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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Plano de baratear a energia passa pela primeira barreira


Apesar da gritaria dos primeiros dias, foi quase que total a adesão das empresas de energia elétrica à renovação dos contratos de concessão dentro das novas regras traçadas pelo governo na Medida Provisória nº 579, publicada no início de setembro. Para renovar as concessões por até 30 anos, as empresas de geração, transmissão e distribuição de energia cujos contratos vencem entre 2015 e 2017 têm que aceitar uma redução ainda não conhecida oficialmente do preço cobrado por seus serviços. Mas estima-se que as tarifas hoje praticadas podem ser cortadas em até 70%.
Com isso, o governo pretende baratear a conta de luz para as famílias e empresas. A promessa, anunciada pela própria presidente Dilma Rousseff, é reduzir o preço da energia em média em 20,2%, a partir de 5 de fevereiro. Os consumidores residenciais farão uma economia média de 16,2%, e as empresas, de até 28%, com inegável impacto positivo na inflação.
Para chegar a essa redução, o governo abriu mão de vetustos encargos setoriais, a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) e a Reserva Geral de Reversão (RGR). Já a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) será reduzida a 25% do valor atual, assumirá o custeio de programas contidos nas outras duas e receberá um aporte de R$ 3,3 bilhões anuais do Tesouro. Mesmo assim, o governo prevê déficit de pelo menos R$ 1,3 bilhão em 2013.
Com essa manipulação tributária, o governo estima que contribuirá com 7 pontos percentuais da redução de 20,2% das contas de luz; os 13,2 pontos restantes virão da derrubada das tarifas das concessionárias de R$ 90 a R$ 100 para R$ 30 por megawatt-hora (MWh). O corte das tarifas pressupõe que as empresas já amortizaram seus inegáveis pesados investimentos ao longo de décadas de concessão. Nem todas as empresas concordam com isso e a conta final depende muito da idade de cada operação. O governo deve indenizar empresas cujas instalações ainda não foram amortizadas. Mas esse é outro ponto ainda obscuro na nova regra.
Fazem parte do universo das empresas afetadas pelas novas regras 123 geradoras de energia, que somam capacidade instalada de 20 mil megawatts (MW), equivalente a 20% do parque gerador brasileiro, com contratos que vencem entre 2015 e 2017; 44 distribuidoras que dominam 35% do mercado consumidor e têm contratos a expirar entre 2015 a 2016; e nove transmissoras, donas de 85 mil quilômetros de linhas, ou 67% da rede do Sistema Interligado Nacional, até 2015.
Essas empresas tinham até segunda-feira para pedir a renovação das concessões. Os contratos deverão ser assinados até 4 de dezembro. Nesse período, a Aneel vai elaborar as minutas dos contratos e espera-se que sejam esclarecidos os pontos ainda obscuros, como os valores da nova tarifa e das indenizações, pontos importantes na decisão das empresas.
O governo jogou pesado e conseguiu 92% de adesão, apesar do desconforto das empresas com as indefinições. Era praticamente obrigatório que as concessionárias manifestassem interesse por seus negócios e isso não significa que todas assinarão o contrato final. Aderiram todas as 44 empresas de distribuição, as nove transmissoras e 109 das 123 usinas de geração. Apenas 14 geradoras ficaram de fora. Nessa conta estão pelo menos duas hidrelétricas inativas da Energisa, que não funcionavam desde janeiro de 2011, quando foram danificadas pela enchente que assolou a região serrana do Rio de Janeiro. Mas também estão três operações importantes da Cemig, as usinas de Jaguara, São Simão e Miranda, que representam cerca de um terço da capacidade instalada da estatal mineira.
A Cemig solicitou a renovação de outras 18 usinas, mas acredita que as três que ficaram de fora têm direito a ter a concessão prorrogada por mais 20 anos nas condições vigentes antes da MP 579. Em uma situação semelhante, a Cesp agiu diferente e pediu a renovação da concessão da usina Três Irmãos, no rio Tietê, esperando negociar posteriormente a renovação pelas regras anteriores. 
O governo começou a discutir a renovação dessas concessões bastante importantes no parque gerador de energia do país há pelo menos quatro anos, no âmbito de um grupo de trabalho de alto nível. É incrível que depois de tanto tempo ainda existam pontos obscuros e questões indefinidas que abrem espaço para questionamentos jurídicos e geram insegurança em relação à taxa de retorno dos produtores e dos custos dos consumidores, com repercussões negativas em outros ambiciosos e importantes projetos de investimento em infraestrutura do país.

