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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TRÊS ANOS DEPOIS Crise, os mesmos fatores de sempre


Foi há três anos, em um desses momentos de incerteza nos quais tudo estremece, tudo é sacudido e ninguém mais tem dúvida de que a coisa toda vai virar de ponta-cabeça. Em 7 de setembro de 2008, o governo norte-americanoassumiu a tutela da Fannie Mae e da Freddie Mac, dois mastodontes do crédito hipotecário. No dia 15 daquele mês, o venerável banco de negócios Lehman Brothers anunciou falência. No dia seguinte, chamada pelo Wall Street Journala lhe prestar socorro, Washington comprou o American International Group (AIG), primeira seguradora do país. O resultado foi inevitável: as bolsas despencaram. O poder público norte-americano nacionalizou boa parte do setor automobilístico e injetou centenas de milhares de dólares na economia. Keynes, o New Deale o Estado planejador estavam novamente em primeiro plano.

Em um ato de contrição universal, a burguesia do meio de negócios jurou que “nunca mais nada seria como antes”. O primeiro-ministro francês, François Fillon, falou de “um mundo à beira do abismo”; a capa da Newsweek anunciou, quase que aterrorizada, que “atualmente somos todos socialistas”; a Time Magazine conclamou a que se “repensasse Marx”para “encontrar os meios de salvar o capitalismo”; uma saída (satisfatória) que não parecia convencer o Washington Post,que perguntava, na forma de um editorial de tom mais macabro do que divertido: “Estará o capitalismo morto?”.1

Mas depois tudo voltou para o lugar. É fato que houve um breve intervalo, no qual as elites políticas e financeiras, outrora cobertas de glória e que tinham levado a economia mundial à beira do abismo, fizeram uma verdadeira travessia do deserto (que lhes permitiu, mais tarde, se dizerem perseguidas), mas elas se recuperaram bastante bem. Foram feitas declarações e montanhas de promessas – que não passaram disso. Finalmente, leis foram votadas, mas sua aplicação concreta – quer fossem novas estruturas de supervisão, de reforço de regras de prevenção, de enquadramento dos bônus ou de proteção do consumidor – revelou-se mais do que modesta.2

Resultado: a economia foi parar novamente na beira do abismo. Meados de 2011 lembravam o segundo semestre de 2008, começando com boas notícias para os mercados. O Comitê Bancário Europeu, encarregado de avaliar a solidez do setor financeiro em caso de nova crise, emitiu um comunicado tranquilizador: das noventa instituições financeiras europeias, 82 tinham revelado resultados positivos nos testes efetuados. Alguns dias depois, a Grécia foi salva da falência por um plano econômico que aliava sacrifícios a serem feitos por parte da população ao socorro financeiro por parte dos bancos europeus. O acordo não desencadeou o acerto dos contratos de cobertura contra o default de pagamento − os famosos Credit Default Swaps(CDS) −, o que teria sido desastroso para os bancos. E para o futuro, foi feita uma nova promessa de austeridade, uma “regra de ouro” de rigor orçamentário, destinada aos dezessete países da zona do euro. Nos Estados Unidos, um compromisso relativo ao teto da dívida, assinado in extremis antes do vencimento do prazo de 2 de agosto entre o presidente Barack Obama e a oposição republicana, previa o corte de gastos sem aumento de impostos.



Eterno recomeço

Mas não adiantou. A agência de classificação de risco Standard and Poor’s decidiu rebaixar a nota da dívida norte-americana, que passou de AAA para AA+. Apesar de ter se baseado em números não realistas (por erro, ao déficit budgetário em seis anos a agência acrescentou US$ 2 trilhões), a decisão provocou novo pânico nos mercados, mirando, em especial – o que não fazia o menor sentido –, os principais bancos europeus, que um mês antes tinham sido declarado sadios...

O peso da financeirização é tamanho, que uma inversão da tendência parece impossível. Por um lado, a relação de força entre Estados e mercado é mais do que nunca desfavorável aos primeiros; por outro, os dogmas estabelecidos ao longo das últimas três décadas de desregulamentação financeira parecem indestrutíveis. Quase todas as intervenções públicas procuram em primeiro lugar tranquilizar os mercados e proteger o setor financeiro, que brutaliza os Estados e suas dívidas. O fracasso dessas estratégias não impede seu eterno recomeço, pois em vez de desaparecerem para dar lugar a outras, mais pertinentes, essas ideias – que deveriam ter sido eliminadas, para não provocar mais danos – reaparecem sempre, como zumbis em filmes de terror, guiadas por seus guardiões, fazendo novos estragos.3

Os que estavam no comando em 2008 continuam controlando o sistema, armados com o mesmo arsenal ideológico. Os gigantes das finanças, salvos porque eram “grandes demais para quebrar” (“too big to fail”), são hoje mais gigantescos do que nunca. E continuam frágeis. O economista Paul Krugman ressalta: “As lições da crise financeira de 2008 foram esquecidas a uma velocidade vertiginosa, e essas mesmas ideias estão hoje na origem da crise – toda regulamentação é nociva, o que é bom para os bancos é bom para os Estados Unidos, a queda de impostos é a solução para o problema – e dominam novamente o debate”.4

A esse respeito, o percurso dos heróis diante da crise é revelador. Alan Greenspan, Robert Rubin e Larry Summers − respectivamente presidente do Banco Central norte-americano, secretário e secretário adjunto do Tesouro dos Estados Unidos, em fevereiro de 1999, quando a revista semanal Time, em uma capa que ficou famosa ao consagrar o trio como o “comitê de salvação do mundo” – passaram por um rápido eclipse. O primeiro era republicano, os dois outros democratas, e os três simbolizavam a supremacia inconteste da esfera financeira sobre o mundo da política.

Pouco depois de ser eleito, em 1992, Bill Clinton tomou a decisão de se dobrar aos ditames do mercado. O boom sem precedentes que se seguiu parecia confirmar as virtudes da financeirização, o que levou os dois partidos daquele país a se livrar a uma corrida desenfreada, para ver quem conseguia recolher mais contribuições eleitorais por parte das grandes instituições financeiras e para ver quais eram as que lhes concederiam mais vantagens. Sob a administração democrata foram realizadas, em 1999 e 2000, as grandes reformas que abriram caminho para a criação dos chamados produtos “tóxicos” que estiveram na origem do terremoto financeiro.5 O governo republicano de George W. Bush, ainda mais próximo de Wall Street, não perdeu tempo para destruir o que tinha sobrado dos mecanismos de controle, nomeando para postos-chave zelosos “desregulamentadores”. O arrimo dos governos às decisões das agências de notação se deu dentro desse quadro.6

Após a onda de pânico do segundo semestre de 2008, as elites financeiras foram apontadas como culpadas, mas seu poder efetivo nem por isso foi abalado. Em outubro de 2008, com ar abatido, Greenspan, o herói inconteste do boom econômico, admitiu diante da comissão econômica do Senado norte-americano que acabava de se dar conta de que suas convicções econômicas se baseavam em um “erro”. A contrição foi rápida e sem continuidade: dois anos depois, ele já tinha recuperado a soberba de sempre, criticando a legislação “Dodd- Frank”,que tentava – mesmo que bem timidamente – colocar um pouco de ordem no sistema.7 Quanto a Rubin, ele manteve ligações estreitas e lucrativas com o establishment financeiro, o que não impediu que se dedicasse a dar conselhos financeiros a seus compatriotas, no Financial Times.8 Summers, por sua vez, nem chegou a sair realmente de cena. Por ocasião da eleição presidencial norte-americana de 2008, ele foi um dos principais conselheiros do candidato Obama, e quando este último foi eleito ele passou a ocupar nada mais, nada menos, do que a presidência do Conselho Econômico da Casa Branca. Quando de sua demissão, no final de 2010, ele voltou a ocupar a cátedra de professor de Economia em Harvard. Mesmo depois do desmoronar financeiro, explica o jornalista Michael Hirsh, “o regime anterior e as construções intelectuais – mescla de friedmanismo, de greenspanismo e de rubinismo – ainda continuam imperando, por default”.9

Assim, mesmo que em toda parte (como recentemente na Grécia, ou nos Estados Unidos, na indústria automobilística) governos e empresas revoguem sem dificuldade o contrato social que os liga à população ou aos funcionários, Summers, então conselheiro de Barack Obama, explicou que os bônus astronômicos da seguradora AIG (socorrida pelo governo norte-americano) eram intocáveis: “Somos um país que tem leis. São contratos, e o governo não pode simplesmente revogar contratos”.10

Em um livro que explica “por que o mercado fracassa”, John Cassidy, jornalista econômico do New Yorker, vê nessa ideologia não o cumprimento do liberalismo econômico clássico, mas sua perversão. Ele lembra ainda que “o conceito dos mercados financeiros racionais e autorreguladores é uma invenção dos últimos quarenta anos”.11 Quando os profissionais de finanças tentam se situar na linha de Adam Smith, um autor que costuma ser venerado sem ser lido, eles violam despreocupadamente os princípios por ele enunciados, em termos de regulamentação financeira.

