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terça-feira, 15 de novembro de 2011

O golpismo da mão invisível da imprensa


O reino dos céus, de acordo com a tradição cristã, será dos homens de boa fé. A eles já pertencem, na sua íntegra, os conteúdos noticiosos do dispositivo midiático nativo.

No momento em que a Comissão Européia prevê um forte freio na atividade econômica em 2012 e não descarta a hipótese de uma longa e profunda recessão, editoriais e os conhecidos representantes do jornalismo de mercado pregam como “medidas de cautela contra o contágio” a mesma agenda que quase nos levou ao colapso nos oito anos do consórcio demotucano.

Fingindo ignorar que se rompeu uma coisa que já estava rompida, homens e mulheres de “boa fé,” de prestigiosas redações, voltam a aplicar a estratégia do terrorismo econômico, na expectativa de gerar uma profecia que se auto-cumpre.

Enquanto o Banco Central, acertadamente, revê medidas de restrição ao crédito, depois de ter iniciado a redução das taxas de juro em agosto, os oráculos da grande imprensa sonham em ver reinstalada a política fundamentalista que, de 1994 a 2002, implementou radical mecanismo de decadência auto-sustentada, marcada por crescentes dívidas e desemprego, e anemia da atividade econômica.

O Brasil ideal seria aquele com juros elevados, maior dificuldade de financiamento, menor mercado para exportações e a volta a negociações duras com bancos e organismos multilaterais. A nostalgia cega qualquer possibilidade de análise séria.

Se a liberdade de imprensa é tanto mais ampla quanto maior for a responsabilidade ética dos que a fazem diariamente, podemos afirmar, ancorados em um razoável número de citações jornalísticas, que só a regulamentação da mídia pode salvar a esfera pública por ela ameaçada.

No capítulo das mentiras complexas que se arrastam há décadas, há que se arremeter com energia demolidora contra o sequestro da moral pública pelos critérios que definem a lógica do mercado. Está em curso uma ação que não tem outro objetivo senão o do esvaziamento da essência da política.

Não há mais como transigir , em nome da diversidade de opiniões, com a velha ortodoxia assimilada pelos jornalões, portais e emissoras de televisão como “exemplo de racionalidade econômica”. O receituário se repete como mantra: liberalização do comércio; ênfase no setor privado como fonte de crescimento, incluindo a privatização de empresas estatais; redução geral de todas as formas de intervenção governamental no mercado de capitais e no câmbio; precarização dos direitos trabalhistas e sucateamento do Estado. Já aprendemos demais com a tragédia para vê-la rediviva como farsa.

Sabemos que a desregulamentação dos mercados financeiros resultou numa explosão da dívida privada, numa especulação nunca vista anteriormente e abusos sórdidos do capital financeiro. O fundamento religioso de mercado está na base do estancamento da economia global e da crise que afeta a zona do Euro. Por que reeditá-lo por aqui? São inocentes os consultores e jornalistas de plantão? Não.

Eles sabem que a repercussão de alguns destes problemas vão bem além da esfera econômica. A capacidade de sobrevivência de governos democráticos como os do Brasil, Argentina, Uruguai, entre tantos outros, frente a contínuas reduções do nível de vida, seria discutível. Das redações o mercado articula o golpe. São insanas as corporações midiáticas? Não, são ávidas de poder, riquezas e inimigas juradas da democracia. O desprezo com que se referem às instituições representativas revela o autoritarismo que embasa sua estrutura discursiva. É preciso dar um basta aos que se inclinam, siderados, a qualquer aventura antidemocrática. A “mão invisível” se move implacável em edições diárias.

Texto de Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil.

Fonte: correidobrasil

domingo, 13 de novembro de 2011

Alckmin: 9 milhões pela fidelidade da 'Proba Imprensa Gloriosa'


Interrompemos nossas saudáveis férias nas paradisíacas selvas de Bornéu para informar que a chuva é molhada, o sol é quente, a grama é verde e a Educação de São Paulo continua a mesma, embora sob completa nova direção.

