenta providencial: o de racionalidade. Quem é racional não gosta de firulas. É direto, objetivo, "doa a quem doer". Tem algo de gente que parece pouco educada, pouco afável. Não é o que parece. É ansiedade. Paulista tem que correr atrás do sucesso. E, lembre-se: assim que atingir o sucesso almejado, começa nova campanha (já que o sucesso passa a subir de patamar!);
8- Impessoalidade
Tal ansiedade-racionalidade leva à total impessoalidade. Cheira a populismo e falta de tempo o sorriso. Graça ou humor é infantilismo. Perda de tempo. Dizer bom dia ou boa noite é perda de tempo. Ser delicado é perda de tempo. Seria um preâmbulo desnecessário. O foco é o sucesso. Tudo tem que ser muito prático e objetivo. Para político paulista, às vezes o fim justifica os meios. Lembrar de um nome e do passado vale a pena se leva a ganhar pontos no presente e futuro. Caso contrário, é perda de tempo;
9- Corrida contra o tempo
Por este motivo, o tempo é mais veloz para os paulistas. Sempre falta tempo. E o trânsito ainda ajuda a potencializar esta sensação. A conquista do sucesso (e a ansiedade) aumenta a correria. Por este motivo é sempre difícil caminhar com um paulista. Se for paulistano é quase impossível. Em pouco tempo dá a sensação que estamos disputando uma maratona. E, às vezes, o que parece é o que é;
10- Demonstrações públicas
Por tudo o que se disse anteriormente, político paulista é o mais performático de todos brasileiros. Tudo se faz em público. Lembro de Jânio Quadros jogando o livro que Franco Montoro acabara de ler, em pleno debate na televisão. Recordo de Suplicy levantando o cartão vermelho no Senado. Até o ataque ao adversário do mesmo partido tem que ser performático. Porque é preciso que todos saibam do poder que se tem. O político paulista até sabe que não seria bom revelar o quanto é agressivo e competitivo. Mas não consegue se conter. É por demais saboroso o gosto da vitória.
Texto de Rudá Ricci extraído do portal www.advivo.com.br/blog/luisnassif/, com algumas modificações
observação: eu sou paulista, filho de paulistas, neto de paulistas
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