Alguns anos antes da publicação de seu famoso livro A riqueza das nações(1776), o pai da economia clássica havia assistido ao desabrochar de uma bolha financeira que provocaria a quebra de 27 dos trinta bancos de Edimburgo. Por isso, Adam Smith sabia que, quando entregue unicamente às forças do mercado, o mundo financeiro fazia a sociedade correr graves riscos. Por mais favorável que fosse ao princípio da “mão invisível”, ele estipulou que a lógica de um mercado livre e concorrencial não deveria se estender à esfera financeira. “Sob certa ótica, essas regras podem parecer uma violação da liberdade natural de alguns indivíduos, mas essa liberdade de alguns pode comprometer a segurança de toda a sociedade. Da mesma forma que é obrigatório construir paredes para impedir a propagação de incêndios, assim também os governos, tanto nos países livres quanto nos despóticos, são responsáveis por regulamentar o comércio de serviços bancários”.12



Alinhando-se à cólera popular

Se fosse o caso de buscar uma ascendência intelectual para o fundamentalismo desprovido de base empírica que impera atualmente, nós a encontraríamos relacionada a Ayn Rand (1905-1982).13 Dogmática e sectária, pregando o egoísmo como virtude suprema e fustigando toda e qualquer forma de intervencionismo do poder público, a publicista e romancista russo-americana tem entre seus discípulos um certo Alan Greenspan. Em 1963, ele já não aceitava como “mito coletivista” a ideia segundo a qual os homens de negócios, quando entregues a si mesmos venderiam alimentos ou medicamentos perigosos, títulos fraudulentos ou prédios de baixa qualidade. “Ao contrário, é do interesse de cada homem de negócios ter a fama de ser honesto e só vender produtos de qualidade.” Ou seja, se o mercado não funciona corretamente, é porque não existe mercado suficiente.

Os discursos entusiasmados que se ouvem atualmente, contra os “excessos” do mundo das finanças, oferecem aos políticos um meio de se alinhar de modo satisfatório à cólera dos cidadãos; eles soam como constatação da impotência. No dia 17 de agosto, depois da minicúpula dedicada à crise da dívida, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel anunciaram em termos sibilinos a adoção de uma taxa sobre as transações financeiras, a famosa taxa Tobin, de dar calafrios ao setor financeiro.14 Todavia, essa decisão, que primeiro precisa ser aprovada pelos demais membros da União Europeia, é bem menos ousada do que parece. Ela não tem o objetivo de jogar areia na engrenagem da especulação financeira nem de gerar fundos para ajuda ao desenvolvimento, e sim, na melhor das hipóteses, de fazer os bancos pagarem (adiantado) uma ínfima parte de seus lucros futuros. Que eles não deixarão de auferir, como bem sabemos...

Texto de Ibrahim Warde é professor associado na Universidade Tufts (Medford, Massachusetts, EUA). Autor de Propagande impériale & guerre financière contre le terrorisme, Marselha-Paris, Agone - Le Monde Diplomatique, 2007.

http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=1001

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A América cruel

Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA estão mergulhando fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.

Os debates da campanha presidencial são desenhados para dar aos candidatos uma oportunidade deles se expressarem aos eleitores. Mas as platéias, também, algumas vezes tornam seus pontos de vista conhecidos. Isso aconteceu nos debates republicanos ocorridos entre 7 e 12 de setembro, em dois episódios que foram bastante noticiados.

No da NBC, do dia 7, Brian Williams perguntou ao governador do Texas, Rick Perry, se em algum momento durante seu mandato, no qual foram executadas 234 pessoas condenadas à pena de morte (que agora subiu para 235) ele “lutou para conseguir dormir à noite, com a ideia de que algum desses condenados pode ter sido inocente”.


Perry tem dormido bem. O Texas, ele disse, tem um sistema judicial muito “bom”. Então, partiu para um certo tipo de desafio. Disse ele: “se você vier ao nosso estado...e matar...um de seus cidadãos...você será executado”. A plateia aplaudiu entusiasticamente.


Williams, claramente surpreso com a manifestação, seguiu em frente perguntando a Perry o que ele tinha feito para que a sua resposta tivesse levantado aplausos. O governador foi impassível e repetiu o seu desafio: “Nossos cidadãos...tornaram claro o motivo, e eles não querem cometer esses crimes contra os nossos cidadãos, e se você o fizer, enfrentará a justiça final”.

Que esses não eram os únicos sentimentos possíveis em relação a execuções penais tornou-se claro rapidamente depois disso. Um movimento de massas, não apenas nos EUA mas nos países ao redor do mundo, levantaram-se, sem sucesso, contra a execução no Estado da Georgia, de Troy Davis, cuja condenação por assassinato há vinte anos tinha sido posta em dúvida por nova evidência, inclusive a retratação de sete de nove testemunhas. Uma petição assinada por mais de 600 mil pessoas foi apresentada à comissão de execução penal, que deixou a execução seguir adiante.


No debate republicano do dia 12, houve outra expressão pública de entusiasmo pela perda da vida no Texas. Wolf Blitzer, da CNN perguntou ao deputado do Texas, Ron Paul, que militou contra o projeto para a saúde apresentado pelo Presidente Obama, qual seria a resposta médica que ele daria se um jovem que tivesse decidido não contratar um plano de saúde entrasse em coma.


Paul respondeu: “É a isso que a liberdade diz respeito: assumir seus próprios riscos”. Ele parecia estar dizendo que se o jovem morresse isso seria problema dele.

Houve palmas na plateia.


Blitzer pressionou: “Mas deputado, você está dizendo que a sociedade deveria deixá-lo morrer?”. Grita alguém na plateia: “Sim!”. E a multidão segue batendo palmas, em apoio.

Uma das características que esses eventos têm em comum é a crueldade. A crueldade é a prima irmã da injustiça, ainda que seja diferente. A injustiça e seu oposto, a justiça – talvez o padrão mais comumente utilizado para julgar a saúde de um corpo político – são critérios por excelência, e se aplicam acima de tudo a sistemas e suas instituições. A crueldade e seus opostos, gentileza, compaixão e decência, são mais pessoais. São qualidades pessoais que têm, no entanto, consequências políticas. Um senso de decência de um país se situa acima de sua política, fiscalizando e estabelecendo limites frente aos abusos. Uma sociedade injusta deve reformar suas leis e instituições. Uma sociedade cruel deve reformar a si mesma.

Tem havido muitos sinais, recentemente, de que os EUA tem mergulhado fundo num padrão de crueldade. É difícil dizer por que uma coisa dessas está ocorrendo, mas parece que isso tem a ver com uma fé crescente na força como a solução de quase todos os problemas, seja em casa ou fora. O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade. Ele também apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, que mobilizou uma estrondosa celebração ao redor do país. Uma coisa é acreditar na necessidade infeliz de matar alguém; outra é revelar isso. Isso é especialmente perturbador quando não são apenas os quadros do governo, mas pessoas comuns que se engajam nessas efusões.