O Barão de Taubaté, ou melhor, o Sr. José Bernardo Ortiz Monteiro é o presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) desde sua nomeação pelo Governador Geraldo Alckmin, em janeiro deste ano. Pois não é que depois de ferrenha labuta nas negociações, Ortiz acatou ordem superior e assinou milhares de exemplares de jornais e revistas do PIG (Proba Imprensa Gloriosa) – para as melhores escolas públicas do mundo, cujos professores são também os mais bem remunerados do planeta? Sim. Exatamente como fizeram seus antecessores, o ex-governador José Serra e o finado Paulo Renato Costa Souza, ex-secretário de Educação de SP, o Barão de Taubaté fechou com a Folha de SP, Estadão, Revista Veja, IstoÉ e Época. Tudo, como sempre, sem licitação.

Desnecessário dizer que, mais uma vez, a Carta Capital não aparece no rol dos favorecidos.

Eis os contratos, datas e seus valores, de acordo com o Diário Oficial:

27/julho/2011 – Época
- Contrato: 15/00628/11/04
- Empresa: Editora Globo S/A
- Objeto: Aquisição pela FDE de 5.200 (cinco mil e duzentas) assinaturas da "Revista Época" - 52 Edições, destinados às escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo - Projeto Sala de Leitura.
- Prazo: 365 dias
- Valor: R$ 1.203.280,00
- Data de Assinatura: 26/07/2011
(*Primeiro comunicado no DO em 12/julho/2011)

29/julho/2011 – Isto É
- Contrato: 15/00627/11/04
- Empresa: Editora Brasil 21 LTDA
- Objeto: Aquisição pela FDE, de 5.200 (cinco mil duzentas) assinaturas da "Revista Isto É", 52 Edições, destinados às escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo - Projeto Sala de Leitura.
- Prazo: 365 dias
- Valor: 1.338.480,00
- Data de Assinatura: 25/07/2011.
(*Primeiro comunicado no DO em 12/julho/2011)

3/agosto/2011 – Veja
- Contrato: 15/00626/11/04
- Empresa: Editora Abril S/A
- Objeto: Aquisição pela FDE de 5.200 (cinco mil e duzentas) assinaturas da “Revista Veja”, 52 Edições, destinados às escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo
- Projeto Sala de Leitura
- Prazo: 365 dias
- Valor: R$ 1.203.280,00
- Data de Assinatura: 01/08/2011.
(*Primeiro comunicado no DO em 12/julho/2011)
6/agosto/2011 – Folha
- Contrato: 15/00625/11/04

- Empresa: Empresa Folha da Manhã S.A.
- Objeto: Aquisição pela FDE de 5.200 (cinco mil e duzentas) assinaturas anuais do jornal “Folha de São Paulo”, destinados às escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo - Projeto Sala de Leitura
- Prazo: 365 dias
- Valor: R$ 2.581.280,00
- Data de Assinatura: 01/08/2011.
(*Primeiro comunicado no DO em 23/julho/2011)

17/agosto/2011 – Estadão
- Contrato: 15/00624/11/04
- Empresa: S/A. O Estado de São Paulo
- Objeto: Aquisição pela FDE de 5.200 assinaturas anuais do jornal “O Estado de São Paulo”, destinados às escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo - Projeto Salas de Leitura.
- Prazo: 365 dias
- Valor: R$ 2.748.616,00
- Data de Assinatura: 01-08-2011.
(*Primeiro comunicado no DO em 23/julho/2011)

Total: R$ 9.074.936,00.

Extenuado de tanto firmar tão bons acordos pedagógicos, o presidente da FDE, José Bernardo Ortiz Monteiro, como faz qualquer funcionário público, foi ter uns dias de férias lá na Europa. Oh là là!

Fonte: namarianews

domingo, 30 de outubro de 2011

Hipocrisia da grande Mídia



O Ministério Público de São Paulo pedirá à justiça o afastamento do presidente do Metrô de São Paulo, Sérgio Avelleda, por superfaturamento de R$ 327 milhões em uma licitação de um lote de obras.

O metrô de São Paulo é uma estatal do governo paulista, há anos sob governos tucanos, atualmente nas mãos de Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

A investigação do Ministério Público está na fase final, e um parecer técnico feito por uma perita avaliou o processo de licitação e conclui: "caso tivessem sido consideradas as propostas relativas aos menores preços, a economia do Metrô teria sido de R$ 326.915.754,40. Isso porque o Metrô não optou pelos preços menores oferecidos por uma construtora, que já tinha vencido uma das licitações".

Cronologia da corrupção tucana:

- Janeiro de 2009: um documento é registrado em cartório constando quem seriam os vencedores da licitação para concorrência dos lotes 3 a 8, com conhecimento do jornal Folha de São Paulo (PIG/SP), segundo informa o portal G1 da TV Globo. O governador tucano era José Serra (PSDB/SP) nesta época.