Por Francisco Nixon Frota - Valor Econômico
Fonte: Blog do Nassif

sábado, 11 de agosto de 2012

Eleições, Olimpíada, Mensalão. Esqueceram a economia?


É interessante observar o movimento de vai-e-vem das informações e do tratamento oferecido pela grande imprensa aos temas considerados relevantes a cada momento na vida política nacional e internacional. Parece claro que existe uma orientação que emana das direções de tais órgãos, sempre a defender determinados interesses de grupos econômicos e de poder. Mas nem sempre as coisas ficam bem claras a esse respeito.
Agora, de repente, parece que a crise financeira internacional e as dificuldades do cenário econômico em nosso País foram solucionados ou esquecidos.  Desde algumas semanas atrás que uma nova trinca de assuntos parece dominar o espaço dos noticiários: 
i) os Jogos Olímpicos em Londres; 
ii) o processo político-jurídico do chamado “mensalão” no interior do Supremo Tribunal Federal (STF);  
iii) a dinâmica política associada às eleições municipais de outubro próximo.
Não pretendo aqui, de forma alguma, desqualificar a importância desses itens na pauta jornalística. Porém, o que chama a atenção do observador desinteressado é a súbita alteração do foco das prioridades. Afinal, se até pouco tempo a crise econômica era o elemento central do tratamento, em princípio não haveria razão para mudança tão drástica. 
Muitos argumentam que a insistência com o tema da economia poderia tornar as matérias enfadonhas e repetitivas, sem novidades. E com isso provocar uma sensação de cansaço junto ao público. No entanto, o debate sobre as alternativas econômicas é essencialmente uma discussão de natureza política. Relegá-lo ao seu aspecto técnico é abrir espaço para a continuidade desse modelo que privilegia o grande capital, em especial o setor financeiro.
Crise econômica saiu de pauta
A emergência de novos assuntos faz parte da própria dinâmica da realidade e a imprensa tende a incorporar tal fenômeno em suas coberturas. E aí surgem os escândalos, as medalhas, as pesquisas de intenção de voto. No entanto, os pontos cruciais das dificuldades que o País enfrenta na esfera da política econômica ainda não foram enfrentados pelo governo de maneira satisfatória. 
Os efeitos negativos da crise continuam a se fazer sentir. E isso mereceria um maior espaço de informação e mesmo de reflexão. E refiro-me aqui à análise econômica em sua abordagem mais ampla e não à pequenez das chamadas “avaliações de elevador” – na verdade, mero acompanhamento descritivo de variáveis que sobem e/ou descem a cada semana, sem muita referência analítica e explicativa a respeito das razões mais profundas que levam a tais movimentos.
Na verdade, o que faz falta na cobertura dos grandes meios de comunicação é a recuperação do sentido da “economia política”, expressão e conceito que os autores clássicos sempre utilizaram para tratar desse fenômeno complexo, mas sem dúvida integrante do campo das ciências sociais. Porém, uma parcela importante dos estudiosos norte-americanos, ao longo de século passado, promoveram uma simplificação desastrosa, quando passaram a tratar a political economy apenas por economics. 
Ao pretender retirar o conteúdo e o adjetivo político do objeto de estudo, a “economia” passou a ser tratada quase como uma ciência exata, onde tudo poderia ser objeto de mensuração absoluta e, principalmente, alvo de previsão segura quanto a cenários futuros.
Não obstante a conquista de algumas medalhas olímpicas, a evolução dos depoimentos do “mensalão” e o avanço das campanhas eleitorais por todos os cantos, o fato é que a situação econômica de nosso País continua a apresentar um quadro preocupante.
Os problemas não foram solucionados
Apesar da importante redução na taxa SELIC promovida pelo Comitê de Política Monetária (COPOM), no mundo real o custo dos empréstimos junto aos bancos privados não foi reduzido da mesma magnitude. Desde o final de agosto do ano passado, a taxa oficial de juros iniciou uma trajetória contínua de queda: ao longo das 6 reuniões do COPOM, ela saiu de 12,5% para os atuais 8% ao ano. 
Porém, a banca oligopolizada mantém uma postura agressiva com relação aos elevados spreads por ela praticados, apesar da tímida iniciativa adotada pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal em sentido contrário. Em resumo, a taxa real de juros praticada nas operações junto a indivíduos e empresas continua a ser uma das mais altas do mundo.
Essa reversão de tendência na trajetória da SELIC significaria uma redução do volume de gastos orçamentários com os juros e serviços da dívida pública. Isso porque tal montante de despesas financeiras depende do estoque da dívida e da taxa de juros que o governo define como sendo a remuneração dos títulos públicos. Se a SELIC caiu de quase 50% ao longo dos últimos 12 meses, isso deveria significar um alívio nas contas do governo federal, que veria seus recursos liberados para serem gastos em áreas estratégicas e de maior retorno social e econômico. É o caso das rubricas da área social (saúde, educação, previdência social, saneamento, etc) e dos investimentos públicos. 