Em qualquer involução no sentido da barbárie pode-se estabelecer dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – testados, se houver. Segundo, vem a reação – seja a indignação e a rejeição ou outra aceitação [da indicação do demônio], até mesmo o prazer com a coisa. A escolha pode indicar a diferença entre um país que está restaurando a decência ou um outro, que está afundando num pesadelo. Foi um dia escuro para os Estado Unidos aquele em que a administração Bush ordenou secretamente a tortura de suspeitos de terrorismo. Nesse dia, a civilização dos EUA caiu num buraco. Mas afundou ainda mais baixo quando, tendo os fatos dos crimes se tornado conhecidos, o ex-presidente Bush e o ex vice-presidente Cheney abraçaram publicamente o mal feito, como o fizeram em sua recente tour de divulgação de seus respectivos livros. À impunidade que já desfrutaram eles acrescentaram a insolência, como se desafiando a sociedade a responder ou a, de outra parte, entrar em cumplicidade tácita com seus abusos.


E ainda assim houve pouca reação. Numa outra afundada no buraco, o Presidente Obama, mesmo tendo ordenado o fim da tortura, decidiu na direção contrária, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, e de fato afastou qualquer punição em geral. Ele sequer buscou, digamos, algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul, após o fim do apartheid.


Há muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está bem estabelecido. Nossa justiça criminal busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência aceitos em qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que parece saber que não há outro remédio para as doenças sociais que não a punição. As condições das prisões são temerosas. Atul Gawande, da The New Yorker, apresentou um quadro vasto e terrível do sistema prisional, com técnicas de isolamento que, muitos acreditam, equivalem à tortura. Os prisioneiros podem ser mantidos em solitárias por anos, em pequenas celas, sem janelas, nas quais permanecem por 23 horas por dia.


Muitos prisioneiros – assim como o senador John McCain, que foi mantido prisioneiro durante a Guerra no Vietnã do Norte – reportaram que tamanho isolamento é mais angustiante e destrutivo do que a tortura física. “Isso quebra o nosso espírito e enfraquece a nossa resistência mais efetivamente do que qualquer outra forma de mau trato”, disse McCain. Em muitos casos, o confinamento solitário leva à desintegração mental. Um artigo no Jornal da Academia Americana de Psiquiatria e Direito diz que “o confinamento da solitária ...pode ser tão estressante clinicamente como a tortura física”. A diferença entre uma jaula e uma solitária pode ser maior do que a diferença entre a liberdade e a jaula, mesmo que essa punição possa ser imposta apenas administrativamente, por diretores de presídios.

Em 2010 mais de 25 mil detentos foram mantidos nessas condições.
Um deles – confinado não no sistema de prisão regular, mas em instalações militares – é Bradley Manning, o recruta de 23 anos, suspeito de vazar documentos para o WikiLeaks. Embora prisioneiro modelo, ele foi mantido por anos numa prisão de segurança máxima, enquanto era sujeito ao confinamento de 23 horas, impedido de se exercitar, sob vigilância permanente e, por um tempo, mantido nu. Na época, ele não tinha sido acusado de crime algum.

Gawande estabelece uma conexão entre o abuso dos estadunidenses em casa e a tortura de suspeitos estrangeiros na “guerra contra o terror”. “Com pouca preocupação ou resistência”, escreve, “temos despachado milhares de nossos próprios cidadãos para condições que horrorizariam nossa Suprema Corte há um século. Nossa vontade de nos desfazer desses padrões para os prisioneiros americanos tornou fácil o descarte das Convenções de Genebra proibindo tratamento similar de prisioneiros de guerra estrangeiros”.


Também se pode estabelecer uma conexão entre esses abusos e as atuais diretrizes das decisões orçamentárias, nas quais, como na prontidão para denegar assistência em saúde aos moribundos, uma impiedosa vontade de se desfazer das pessoas em sofrimento de qualquer ajuda que possam receber é evidente. A lista de cortes, alcançados ou propostos na agenda da direita é longa demais para enumerar, mas exemplos recentes, incluindo a assombrosa obstrução de assistência às vítimas do recente furacão Irene e da tempestade Lee, além de outros programas, foram cortados; a oposição a que se amplie o seguro desemprego, a derrota do Dream Act, o qual poderia dar às crianças dos imigrantes um caminho para a cidadania, a oposição ao gasto do estado com o programa de assistência em saúde para as crianças (S-CHIP, na sigla em inglês), assim como do Head Start, e por aí vai. Parece que ninguém é infeliz o suficiente para ser isento ou isenta do corte orçamentário, ao passo que, ao mesmo tempo, ninguém é feliz o suficiente para ser inelegível para ter corte nos impostos. Decisões orçamentárias não envolvem pena de morte, embora para muitos elas sejam questão de vida ou de morte.


A crueldade de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que o pode a sua reserva de decência. Nem tampouco pode ser legislada, embora ambas possam estar manifestas na legislação. Por tudo isso, não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei e são provavelmente mais importantes, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões. Se elas seguem um caminho, um movimento de milhões, de repente, aparentemente do nada, aparece para protestar fortemente contra uma execução injusta. Quando vão pelo outro caminho, você acorda um dia para ouvir, com um frio na espinha, uma sala cheia de gente comemorando o assassinato de centenas de seus concidadãos.

Texto de Jonathan Schell - correspondente do The Nation, membro Doris Shaffer no The Nation Institute e dá um curso sobre o dilema nuclear na Universidade Yale. É autor de The Unconquerable World: Power, Nonviolence and the Will of the People, [O Mundo Inconquistável: Poder, Não-Violência e a Vontade do Povo] - uma análise do poder popular – e de The Seventh Decade: The New Shape of Nuclear Danger [A Década de Setenta: A Nova Forma do Perigo Nuclear].

Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O cinismo ocidental e Muamar Kaddafi


O que se passa na Líbia e ao redor dela mostra convincentemente que a comunidade internacional movimenta-se a uma reconstrução dos antigos métodos fascistas de conduzir os assuntos e processos internacionais, e isso de uma maneira sem precedentes e limites. Nunca na história da humanidade a idéia das normas dos direitos humanos se virou contra ela própria. Apresentar bombardeios aniquiladores como ação humanitária é cinismo. Os antecedentes da história, a adoção e a aplicação da resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, é alge e cúmulo do que pode ser entendido por cinismo. Em vez de garantir apoio à comunidade dos povos, o Conselho de Segurança (e já não é a primeira vez) sanciona o armamento de bandidos, redistribui propriedade nacional em favor de companhias e bancos ocidentais, aniquila a soberanidade de uma nação e bombardeia, num exercício de exterminação, o próprio povo que ele diz querer salvar de males piores.

A comunidade mundial tem o direito de na Assembléia Geral da ONU levantar a questão da legalidade ou criminalidade das ações do Conselho de Segurança. O levantamento dessas questões pode basear-se em:

1): O artigo 2 da Carta Magna da ONU diz: -“Nada dentro da presente Carta autoriza as Nações Unidas intervir em casos que estejam essencialmente dentro da jurisdição nacional de cada Estado, nada há que requeira os Membros das Nações Unidas a subjugar esses aspectos nacionais à ONU, baseando-se na presente Carta; mas esse princípio que não prejudique a aplicação ou enforcamento de medidas abaixo do capítulo VII”, o qual estabelece muito claramente que o Conselho de Segurança não tem absolutamente nenhum direito de nem mesmo falar de sanções contra a Líbia. Tudo o que o Conselho de Segurança poderia fazer sem ultrapassar os limites dos direitos autorizados seria sondar a possibilidade de intervir na situação criada pelos revoltosos na Líbia. Portanto, os membros do Conselho de Segurança que tomaram parte em preparar e passar a Resolução 1973 deveriam ser responsabilizados por excederem sua autoridade e isso onde havia finalidades criminosas. Em concordância com o fato deveriam enfrentar justiça em Corte Criminal internacional.

(2): Mesmo a extensão da ilegal Resolução 1973 é limitada à imposição de uma zona de trafego aéreo proibido, “no-fly zone”, o que de maneira alguma dá autorização a fazer a infra-estrutura civil do país, as forças armadas, ou grupos residenciais de Kadafi como alvo de ataque. A Resolução 1973 também não autoriza o apoiar militarmente a oposição armada da Líbia. Conseqüentemente, os atuais passos da OTAN, a justo título, merecem uma investigação criminal.

3): O Conselho de Segurança tem uma Comissão Militar própria, que é suposta de organizar as ações militares da ONU. Ela deveria analisar as situações em que a ONU tem intenção de intervir, planejar os aspectos técnicos da operação e sugerir a emissão de um mandato para uma eventual missão. Porque os Estados Unidos e a OTAN tomam a si mesmos o monopólio de interpretar realizar ou implementar a Resolução do Conselho de Segurança? Só isso já constitui um crime contra o Direito Internacional.