- Junho de 2009: o Metrô anunciou o vencedor do primeiro lote e as obras foram iniciadas; O governador tucano era Alberto Goldman

- Outubro de 2010: o jornalão divulgou o documento registrado em janeiro de 2009. Goldman, constrangido, suspendeu as obras e pediu uma investigação.

- Junho de 2011: as obras foram retomadas e os contratos, mantidos. O governador tucano é Geraldo Alckmin.

Por que a Folha demorou 1 ano e 4 meses para divulgar?

A corrupção parece não ser apenas do Metrô, e joga a própria Folha no rol de suspeitos. O G1 diz que o jornal sabia desde janeiro de 2009. Então que interesses escusos levaram a não publicar logo após o resultado da licitação em junho de 2009?

Porque só publicar em outubro de 2010?

O silêncio do jornal por longos 16 meses é algo inexplicável.

Algum interesse financeiro?

Algum interesse no calendário eleitoral?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Roberto Jefferson de cada um e a desigualdade do que é igual

Pela primeira vez neste século, há exposição na mídia da corrupção que tornou o Estado mais rico e desenvolvido da Federação em um dos que menos se desenvolvem. Contudo, a cobertura que a imprensa local vem fazendo das denúncias do deputado estadual Roque Barbieri (PTB-SP) de que o governo do Estado compra apoio legislativo liberando emendas ao orçamento não lembra, nem de longe, a cobertura do “mensalão do PT”.

Não se sabe por que Barbiere passou a denunciar o “suposto” esquema de compra de apoio legislativo pelo governo paulista depois de permanecer calado por tanto tempo. Segundo ele, a liberação de emendas ao orçamento estadual – “suposta” moeda de troca entre Executivo e Legislativo – passou a existir após a eleição de Geraldo Alckmin em 2002 e permaneceu durante o governo estadual de José Serra, perdurando até hoje. Contudo, isso não fica claro na cobertura jornalística do caso.

Não há indignação midiática como houve em relação ao “mensalão do PT”, igualmente denunciado por parlamentar governista (ironicamente, também do PTB – Roberto Jefferson) que, como Barbieri, teve acesso de moralismo e denunciou que o governo do qual era aliado “supostamente” compraria apoio no Legislativo através de pagamentos aos legisladores. Não há “teste de hipóteses” ou perguntas constrangedoras a Alckmin ou Serra sobre se um deles “sabia” ou “não sabia”.

Onde estão os colunistas da Folha, do Estadão ou da Veja “indignados com a corrupção”?

Cadê os editoriais furiosos culpando todo o PSDB por “supostos” atos de corrupção de seu governador, de seus parlamentares e de partidos e parlamentares aliados?

Aliás, será que a “Juventude do PSDB” de São Paulo não fará nenhuma “marcha contra a corrupção”?

Inexiste uma só opinião nesses veículos de comunicação ou entre os habituais indignados com a “corrupção” que diga que o PSDB inteiro é corrupto e que usa dinheiro público em benefício próprio. Muito menos opinião disfarçada de reportagem ou de discurso de cidadãos que se dizem “neutros”…

O partidarismo da mídia, assim, resume-se à falta de indignação e de suposições – ou, se preferirem, de “teste de hipóteses” – nos veículos que passaram a última década produzindo, em vez de falta, excesso de opiniões e suposições de que não restaria dúvida sobre as acusações de “compra de parlamentares” pelo governo Lula, dando como “prova” do crime simplesmente o fato de que tais acusações partiram “de dentro do esquema”.

Que diferença há entre a denúncia de Roberto Jefferson contra o PT e a de Roque Barbiere contra o PSDB? Ambos não denunciaram que governos desses partidos conseguiam que o Legislativo aprovasse tudo o que queriam “convencendo-o” a apoiá-los por meio de suborno com dinheiro público?

Ao dizer que até o governo Mario Covas não havia liberação de emendas a parlamentares e o conseqüente esquema de corrupção entre eles e empreiteiras, Barbiere disse sobre governo do PSDB o mesmo que Jefferson disse sobre governo do PT. Só falta que Alckmin e Serra digam que “não sabiam” e que a mesma imprensa que não acreditou em Lula tampouco acredite neles. Alguém acredita mesmo que isso pode vir a ocorrer?