No entanto, a orientação do governo foi em sentido contrário, praticando a manutenção do superávit primário em níveis absurdamente elevados e promovendo a continuidade da política de contenção de despesas públicas em áreas mais sensíveis. Ou seja, continua a mesma política da ortodoxia monetarista de reduzir gastos estratégicos com o objetivo de assegurar recursos orçamentários para as despesas parasitas com pagamento de juros. Os recursos existem, mas estão contingenciados e indisponíveis para gasto. Um absurdo!
Desindustrialização e desnacionalização
Por outro lado, dois fenômenos cruciais para o processo de desenvolvimento econômico brasileiro continuam sem merecer a devida atenção do governo da Presidenta Dilma. Refiro-me aqui à desindustrialização e à desnacionalização. Apesar da profunda conexão causal existente entre ambas, é importante que sejam analisadas individualmente, dadas as particularidades de cada processo.
O primeiro caso – desindustrialização – é fruto da prioridade concedida ao setor primário de nossa economia: o extrativismo mineral e o agronegócio. Embalados pelos preços atrativos oferecidos pelas chamadas commoditiesno mercado internacional, os empreendimentos associados à exploração e exportação de minério de ferro, petróleo, soja, cana-de-açúcar, trigo e outros cresceram apoiados por políticas públicas generosas desde o final da década de 1990.
Por outro lado, a passividade dos sucessivos governos na condução da política cambial propiciou uma irresponsável valorização do real frente às moedas internacionais, que durou vários anos. Esse movimento de apreciação cambial incentivou a tendência à importação de bens industrializados, em especial aqueles oriundos de países que conseguem praticar custos reduzidos, tendo a China como principal exemplo. 
Na outra ponta, esse tipo de câmbio dificultou a exportação de produtos industrializados brasileiros, que não logravam conseguir espaço no mercado externo competitivo. Com isso, observou-se uma perigosa redução da participação da indústria em nosso PIB, o que tem um significado de transferência para o exterior dos processos geradores de maior valor agregado.
Já a desnacionalização passou a receber maior destaque pois o número de aquisições de empresas brasileiras por parte de grandes grupos internacionais tem crescido ao longo dos últimos anos. De acordo com recente levantamento de uma importante consultoria, houve 167 aquisições de empresas nacionais por grupos estrangeiros ao longo do primeiro semestre desse ano. 
Esse número representa um crescimento de 78% sobre as 94 aquisições de mesma natureza ocorridas no primeiro semestre de 2011 e de 117% sobre as 77 operações no mesmo período de 2010. Desse total de 2012, 79 foram comprados por empresas canadenses e norte-americanas, ao passo que 61 foram aquisições efetuadas por grupos de origem européia. Esse processo reflete uma redução na capacidade de decisão nacional a respeito das políticas de investimento de tais empresas, que passam a responder apenas aos interesses de suas matrizes estrangeiras, inclusive no que se refere á remessa de lucros para o exterior.
Baixo PIB, isenção tributária e investimento público
Outro aspecto relevante da política econômica refere-se ao baixo crescimento do PIB para o presente ano, que corre sério risco de ficar ainda abaixo dos 2%. Uma das várias razões para tal fato pode ser buscada nos efeitos provocados pela política de cortes orçamentários praticados ao longo do primeiro semestre, que impediram a retomada do crescimento da economia por meio da recuperação do investimento público. 
A aposta do governo tem sido a de buscar o retomado pelo simples aumento do consumo, em um modelo que não comporta mais esse tipo de opção. As famílias já alcançaram um nível elevado de endividamento e as compras de automóveis e de eletrodomésticos encontram um limite na própria natureza desse tipo de bem – não é normal que se compre mais de um veículo, geladeira ou fogão no mesmo ano.
A estratégia de buscar a reativação da atividade econômica apenas pela política de redução e isenção tributárias também tem mostrado suas debilidades. Tal tipo de decisão reduz a capacidade arrecadatória do Estado e não está sendo acompanhada de exigências de contrapartida efetiva por parte do governo federal, por exemplo no que se refere à manutenção do nível de emprego e do índice de nacionalização das compras. 
As grandes empresas nacionais e multinacionais beneficiam-se de empréstimos a juros subsidiados do BNDES e são contempladas com redução de suas obrigações tributárias. No entanto, tudo indica que o saldo final desse processo não tem sido positivo para o País e menos ainda para a maioria de sua população. O fundamental é que seja recuperada a capacidade de investimento público, mecanismo mais eficaz para atuar como indutor do desenvolvimento nacional.
A crise econômica continua. O nosso ritmo de atividade permanece patinando, quase sem sair do lugar. As empresas não cumprem com suas obrigações sociais. Mas os noticiários insistem em destacar exclusivamente as medalhas perdidas, os recordes batidos, os ministros do STF tirando uma soneca, a estratégia dos advogados de defesa dos réus do mensalão, os debates entre os candidatos a prefeito, os resultados da penúltima pesquisa de sondagem eleitoral. Esperar até novembro talvez seja uma opção muito arriscada para o governo, caso queira realmente mudar os rumos da economia real.
Por : Paulo Kliass  - Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Fonte: Correio do Brasil