Nas ações do Conselho de Segurança e da OTAN manifesta-se uma finalidade criminosa contra os direitos humanos. O próprio Conselho de Segurança assim como a OTAN deveriam cair abaixo da jurisdição “Organização de Crimes Contra a Humanidade.” Cairia bem organizar um novo processo do tipo do processo de Nuremberg num futuro próximo. Seria muito possível e desejável. Hitler e seu círculo começaram suas atividades no desassossego junto ao Tratado de Versailles, as quais foram seguidas nas agitações contra as normas dos direitos humanos e culminaram nos históricos crimes contra a humanidade. A lição deveria nos ter ensinado que atrás de cada pessoa morta, seja essa um soldado, um oficial, um elemento da oposição ou um cidadão qualquer do mundo, o culpado tem que se submeter à processo criminal e responder perante a ele.

Os americanos organizaram o processo contra S. Milosevic [Slobodan] e Saddam Hussein e a conseqüência foi à execução dos dois. O do segundo mencionado foi um ato aberto, o do primeiro, um ato às penumbras. Entretanto, em primeiro lugar não se apresentaram provas jurídicas convincentes quanto às alegações de culpa e em segundo lugar aquilo a que foram acusados nem de longe chega aos pés dos massivos crimes perpetuados pelos Estados Unidos e a OTAN.

Que é que se poderia acrescentar quanto a não envolvimentos em assuntos internos de outros países? Quanto à criminalidade da instigação à violência e resistência às autoridades poderíamos por ex. perguntar-nos como reagiriam as autoridades americanas se Kadafi assediasse os manifestantes em Visconsin, estado norte-americano onde não há muito tempo iam demonstrações massivas contra o governo, e através de seus representantes oficiais líbios oferece-se aos revoltosos financiamento e armas para serem usadas contra Washington.

De que é que Kadafi é acusado? De ter regido a Líbia por mais de 40 anos? De ter usado de violência contra insurgentes armados, entre os quais se encontravam Al-Qaeda membros, alguns traidores agora contratados, assim como representantes da polícia secreta do bloco ocidental? A autodenominada maior democracia do mundo- América, já há muito é governada, e isso de forma absoluta, por oligarquias do grande capital, muitos, verdadeiros mafiosos.

Quanto a isso se podia ler já no tempo de Kennedy, que foi assassinado conquanto tentando tirar da Reserva Federal (que se constitui por 12 bancos particulares da Wall Street) o direito do monopólio na impressão do dólar. Nessa ocasião ele também olhava em seu meio à procura de apoio para seu projeto para a construção de um sistema mínimo de controle das atividades dos bancos e comunidades bancárias.

Também podemos lembrar-nos aqui que mafiosos saqueiam e pilham não só outros povos, mas a sua própria sociedade e caso se queira levar o princípio da democracia ocidental sem limites a todos com mais de vários decênios de anos no poder, então é de urgência começar com as monarquias da Europa e Oriente Médio. Uma tal proposta iria provavelmente causar uma imensa confusão na Inglaterra. Na Jordânia uma proposta semelhante é só para esquecer, já para não se mencionar outras mais.

Em seu longo termo no poder Kadafi levou a nação à não dependência na esfera da politica-economia- e finanças, assim como trabalhou para colocar os recursos do país à favor de seus cidadãos, com a finalidade de desenvolvê-lo para bem de todos.

Hoje a Líbia é o país mais próspero do norte da África. No seu testamento, datado 5 de abril 2011, Moamar Kadafi fala sobre o porquê dos representantes dos interesses ocidentais quererem matá-lo:- “Eles compreendem que nosso país, independente e livre não está abaixo das rédeas coloniais, que a minha visão, a minha revolução foi e continua sendo clara para o meu povo. E eu lhes asseguro que vou lutar até meu ultimo suspiro para a nossa independência. Então nos ajudem todos que confiem no justo e na liberdade.”

Ve-se que a democracia liberal não tem por onde acusar o líder da Líbia pelo que ele fez para seu país, que tornou o mais próspero do continente africano, com excelente gratuito serviço de saúde, um sistema de grandes subvenções com muitos elementos gratuitos na área da habitação, alta segurança social, um elevado numero de cidadãos abastados ou vivendo confortavelmente. Pode-se dizer que a Europa ou os Estados Unidos supera essa abastança para a maioria dos seus cidadãos?

Falando dos seus oponentes internos Kadafi diz que “relacionando-se com americanos e visitantes de outros países eles podem falar que se precisa de “liberdade” e “democracia.” O que absolutamente não é compreendido é que estariam frente à lei da selva, onde todos são sujeitos aos mais fortes… Kadafi aponta para o fato que muitos ainda não compreenderam que na América não haveria serviço médico de qualidade que fosse gratuito, que não haveria hospitais que fossem gratuitos e que estivessem abertos para eles, que também não haveria educação que fosse gratuita, nem habitação que se pudesse conseguir sem muito dinheiro, assim como não haveria segurança social digna do nome” E continuando Kadafi apontou também para o fato que “fazia o que podia para seus irmãos africanos, que ele fazia pelos países da União Africana tudo que estava em seu poder para ajudar as pessoas compreenderem a idéia de uma verdadeira democracia onde, como em seu país, quem tinha o poder de governar era a organização popular.”

Acrescentou que na Líbia a democracia tinha se realizado com órgãos como os Conselhos e as Confederações onde os chefes das tribos e as pessoas podiam discutir e decidir as grandes decisões para o país. Por ex. ressaltou que todas as pessoas podiam tomar parte na discussão da realização do mais grandioso projeto no continente africano. Projeto esse que foi desenvolvido para dar à sociedade da Líbia água proveniente de lagos subterrâneo. Apesar da realidade do caráter do território do país e do calor do clima africano, na Líbia não há falta d água. Vias de transporte, portos, terminais, aeroportos são modernos e efetivos. Acrescentou que, no entanto para os Estados Unidos isso não seria visto como democracia porque o que gostariam de ver seria uma democracia à americana.

Democracia à americana sendo o imenso sistema capitalista, esse modelo fascista de governo de povos e processos, onde os mais ricos pegam todos os principais- internos e externos- postos de decisão e onde os presidentes e parlamentos são como marionetes, dando a impressão de que falam e agem pelo país, mas na realidade não tem esse poder real, porque o poder real está nas mãos de quem controla o dinheiro, ou em outras palavras no círculo da Wall Street.

O que é que Obama prometeu aos eleitores se não o acabar com as guerras? Mas, o presidente não pode conduzir o país contrariamente as decisões tomadas atrás das culissas. As decisões tomadas nas culissas determinam o caminho a ser tomado e essas decisões, elas sim vêem do poder real, dos que para começar agiram para que ele, Obama, se tornasse presidente e incondicionalmente e em primeiro lugar, defendesse os interesses deles mesmos. [Obama, assim como todos os outros antes dele, foi por assim dizer escolhido de antemão e, depois de provas de fogo, promovido ao posto.]

Por outras palavras quem manda é a coerção que controla o dinheiro. A divisa “o que é bom para a General Motors também é bom para a América” à já muito tempo cedeu lugar ao moto o que é bom para “Goldman Sachs” também é bom para a América. É a crença que pensam adequadas, mas não se contentam em tê-la só para a América. Estão determinados a forçá-la a toda humanidade. [A divisa “da General Motors” refere-se à economia baseada na produção industrial que hoje, por assim dizer, já não existe na América. A divisa “Goldman Sachs” refere-se à especulação financeira, que hoje é à base da economia americana, sendo o ex. maior do sistema de especulação financeira o que levou ao colapso de 2008.]

O que é com Kadafi que enraivece tanto a oligarquia financeira colonial-imperialista? Em primeiro lugar a sua independência, assim como a da Líbia. Num mundo unipolar isso não poderia acontecer, e se acontece não poderia ser aceito, porque isso faria que a realidade já não seria unipolar, com um único centro de poder absoluto, ou seja, o colonial-imperialista.