Fonte:blogcidadania

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Classe média terá cota em hospitais públicos?

Decreto assinado pelo governador Geraldo Alckmin garante 25% das vagas de hospitais públicos para planos de saúde.

Vamos recapitular.

Tempos atrás, por uma diferença de um voto, o senado brasileiro aboliu a CPMF que assegurava recursos substanciais para a saúde pública, uma bolada estimada em perto de R$ 20 bilhões.

O fim da CPMF beneficiou aquela fatia de brasileiros que, com residencia na classe média para cima, tem conta em banco e deixaram de entregar uma parcela minúscula de seus rendimentos — 0,1% sobre o valor de cada cheque ! – para a saúde pública.

Agora, já livres desta pequena despesa, esta mesma parcela da sociedade, que forma a clientela principal da saúde privada, irá pressionar,por 25% das vagas nos hospitais públicos de São Paulo.

Que nome tem isso? Não sei.

As universidades possuem cotas para estudantes da rede pública e, em algumas delas, há cotas para pessoas negras. Pode-se discutir o caráter democrático dessas iniciativas que tem como finalidade reparar injustiças históricas cometidas com fatias menos favorecidas da população.

Eu pergunto se é razoável aplicar o mesmo critério de preferencia para beneficiar aqueles brasileiros que tem planos privados de saude e que, a partir de agora, terão maior facilidade para conseguir vagas nos hospitais públicos.

Vamos combinar que o sujeito que tem plano de saúde é, basicamente, uma pessoa de classe média que pretende escapar das mazelas da rede pública. Não há nada de errado em pertencer a classe média e muito menos em possuir um plano de saúde privada.

É uma atitude compreensível e até necessária, num país onde a medicina oferecida pelo Estado é formada por raras ilhas de primeira qualidade cercadas por muitos arquipélagos de problemas estruturais e grande carencia.

Mas está na cara que vamos criar pacientes de segunda classe. Embora as autoridades possam garantir que as oportunidades serão iguais para todos, nós sabemos que é difícil acreditar que será assim.

Basta fazer uma comparação com situações semelhantes. Quem vai a fila de bancos ou de supermercados sabe como isso funciona. Aqueles que tem direitos especiais — não discuto se justos ou não — conseguem passar na frente e vão mais cedo para casa. A tal ponto que existem aposentados que já chegam ao banco com sacolas de pagamentos da família inteira para fazer. Ou mães que saem de casa com um bebê de colo apenas para passar na frente de todo mundo.

Para começar, as regras que irão definir o atendimento nos hospitais públicos são mais simples para quem vier do sistema privado. Basta a aprovação do médico conveniado. Já o paciente do serviço público terá de cumprir aquele longo e demorado ritual de quem procura tratar-se pelo SUS.
Do ponto de vista da direção dos hospitais, é óbvio que haverá um interesse maior em receber pacientes dos planos de saúde. O estímulo é economico. Isso porque o Estado irá cobrar despesas geradas por estes pacientes dos planos de saúde. Já o paciente comum receberá o tratamento de quem não tem nada a dar em troca.

Não é razoável imaginar que os dois pacientes serão tratados de forma igual.

Há uma questão política de fundo. Uma coisa é facilitar a vida dos mais velhos, nos supermercados. Ou mesmo de negros e pobres, nas universidades. Outra coisa é facilitar a vida dos pacientes que tem planos de saúde.

Vamos combinar que o modelo de saúde brasileiro faliu. Faltam recursos para um serviço público decente, acessível a todos. Já os sistemas privados foram construidos a partir de um modelo de negócio basicamente oportunista, que consiste em vender planos baratos para quem não necessita de atendimento e planos caríssimos (e inviáveis) para os cidadãos que já chegaram àquela idade em que é mais fácil ir ao médico do que ao restaurante. Estes acabam expelidos do sistema.

Na situação atual, a proposta do governo de São Paulo irá auxiliar os planos de saude a atender sua clientela. Como o quadro não é de vagas em excesso, a contrapartida é que haverá uma diminuição no atendimento de quem necessita do atendimento público.

A discussão real é outra.

Seria preciso reforçar a saúde pública, para que ela se tornasse capaz de atender uma parcela maior de brasileiros, inclusive famílias de classe média. Não se pode fazer isso sem um reforço nas verbas destinadas a saude pública. Este é o debate.