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Smith, Keynes e os paradoxos da ciência econômica


Ontem (5 de junho) foi aniversário de nascimento de dois dos pensadores mais influentes na história da ciência econômica, Adam Smith e John Maynard Keynes. Muitos têm falado e escrito sobre eles, mas poucos fizeram uma comparação de suas vidas e de suas obras, e esta é a ocasião para fazê-lo, no momento em que o capitalismo, sistema que um deles impulsionou e o outro tentou salvar, debate-se em uma profunda crise. Nosso objetivo é expor, em grandes linhas, algumas de suas coincidências e diferenças, o que nos permitirá compreender, também, os limites do sistema econômico em que vivemos.

1. Toda teoria econômica deve ser considerada nos marcos de sua época e as ideias de ambos tiveram a ver com a problemática que tocou a viver a cada um. As razões dos êxitos que os acompanhou estão vinculadas com seus acertos em decifrar e entender as tendências e fenômenos históricos predominantes. No caso de Adam Smith, a emergência de um modelo capitalista de desenvolvimento na Europa do século XVIII, marcado pela Revolução Industrial no plano econômico e por mudanças políticas que destruíram ou restringiram privilégios das monarquias absolutas. No de Keynes, a época do declínio e da primeira grande crise do capitalismo, que não começou, como assinala ele próprio em seus Ensaios de Persuasão (1931), com a queda da Bolsa de Wall Street em 1929, mas sim antes, no primeiro pós-guerra, através de sintomas sobre os quais advertiu precocemente, como o fim do padrão ouro e os desequilíbrios crescentes do sistema econômico internacional. Uma evolução histórica que coincide com sua etapa de formação e desenvolvimento como economista.

2. Nem um nem outro foram meramente economistas. Entenderam a ciência econômica como fazendo parte de saberes mais amplos que permitiam uma compreensão das sociedades de seu tempo e da natureza dos indivíduos que as constituíam. Adam Smith iniciou sua carreira universitária como titular da cadeira de Lógica e Filosofia Moral, na Universidade de Glasgow, onde elaborou, progressivamente, suas teorias sobre o direito, a moral e o Estado, que se plasmaram em sua obra “Teoria dos Sentimentos Morais” (1759) e em suas “Leituras sobre Jurisprudência”. Sua teoria econômica deriva de suas concepções éticas onde o egoísmo domina a esfera econômica enquanto que o altruísmo funda as bases da vida social. Neste sentido, não é possível compreender sua obra principal, “A Riqueza das Nações” (1776), sem relacioná-la com um corpus ideológico e filosófico no qual se enquadram suas contribuições para a economia política.