Em segundo lugar está a realização e desenvolvimento da idéia socialista. Até mesmo a denominada “Dzjamaria,” o socialismo líbio, os oligarcas do mundo vêem como um perigo e uma idéia inaceitável, e esse perigo para eles é duplo. Toda a África do Norte e o Oriente Médio. Todo o mundo Islâmico parece estar à procura de um modelo para desenvolvimento e Líbia como um país Islâmico de grande prosperidade pode ser visto como um atraente e ótimo modelo a ser seguido. Principalmente se ela se mostrar à altura de vencer as admoestações do bloco colonial-imperialista na região. Daí se compreende todos os esforços e gastos para desacreditar e liquidar os resultados socialistas da Líbia.

Em terceiro lugar, o líder líbio no ano passado trabalhou muito ativamente na União Africana e entre os países pertencentes à OPEC (na sigla inglesa, os países produtores de petróleo) para persuadi-los a promover o “ouro-negro” ou o “dinheiro-ouro”. Uma forma de pagamentos e trocas em ouro por ouro. Por ex. ouro por petróleo.

Tudo isso leva o bloco colonial-imperialista à decisão de “democratizar” a Líbia. Sem nos aprofundarmos no assunto do padrão concreto da democracia nos países árabes, compreendemos que tudo isso leva ao modelo de “democratização” tipo ao do empregando no Iraque. Democratizar, quer dizer, liquidar a Líbia. Na arena mundial “a democratização” é para ser continuada com a Síria, Irã, com os escombros do Iraque, com o Paquistão, com a construção Curda, com o Yemem, na Caucásia e na Ásia Central. Todos na lista como potenciais alvos de “democratização.” E isso ainda não é tudo…


Fonte: Patria Latina

terça-feira, 19 de abril de 2011

Massacre apoiado por EUA mancha primavera árabe no Bahrein


Três dias depois da renúncia de Hosni Mubarak e do fim de sua longa ditadura no Egito, o povo do Bahrein, pequeno estado do Golfo, se lançou massivamente às ruas de Manama, capital do país, e se reuniu na Praça da Perla, sua versão da praça egípcia de Tahrir. O Bahrein vem sendo governador pela mesma família, a dinastia de Khalifa, desde a década de 1780, há mais de 220 anos. Com as manifestações, a população do país não pedia o fim da monarquia, mas sim uma maior representação em seu governo.

Após um mês de protestos, a Arábia Saudita enviou forças militares e policiais por meio da ponte de mais de 25 quilômetros que une o território continental saudita à ilha de Bahrein. A partir desse momento, reprimiu-se cada vez com mais força e violência os manifestantes, a imprensa e as organizações de direitos humanos.

Uma valente jovem ativista bahreiní a favor da democracia, Zainab al-Khawaja, viu a brutalidade de perto. Para seu horror, foi testemunha de como seu padre, Abdulhadi al-Khawaja, um destacado ativista pelos direitos humanos, foi golpeado e preso. Ela descreveu o ocorrido, desde Manama:

“Forças de segurança atacaram minha casa. Chegaram sem aviso prévio. Derrubaram a porta do edifício, derrubaram a porta de nosso apartamento e atacaram diretamente meu pai, sem explicar os motivos de sua prisão nem dar-lhe oportunidade para falar. Arrastaram meu pai pelas escadas e o golpearam na minha frente. Bateram nele até que ficou inconsciente. A última coisa que ouvi-lo dizer foi que não podia respirar. Quando tratei de intervir, tentei dizer-lhes: “Por favor, deixem de bater nele, ele irá com vocês voluntariamente. Não precisam golpeá-lo assim”. Basicamente me disseram que calasse a boca, me agarraram e me arrastaram escadas acima até o apartamento. Quando voltei a sair, o único rastro que havia de meu pai era seu sangue na escada”.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch pediu a imediata libertação de Al-Khawaja. O esposo e o cunhado de Zainab também foram presos. Zainab publica no twitter como “angryarabiya” e, em protesto pelas prisões, iniciou uma greve de fome, ingerindo apenas líquidos. Também escreveu uma carta ao presidente Barack Obama, na qual diz: “Se algo acontecer com meu pai, com meu esposo, meu tio, meu cunhado ou comigo, declaro-o tão responsável como o regime de Al Khalifa. Seu apoio a esta monarquia faz com que seu governo seja cúmplice de seus crimes. Todavia, abrigo a esperança de que você se dê conta de que a liberdade e os direitos humanos significam o mesmo para uma pessoa do Bahrein do que para uma pessoa dos Estados Unidos”.

No discurso de condenação ao governo de Kadafi, Obama justificou os recentes ataques militares a Líbia com estas palavras: “Assassinaram pessoas inocentes. Atacaram hospitais e ambulâncias. Prenderam, agrediram e assassinaram jornalistas”. Agora ocorre o mesmo no Bahrein e Obama não tem nada a dizer.

Do mesmo modo que ocorreu no Egito e na Tunísia, o sentimento é nacionalista e não religioso. O país é 70% xiita, mas governador por uma minoria sunita. No entanto, uma das principais consignas presentes nos protestos tem sido: “Nem xiita, nem sunita, bahreiní”. Isso desmoraliza o argumento esgrimido pelo governo do Bahrein, segundo o qual o atual regime seria a melhor defesa contra a crescente influência do Irã, um país xiita, no rico em petróleo Golfo Pérsico. Some-se a isso o papel estratégico do Bahrein: é ali que se encontra a base da 5ª Frota Naval dos EUA, encarregada de proteger os “interesses estadunidenses” como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, e de dar apoio às guerras no Iraque e no Afeganistão. Não está também entre os interesses estadunidenses o de apoiar a democracia e não os ditadores?

Nabeel Rajab é presidente do Centro pelos Direitos Humanos do Bahrein, organizado que foi dirigida pelo recentemente sequestrado Abdulhadi al-Khawaja. Rajab pode enfrentar um julgamento militar por publicar a fotografia de uma manifestante que morreu enquanto permanecia preso. Rajab me disse: “Centenas de pessoas estão presas e são torturadas por exercer sua liberdade de expressão. E tudo por vingança, porque um dia, há um mês, quase a metade da população do Bahrein foi para as ruas exigir democracia e respeito pelos direitos humanos”.

Rajab observou que a democracia no Bahrein poderia implicar a luta pela democracia nas ditaduras vizinhas do Golfo Pérsico, especialmente na Arábia Saudita. É por isso que a maioria dos governos regionais têm interesse no fim dos protestos. A Arábia Saudita está bem posicionada para tarefa já que é recente beneficiária do maior acordo de venda de armas na história dos EUA. Apesar das ameaças, Rajab foi firme: “Enquanto respirar, enquanto viver, vou seguir lutando. Acredito na mudança. Acredito na democracia. Acredito nos direitos humanos. Estou disposto a dar minha vida. Estou disposto a dar o que for preciso para alcançar essa meta”.

Fonte: Carta Maior e GeoPolítica Brasil

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Líbia: uma guerra com nome e sobrenome


Fiquei profundamente impressionado quando era um menino de 11 anos ao ver que meu pai, que era medida, operava dia e noite para salvar as vidas de soldados alemães que tinham ocupado meu país, a Noruega. Eles tinham ficado gravemente feridos por um torpedo que alcançou seu navio quando tentavam desembarcar. Meu pai dizia que o dever supremo de um médico é o de salvar vidas, sem fazer distinção alguma.

Um médico que cura só os amigos e não os inimigos é um participante na guerra ou um cúmplice. Uma organização que protege os civis só de um lado e não os do outro não é humanitária, mas sim beligerante. De modo que não há nada de histórico na Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU. Histórica teria sido uma resolução para proteger os civis em todas as guerras, incluindo uma zona de exclusão aérea sobre Gaza, Bahrein, Paquistão e Afeganistão. Mas no mesmo no dia em que se aprovou a resolução 1973, em 17 de março de 2011, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi tema de manchetes de primeira página ao matar civis no Afeganistão, o que, pelo visto, é uma rotina diária.

O que está ocorrendo agora na Líbia é uma intervenção na qual se apoia uma parte contra a outra. Isso tem um só nome: guerra.

É verdade, o presidente Barack Obama é mais multilateral que George W. Bush. Mas o problema não é quanto são os que decidem, mas sim o que decidem. Também é verdade que a resolução do Conselho de Segurança excluiu a previsão feita por Fidel Castro em 21 de fevereiro de que a OTAN iria ocupar a Líbia.