Keynes também tinha uma formação filosófica e uma visão mais ampla da realidade de sua época. Não era viciado nos modelos econométricos que só podiam apreender aspectos limitados da realidade e, ainda que professor em Cambridge e funcionário em distintos momentos de sua vida, caracterizava-se a sim mesmo, irônica ou modestamente, como um “publicista”, um autor que escreve para o pública de forma periódica com o objetivo de difundir suas ideias. Em todo caso, para Keynes, todo economista deveria possuir uma rara combinação de qualidades: matemático, historiador, homem político e filósofo. Estudar o presente à luz do passado e com a perspectiva do futuro, sem deixar de lado nenhuma das instituições criadas pelo homem.

3. Ambos concebiam o capitalismo como um sistema. Não obstante, para Smith, era o estágio mais elevado na evolução econômica. Keynes, em troca, considerava esse sistema como uma fase no desenvolvimento histórico da humanidade, ainda que a mais conveniente no momento. Adam Smith viu a economia como um todo orgânico, natural que, por meio do mercado, tende a um equilíbrio. O homem, ao perseguir seu próprio interesse individual buscando o máximo benefício, trabalha necessariamente para fazer com que a receita anual de uma sociedade seja a máxima possível. Ele é levado a isso por “uma mão invisível” que “o conduz a promover um fim que não estava em suas intenções”. Em troca, Keynes diz, criticando o laissez faire, que “não é verdade que os indivíduos possuem, a título prescritivo, uma liberdade natural no exercício de suas atividades econômicas”. Não existe, segundo ele, nenhum pacto que possa conferir direitos perpétuos aos proprietários de bens. Além disso, não é correto deduzir dos princípios da economia política que o mundo é governado pela Providência, e que o interesse pessoal trabalha sempre em favor do interesse geral.

4. As teorias de ambos tentavam modificar determinadas condições econômicas e políticas. Em “A Riqueza das Nações”, destaca-se a preocupação de Smith com as políticas mercantilistas que caracterizavam os monopólios coloniais. O livre comércio era uma condição necessária para o florescimento da competição, dos baixos preços e da expansão dos mercados. Em consequência, a divisão do trabalho, principal motor do incremento das forças produtivas, não encontraria travas para sua completa generalização e derivaria em uma maior riqueza das nações. Alguns de seus seguidores deduziram disso que as crises seriam impossíveis dentro do sistema na medida em que o poder de compra do mercado dependeria da ampliação da produção e das receitas que isso geraria.

Pelo contrário, Keynes demonstrou em sua “Teoria Geral” (1936) – e os anos 20 e 30 dariam razão a ele – que o aumento das receitas pode não resultar em um crescimento similar do consumo, e aquela parte que se poupa não necessariamente é dirigida para a atividade produtiva, diretamente ou por meio de financiamento. Essa insuficiência nos níveis de consumo e investimento, que não cobrem a oferta existente, traz graves consequências sobre o produto e o emprego, originando as crises. Deste modo, como diz Joan Robinson, o economista inglês retoma o problema moral que a teoria do livre mercado havia aparentemente abolido: sua incapacidade para gerar ocupação plena e a necessidade de formas de regulação do sistema econômico. Diante desse diagnóstico, competiria ao Estado garantir o pleno emprego: aumentando o gasto público, reformando o sistema fiscal, melhorando a distribuição de renda e regulando o comércio exterior.

5. Adam Smith não representa, no entanto, completamente, a teoria ortodoxa atual que se impôs nos anos do neoliberalismo. Em sua época, o livre comércio supunha a competição de muitos capitalistas em resposta ao controle monopolista do comércio por parte de certas corporações privadas e estatais. Hoje, em um mundo marcado por companhias multinacionais de caráter oligopólico, o mesmo princípio implica o domínio dos mercados por parte de umas poucas empresas que determinam a produção e os preços, captando para si a maior parte do excedente gerado pela acumulação do capital, tanto na esfera propriamente econômica como na financeira. Por sua parte, as políticas keynesianas tampouco significam que a intervenção do Estado consista no resgate daqueles setores, empresas e bancos, que provocaram a crise atual e o posterior ajuste das receitas da maior parte da população. Está muito longe do pensamento de Keynes subsidiar o mercado financeiro e rebaixar salários e aposentadorias.

6. Nem Smith nem Keynes merecem ser avaliados pelo que não são, estejamos ou não de acordo com seus postulados. Em troca, valorizá-los pelo que são vai nos ajudar a criar um pensamento próprio que responda a nossas próprias necessidades e circunstâncias históricas.

Fonte: Carta Maior

sábado, 5 de março de 2011

PIB 2010 - o desempenho só foi inferior a China e Índia


Depois de 30 anos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro voltou a figurar entre os maiores do mundo. Numa lista de 16 países, o avanço de 7,5%, observado no ano passado, só foi inferior ao alcançado por chineses e indianos - 10,3% e 8,6%, respectivamente.

O desempenho da economia brasileira em 2010 difere muito dos números registrados pelos países desenvolvidos, cujos resultados econômicos no período foram cerca da metade do avanço obtido pelo Brasil.

Enquanto a maior economia do mundo, os Estados Unidos, registrou avanço de apenas 2,9% no ano passado, os países da União Europeia tiveram um desempenho ainda pior: a alta do PIB da região foi de 1,7% em 2010. Se a Alemanha, a maior economia do continente europeu, cresceu 3,6%, a Grécia registrou forte depressão no período (-4,5%) e na Itália e Espanha, os resultados atingidos foram próximos de zero.
Entre as economias dos Bric - grupo formado pelos quatro principais países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China -, o resultado russo foi o mais fraco em 2010: alta de 3,8%, metade do resultado brasileiro.

Fonte: jornal Valor Econômico de 04 de março 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Governo Lula chega ao fim com emprego recorde


Com uma taxa de desemprego de 5,7% em novembro, o melhor resultado desde 2002, e um crescimento previsto de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao fim de seu mandato com uma coleção de indicadores econômicos positivos.

O nível de desemprego caiu 45% nos últimos oito anos. Além do recorde no emprego, a renda do trabalhador vem crescendo a uma média de 5% ao ano, já descontada a inflação.

Por trás da expansão do emprego e da renda está um crescimento econômico que, apesar de alguns percalços, está acima da média do país, considerando a inflação sob controle. Nos oito anos da era Lula, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu a uma média anual de 4%, enquanto nos oito anos anteriores essa expansão foi de 2,3%.

Os resultados dos últimos oito anos foram também turbinados por uma forte política de transferência de rendas, tanto por meio do Bolsa Família como também do aumento do salário mínimo acima da inflação.

Como conseqüência, a classe média, formada por famílias com ganhos de R$ 1.064 a R$ 4.591, cresceu 44% em oito anos, tornando-se um dos principais símbolos da economia na era Lula e a classe majoritária no país, representando mais de 50% da população.

Em oito anos, o consumo entre os integrantes da classe C cresceu 6,8 vezes e quase se igualou às despesas das classes A e B somadas, segundo o IBGE.

Fonte: BBC Brasil

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Reduzir juros teria mais efeito do que o ajuste fiscal



O economista Marcio Pochmann (presidente do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) criticou a decisão do governo federal de promover corte de gastos públicos anunciada na segunda-feira, dia 06 de dezembro de 2010, pelo ministro da Fazenda Guido Mantega.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, Marcio Pochmann sustentou que a redução da taxa de juros permitiria um alívio maior e mais rápido sobre as contas públicas sem riscos de produzir retração econômica.

Para Pochmann, o Brasil fez uma escolha política de colocar o desenvolvimento nacional como tema central. Isso significou, substituir a "monotemática que perdurou nos anos 1990 do arrocho fiscal", diz ele.

A volta do discurso de que é necessário reduzir as despesas incluindo investimentos em obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e eventualmente de programas sociais – pode ter efeitos ruins no longo prazo.

"A questão central do Brasil diz respeito a enfrentar os nós do desenvolvimento que não são apenas de ordem fiscal", constatou o presidente do IPEA. "Questões importantes são os riscos da situação cambial e monetária que fazem o Brasil perder competitividade em setores e maior valor agregado. Assim, empurra o país a ser cada vez mais uma economia de bens primários, ancorada em produtos de menor valor agregado", criticou.