A maioria e a não aplicação do veto foram claras. Mas o trio anglo-estadunidense-francês representa menos de 500 milhões de pessoas, enquanto que os cinco países que se abstiveram – Brasil, Rússia, China, Índia e Alemanha – constituem quase a metade da humanidade.

Quem ganhar o apoio dos países islâmicos dirigirá o mundo e a OTAN agora está em guerra com quatro deles. O fato de os Estados Unidos colocarem-se em um segundo plano é facilmente explicável. O país está na bancarrota e quer compartilhar os custos econômicos, militares e, sobretudo, políticos. Há objeções no Congresso estadunidense sobre o tema e alguns temem que possa se converter em um atoleiro pior que o do Afeganistão.

Certamente, ninguém deveria ficar simplesmente olhando um regime reprimir seu próprio povo, como fez Kadafi. Todo outro tipo de medida deveria ter sido usada, incluindo a derrubada de aviões por meio de mísseis transportados por navios de guerra. Mas como alguém disse ironicamente na Rádio Nacional Pública dos Estados Unidos “presidente Obama lançou mais mísseis de cruzeiro que todos os outros ganhadores do Prêmio Nobel da Paz juntos” e esses projéteis atingiram todo tipo de alvos existentes, quer estivessem voando, circulando em veículos terrestres ou caminhando.

Um precedente é a ação da OTAN contra a Sérvia, na qual foram usados “todos os meios necessários”, mas sem um mandato do Conselho de Segurança da ONU. Como na Líbia, na Sérvia e no Kosovo o Ocidente fez sua propaganda habitual. O inimigo é reduzido a uma pessoa a odiar, ou seja, a receita usada por Orwell em seu livro “1984”. Milosevic, Hussein, Osama bin Laden e agora Kadafi. Esse trabalho preparatório foi feito também contra Fidel Castro e Hugo Chávez, até agora sem ações posteriores. É um paradoxo que o Ocidente, que produziu a ideia de um contrato social que o povo pode reconsiderar – Rousseau contra Hobbes – concentre-se tanto em uma só pessoa e tão pouco no povo.

Mas as metas na Sérvia eram claras: bombardear as empresas estatais, não as privatizadas, abrir caminho às corporações transnacionais para o controle dos recursos naturais, conseguir instalar essa enorme base militar chamada Camp Bondsteel e apoiar um chamado exército de libertação (UCK) que ostentava antecedentes recorde em matéria horrores. As armas usadas contra a Sérvia incluíram bombas de fragmentação e urânio empobrecido, que é radioativo e causa câncer nesta e nas futuras gerações.

Não sabemos se isso se aplica na guerra contra a Líbia. Não está claro quem são os rebeldes, ainda que não haja dúvida de que se opõem, com razão, fortemente à ditadura de Kadafi. Mas o que é que eles querem mesmo? Supostamente permitirão os investimentos estrangeiros diretos no petróleo e a instalação de uma ou duas bases militares, tanto por gratidão quanto para solidificar a vitória. E os Estados Unidos teriam então, finalmente, o que têm buscado há longo tempo: uma base da OTAN na África.

Na Líbia, talvez haja milhões de pessoas que não gostam de Kadafi, mas há também aqueles que, em troca, gostam muito de algumas de suas realizações. O Ocidente corre o risco de se converter em vítima de sua própria doutrina de “um país, uma pessoa” e cometer mais um duradouro e trágico crime contra a humanidade.

Por: Johan Galtung - professor de Estudos sobre a Paz, e reitor de Transcend, uma organização que promove a paz, o desenvolvimento e o meio ambiente.

Fonte: Carta Maior e http://brasilnicolaci.blogspot.com/

segunda-feira, 28 de março de 2011

EUA, França, Reino Unido e Itália se acham donos do mundo, ou são hipócritas

Enquanto a Otan assume o comando militar na Líbia, comunidade internacional se reúne em Londres para debater as operações militares e o futuro do país. Sarkozy e Cameron apelam a apoiadores para que abandonem Kadafi.

Representantes de 40 nações, entre eles a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, reúnem-se nesta terça-feira (29/03) em Londres, à procura de caminhos que possam levar a Líbia a se tornar um país democrático.

Um dos primeiros planos para uma solução do conflito líbio foi elaborado pelo governo italiano, como declarou o ministro do Exterior da Itália, Franco Frattini, em entrevista ao jornal italiano La Repubblica neste domingo. O plano italiano prevê sobretudo a instalação de um cessar-fogo e de um "corredor permanente de ajuda humanitária".

A Itália planeja ainda uma oferta de asilo para o ditador Muammar Kadafi. Segundo Frattini, o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi tentou convencer a Alemanha para que ambos os países apresentassem o plano na reunião de terça-feira. Mas, nesta segunda-feira, Frattini deixou claro que não será apresentada nenhuma iniciativa apoiada apenas por dois países.

O Ministério do Exterior em Berlim confirmou a participação de Westerwelle na reunião internacional para debater o futuro da Líbia, mas relativizou a iniciativa ítalo-alemã anunciada por Frattini. Segundo um porta-voz do ministério, Berlim estaria em conversações com diversos parceiros internacionais, também, mas não exclusivamente, com a Itália.

"Sarkozy e Cameron pedem que Kadafi saia - soberba e hipocrisia"
Nesta segunda-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmaram que Kadafi deve partir imediatamente, numa declaração conjunta em que apelam aos apoiantes do líder líbio para que o abandonem.

O ditador deve deixar o poder porque seu regime perdeu toda a legitimidade, afirmam, apelando aos partidários do líder líbio para que o abandonem antes que seja "tarde demais". Na declaração, Sarkozy e Cameron pedem aos líbios que construam um processo de transição em torno do Conselho Nacional de Transição, o órgão dos rebeldes. "Não estamos considerando uma ocupação militar da Líbia", afirmam.

"Protetor Unificado - hipocrisia dos EUA e da OTAN"
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, como também representantes da Liga Árabe e da União Africana foram convidados para o encontro em Londres. A princípio, a reunião deverá tratar da continuação e da liderança da missão militar na Líbia. Uma segunda parte do encontro deverá abordar a situação humanitária no país.

Nesta semana, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) assume o comando de todas as operações militares internacionais no país norte-africano. O canadense Charles Bouchard foi nomeado para comandar a operação Unified Protector (protetor unificado).

Segundo Rasmussen, a missão da Otan é proteger estritamente "a população civil e as regiões habitadas por civis ameaçadas por ataques do regime de Kadafi". Ou seja, a Otan não está de nenhum lado. Até o momento, no entanto, os ataques aliados funcionaram como uma espécie de força aérea dos rebeldes contra as tropas de Kadafi.

Resolução 1973
Dessa forma, quando a Otan assumir os comandos das operações, essa espécie de ajuda aos rebeldes pode chegar ao fim. "Em termos militares, os rebeldes não são civis", lembra Alain Délétroz do Grupo Internacional de Crise (ICG), think tank sediado em Bruxelas. Um diplomata da Otan afirmou que a aliança pretende respeitar todos os aspectos da Resolução 1973 da ONU. "A Otan continua apartidária", afirmou.

No entanto, a coalizão ocidental responsável pela missão na Líbia até o momento também dizia se apoiar estritamente na Resolução 1973 da ONU. A resolução permite uma ação para proteger os civis, mas não para derrubar Kadafi. Para o especialista Délétroz, todavia, os ataques da coalizão serviram para afastar o ditador do poder, ainda que ninguém afirme isso abertamente.

Confrontos na cidade natal de Kadafi
Enquanto isso, com o apoio da artilharia aérea ocidental, rebeldes líbios conseguem obrigar as tropas de Kadafi a recuar cada vez mais. Nesta segunda-feira, os opositores do regime avançaram até Syrte, cidade natal do ditador líbio, após terem reconquistado uma série de localidades estratégicas no caminho. O anúncio de que Syrte teria sido ocupada pelos rebeldes não foi, a princípio, confirmado.

O governo russo criticou a intromissão do Ocidente. "Nós somos da opinião de que a intervenção da coalizão numa guerra civil não está apoiada pela resolução do Conselho de Segurança", disse o ministro do Exterior russo, Serguei Lavrov. Assim como a Alemanha e o Brasil, a Rússia se absteve na votação da Resolução 1973 da ONU.

Um dia antes da conferência sobre a Líbia em Londres, o governo do emirado Catar reconheceu os rebeldes como legítimos representantes do povo líbio. O governo de Kadafi acusou a coalizão ocidental de ter provocado a morte de mais de uma centena de civis através de seus ataques aéreos e criticou o governo de Catar pela intromissão drástica em assuntos internos líbios.

Fonte: Deutsche Welle com adaptações

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A democracia fugiu do controle?


Ainda é cedo para maiores projeções nessa ou naquela direção sobre os telegramas wikis ou sobre o papel representado por Julian Assange. Uma coisa é certa. A pergunta que se configura aos poucos e que o confronto entre a força avassaladora da nova informação eletrônica e a da velha mídia mundial a serviço do poder hegemônico do capitalismo nos coloca é a seguinte: a democracia representativa burguesa está fugindo ao controle de quem a tutela?

Um curioso artigo do jornalista espanhol Pascual Serrano publicado em “El Periódico de Catalunya” e reproduzido no site www.rebelion.org levanta uma questão interessante provocada pelos milhares de telegramas vazados pelo site Wikileaks na internet, mas que de algum modo até intrigante e ultrapassa a polêmica criada na imprensa mundial diante do volume e do conteúdo ali exibidos.

Diz Serrano na introdução do seu texto que o fenômeno Wikileaks tem monopolizado numerosas análises e reflexões sobre o futuro da informação, da internet e da própria difusão de notícias. É natural. Como o direito à informação e à liberdade de imprensa se constituem em pilares, entre outros, da democracia tal qual a conhecemos e é praticada em boa parte do mundo ocidental, chama a atenção o fato de que parece se configurar com maior nitidez uma verdade que a hipocrisia de muitos ‘democratas’ procura esconder e maquiar há algum tempo: afinal existem informações e... informações. Como também existem concepções diferentes sobre a liberdade de imprensa.

Quando um país, como os Estados Unidos da América, apóia um golpe de estado contra um governo democraticamente eleito, o último exemplo é a deposição do presidente Manuel Zelaya em Honduras (mas a lista é imensa só nos últimos 50 anos), é justo encobrir ou negar essa informação? Em nome de quê? De quem? E a liberdade de imprensa onde é que fica? Os chamados segredos de estado só pesam em um dos pratos da balança?

Não é por acaso que o pensador e lingüista Noam Chomsky declara, a propósito dos recentes vazamentos no Wikileaks, que os governantes norte americanos tem profundo desprezo pela democracia, essa mesma da qual se orgulham e querem impor ao mundo através da força.

Muito a propósito, vejamos as recentes declarações do atual embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, em artigo escrito para o jornal Folha de São Paulo no dia 2 de dezembro passado: “O presidente Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton decidiram dar prioridade à revigoração das relações dos EUA no mundo. Ambos têm trabalhado com afinco para fortalecer as parcerias existentes e construir novas parcerias no enfrentamento de desafios comuns, das mudanças climáticas e da eliminação da ameaça das armas nucleares até a luta contra doenças e contra a pobreza.”

Obedecendo à orientação de Washington para minimizar os telegramas wikis, o blá, blá, blá retórico de Thomas Shannon é vazio de significado prático e recheado de conteúdo cínico. No contexto da América Latina, quais seriam esses desafios, senhor embaixador? O combate ao narcotráfico, por exemplo? Mas qual é o maior país consumidor de drogas pesadas no mundo e, portanto, grande sustentáculo do narcotráfico internacional, segundo relatórios da ONU? Os Estados Unidos da América.

Qual o volume de dinheiro do narcotráfico branqueado em bancos norte americanos (e europeus)? Em termos mundiais, já ultrapassa a casa dos 400 bilhões de dólares por ano.

Quanto às mudanças climáticas, é sabido que até a presente data o país do Sr. Shannon ainda não assinou o Protocolo de Kyoto, criado em 1997 com o objetivo de reduzir a produção de gases poluentes, sendo os EUA o país que mais polui o meio ambiente mundial. Dispenso-me de comentar sobre o cinismo da “eliminação da ameaça de armas nucleares”. Repito aqui apenas a velha e surrada pergunta: por quê os EUA não dão o exemplo e começam a destruir o seu próprio arsenal nuclear?

Sobre a luta contra a doença e a pobreza, o Sr. Shannon deveria olhar para dentro de seu próprio país e ver os estragos causados no sistema de saúde privatizado, tão bem avaliado pelo cineasta Michael Moore; ou avaliar o atual nível de desemprego e pensar nos imensos guetos de miséria espalhados pelo país, sobretudo entre afros descendentes e hispânicos.

O ainda referido artigo publicado na FSP é uma catilinária de parvoíces, eivada de frases vazias, mas sempre com aquela pontinha de arrogância com a qual os “nossos irmãos do norte” se acostumaram a tratar o mundo. Prestem atenção nessa simples e emblemática frase do embaixador norte americano no Brasil sobre os telegramas do Wikileaks, eivada de arrogância e ‘espírito democrático’: “Uma ação cuja intenção é provocar os poderosos pode, em vez disso, pôr em risco aqueles que não têm poder.” Ou seja: nós, os poderosos (leia-se EUA), se provocados, podemos pôr em risco os que não tem poder (o resto do mundo).

Mas é exatamente isso o que seu país já faz, senhor embaixador, com ou sem o Wikileaks. Como é que ficam os assassinatos de civis no Afeganistão e no Iraque? Quantos idosos, mulheres e crianças já morreram para receber (custa-me mais uma vez engolir o cinismo) a velha e empoeirada democracia de Abraham Lincoln? O que significa enviar dez mil soldados armados até os dentes para uma ajuda humanitária ao Haiti?

Volto agora ao jornalista Pascual Serrano. Sobre o debate entre defensores e críticos para saber se o site de Julian Assange comete uma irresponsabilidade com a e circulação de informação secreta, o jornalista espanhol considera que há uma simplificação do tema e que o modus operandi do próprio Wikileaks vem demonstrando que o assunto é mais complexo.

Serrano, sem mostrar duvidas quanto à veracidade dos tais telegramas, levanta a enigmática hipótese de se saber a razão pela qual, de início, o Wikileaks ofereceu de forma privilegiada e com exclusividade 250.000 documentos a cinco grandes meios de comunicação mundial, The New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País. Tais órgãos de informação divulgaram em seguida que tinham “autonomia para decidir sobre a seleção, valoração e publicação das informações que afetassem a seus países (EUA, Grã Bretanha, Alemanha, França e Espanha).

Portanto, e ainda segundo Serrano, a conivência entre o Wikileaks e o cartel criado entre esses cinco órgãos de comunicação, é absoluta. E conclui: “Não sei se a origem do site Wikileaks era limpa e honesta. O que parece claro, contudo, é que está se convertendo num objeto domesticado, a ponto de o primeiro ministro de Israel Benjamim Netanyahu afirmar que os documentos dão razão ao seu governo ao valorizar a ameaça iraniana”.

Os vazamentos Wikileaks significariam o simples desnudamento da diplomacia de intimidação e espionagem colocadas em prática por Washington, tornando explícito para o mundo aquilo que muitos já sabiam ou desconfiavam? Criam constrangimentos para o complexo industrial/militar e as grandes corporações capitalistas ou, ao contrário, significam uma nova e sofisticadíssima forma de contra-informação digna de um filme de Hollywood?

O atual líder republicano no senado norte americano, Mitch McConnell, declarou em entrevista para a rede de televisão NBC que Assange é “um terrorista de alta tecnologia”. O dano causado aos EUA é enorme e, segundo o senador, Assange deve ser julgado com todo o peso da lei. Se por acaso isso causar problemas legais, “muda-se a lei”, completou McConnell. Parece que desde a eleição de Bush filho, quando se fraudou a lei no estado da Flórida para sua eleição, ou mesmo bem antes, quando John Kennedy foi assassinado, a democracia norte americana vem mudando algumas de suas leis a fim de se manter como sendo a democracia exemplar para o resto do mundo.