Pochmann reconheceu que há um "espaço permanente" para melhorar a qualidade dos gastos públicos e da arrecadação, abandonando o padrão regressivo em que os mais pobres pagam proporcionalmente mais tributos.

Porém, ele teme cortes verticais e seus impactos sobre o nível de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

Fonte: Texto de Anselmo Massad - Rede Brasil Atual - http://www.cartamaior.com.br

sábado, 11 de dezembro de 2010

Economia do Brasil vive melhor momento dos últimos 25 anos


Os resultados do terceiro trimestre de 2010 já asseguram ao país uma expansão de pelo menos 7,5% neste ano. O fim da administração Lula está próximo, mas essa não foi a última vez que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, comunica os resultados do PIB, ele continuará no cargo no governo de Dilma Rousseff.

Passados oito anos e uma crise econômica mundial, Guido Mantega explica por que o mundo passou a olhar com outros olhos para o Brasil: "Conseguimos modificar o patamar de crescimento da economia brasileira, que crescia a taxas mais modestas no passado, e agora está crescendo a taxas superiores a 5%", respondeu o ministro à Deutsche Welle.

Ao fim do segundo mandato de Lula, o Brasil é a segunda economia que mais cresce no G20, atrás da China. A Índia, no entanto, ainda pode encerrar 2010 em segundo lugar. "A minha avaliação do governo Lula é ótima, já que em 2007 crescemos 6,1%, em 2008 foi 5,8%, em 2009 o índice foi menor por causa crise, e agora acima de 7,5%", comenta Mantega.

UM OLHAR SOBRE A HISTÓRIA
O compasso acelerado do início de 2010 diminuiu ao longo do ano. O crescimento do terceiro trimestre em relação ao segundo foi de 0,5%, mas de 8,4% no acumulado dos últimos 12 meses.

Federico Foders, pesquisador da Universidade da Colônia, faz uma referência ao passado para elogiar o presente. "Quando Lula foi eleito houve uma grande fuga de capitais. O mundo pensou: 'ele vai chegar e vai nacionalizar empresas, etc.'. E depois foi esse desenvolvimento todo que vimos."

Para Fordes "O país conseguiu passar por ela, porque não estava profundamente envolvido na crise que começou nos Estados Unidos. O Brasil tinha um sistema financeiro mais independente, por isso continuou crescendo. E não esqueça que a China é o segundo parceiro comercial do Brasil, o que ajudou muito."

Para o ministro Mantega, os resultados do PIB em 2010 mandam uma mensagem à comunidade internacional: "O resultado desse terceiro trimestre mostra que o Brasil se tornou uma economia dinâmica que tende a estar entre as economias que mais vão crescer nos próximos anos. É bom ressaltar que esse crescimento é sustentável para os próximos anos, porque se dá mantendo as inflações sob controle e com a redução do déficit público brasileiro."

LONGE DO OLHO DO FURACÃO
Agora que Guido Mantega sabe que estará à frente da pasta no governo Dilma, ele se sente mais à vontade para falar em metas e estimativas para o próximo ano de crescimento de 5% do PIB em 2011.

Enquanto que na Europa há um grande esforço para sanar a crise do euro, Mantega avisa: "Não há bolha na economia brasileira, ao contrário do que acontece em outras economias. Na Bolsa de Valores, os índices permanecem estáveis ao redor de 70 mil pontos. Também não há nenhuma bolha no mercado imobiliário. O volume de crédito no mercado representa menos de 4% do PIB."

Para o pesquisador alemão da Universidade de Colônia, o sucesso da economia brasileira se deve ao seu rápido ajuste às mudanças que aconteceram na economia mundial. "E a principal mudança é que, os antigos líderes que sempre decidiam tudo e puxavam o crescimento, como Estados Unidos, Japão, Europa, não são mais os líderes. Na Europa, só a Alemanha está indo bem, os outros estão indo mal. Olhe para a França, Espanha, Reino Unido...", diz Federico Foders.

Segundo Foders, os mercados emergentes devem continuar puxando o ritmo em 2011. "E enquanto isso acontecer, o Brasil terá boas oportunidades de participar dessa bonança", finaliza o pesquisador.

FONTE: www.agrosoft.org.br - Deutsche Welle, Autora: Nádia Pontes e Revisão: Carlos Albuquerque