Fonte: O artigo é de Izaías Almada extraído http://www.cartamaior.com.br

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quem é Julian Assange (Wikileaks) ? Herói ou vilão?


Quem é Julian Assange? Herói ou vilão? Essa é a principal pergunta que muitos se fazem hoje. Com toda certeza posso afirmar que para o governo dos EUA ele é um perigoso vilão, pois Assange tem revelado em seu site, Wikileaks, os segredos por trás da diplomacia americana e sua rede de informações, causando muito embaraço aquele governo e trazendo a tona muitas discussões e verdades que estavam ocultas atrás das paredes de Washington e seus aliados.

Em minha opinião, como muitos de nossos leitores e amigos, vejo Assange como um herói, sim isso mesmo, ele pode ser intitulado como herói, pois teve a coragem de publicar toda a sujeira que estava escondida embaixo do tapete sem temer as possíveis retaliações que isso lhe pudesse trazer. Um herói não é uma pessoa super em nada, é uma pessoa como eu ou você.

Mas, o que é preciso para o individuo ser considerado um herói? Podemos batizar de heróis os bombeiros, policiais, militares, médicos e professores. As pessoas nesses empregos geralmente transcendem o interesse próprio normal, colocando os interesses e a necessidades do outros em primeiro lugar na lista de suas prioridades.

Eles lutam pela saúde, segurança, crescimento e excelência do ser humano, são guerreiros da vida diária, cujos sacrifícios e atos nobres beneficiam a todos nós. E nessa categoria podemos enquadrar Julian Assange por seu serviço a humanidade.

Mas, as pessoas não costumam pensar sobre isso, o que torna essas ações de conhecimento de poucos. As contribuições desses heróis são tão comuns, e tão presentes em nosso convívio, que podemos facilmente ignorar seu caráter distinto.

O reconhecimento ocorre apenas quando os esforços delas vão bem além do limite normal de suas atividades rotineiras e chamam a atenção de forma dramática ou marcam de forma direta a nossa sociedade, rompendo a cúpula que nos isola do mundo real. Pois vivemos em uma redoma imposta por governos e a mídia manipuladora, que tenta nos tornar marionetes a seu bel prazer.

Em uma cultura permeada por interesses próprios e passividade auto-indulgente, em que as pessoas são mais voltadas ao papel de telespectador do que de participante, que preferem o conforto fácil a iniciar uma mudança necessária, é preciso ser forte para tomar fôlego e lutar pela mudança, para lutar contra toda a mentira que nos cerca.

O conceito de um herói se estende para além dessas ocupações que requerem o confronto com o perigo pessoal pelo bem dos outros, ou que envolvem sacrifício financeiro a serviço do que é necessário para o bem social. Pois qualquer pessoa que defende o bem e o certo, contra todas as adversidades contrárias, e proporciona através disso uma luta heróica, tem seu valor nobre, que o dicionário define como herói.

Podemos então definir um herói como alguém que exerce um caráter nobre a serviço da sociedade, que sacrifica sua vida privada para o bem da comunidade, buscando assim, o bem comum. Esse é o dever moral dos heróis e é através desses atos que ele se torna um herói.

O GeoPolítica Brasil e seu editor apóiam a postura de Julian Assange e seu site Wikileaks, pois a verdade deve estar acima de tudo, e mesmo que tente silenciá-la.

Texto de Angelo D. Nicolaci – Editor GeoPolÍtica Brasil extraído do site: http://brasilnicolaci.blogspot.com/

Quem é Julian Assange (Wikileaks) ? Herói ou vilão?

Quem é Julian Assange? Herói ou vilão? Essa é a principal pergunta que muitos se fazem hoje. Com toda certeza posso afirmar que para o governo dos EUA ele é um perigoso vilão, pois Assange tem revelado em seu site, Wikileaks, os segredos por trás da diplomacia americana e sua rede de informações, causando muito embaraço aquele governo e trazendo a tona muitas discussões e verdades que estavam ocultas atrás das paredes de Washington e seus aliados.

Em minha opinião, como muitos de nossos leitores e amigos, vejo Assange como um herói, sim isso mesmo, ele pode ser intitulado como herói, pois teve a coragem de publicar toda a sujeira que estava escondida embaixo do tapete sem temer as possíveis retaliações que isso lhe pudesse trazer. Um herói não é uma pessoa super em nada, é uma pessoa como eu ou você.

Mas, o que é preciso para o individuo ser considerado um herói? Podemos batizar de heróis os bombeiros, policiais, militares, médicos e professores. As pessoas nesses empregos geralmente transcendem o interesse próprio normal, colocando os interesses e a necessidades do outros em primeiro lugar na lista de suas prioridades.

Eles lutam pela saúde, segurança, crescimento e excelência do ser humano, são guerreiros da vida diária, cujos sacrifícios e atos nobres beneficiam a todos nós. E nessa categoria podemos enquadrar Julian Assange por seu serviço a humanidade.

Mas, as pessoas não costumam pensar sobre isso, o que torna essas ações de conhecimento de poucos. As contribuições desses heróis são tão comuns, e tão presentes em nosso convívio, que podemos facilmente ignorar seu caráter distinto.

O reconhecimento ocorre apenas quando os esforços delas vão bem além do limite normal de suas atividades rotineiras e chamam a atenção de forma dramática ou marcam de forma direta a nossa sociedade, rompendo a cúpula que nos isola do mundo real. Pois vivemos em uma redoma imposta por governos e a mídia manipuladora, que tenta nos tornar marionetes a seu bel prazer.

Em uma cultura permeada por interesses próprios e passividade auto-indulgente, em que as pessoas são mais voltadas ao papel de telespectador do que de participante, que preferem o conforto fácil a iniciar uma mudança necessária, é preciso ser forte para tomar fôlego e lutar pela mudança, para lutar contra toda a mentira que nos cerca.

O conceito de um herói se estende para além dessas ocupações que requerem o confronto com o perigo pessoal pelo bem dos outros, ou que envolvem sacrifício financeiro a serviço do que é necessário para o bem social. Pois qualquer pessoa que defende o bem e o certo, contra todas as adversidades contrárias, e proporciona através disso uma luta heróica, tem seu valor nobre, que o dicionário define como herói.

Podemos então definir um herói como alguém que exerce um caráter nobre a serviço da sociedade, que sacrifica sua vida privada para o bem da comunidade, buscando assim, o bem comum. Esse é o dever moral dos heróis e é através desses atos que ele se torna um herói.

O GeoPolítica Brasil e seu editor apóiam a postura de Julian Assange e seu site Wikileaks, pois a verdade deve estar acima de tudo, e mesmo que tente silenciá-la.

Texto de Angelo D. Nicolaci – Editor GeoPolÍtica Brasil extraído do site: http://brasilnicolaci.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Crimes de guerra: escravas sexuais no Iraque e no Afeganistão

Uma menina iraquiana de 12 anos é obrigada a se prostituir nos subsolos de Bagdá, enquanto os guardas privados norte-americanos fazem uma coleta de poucos dólares e fazem fila. As moças são recrutadas no Leste Europeu com a promessa de um trabalho como doméstica em Dubai e depois dali são desviadas e segregadas ao coração do Iraque.

É severamente proibido que os contratantes ou funcionários do governo se tornem responsáveis pelo tráfico sexual nas zonas de guerra. Qualquer um que se torne responsável pelo tráfico sexual será suspenso do cargo. Quem for surpreendido em tráfico sexual será denunciado às autoridades. Os resultados? "Não há nenhum processo aberto", diz a ex-detetive do Human Rights Watch, Martina Venderberg. "Enfim, não há vontade de fazer com que se respeite a lei".

A vergonha foi descoberta por uma investigação do Center for Public Integrity, publicada neste domingo pelo Washington Post. E os contratantes da ex-Blackwater acabaram sob acusação: o grupo privado já tristemente famoso pelos massacres de civis no Iraque. A empresa goza de uma fama tão ruim que, para voltar a trabalhar hoje, mudou de marca e se chama Xe Service.

Um ex-guarda conta que não quer revelar o nome por medo de represálias: "Eu mesmo vi guardas mais velhos recolherem dinheiro, enquanto moças iraquianas, dentre as quais meninas de 12 e 13 anos, se prostituíam". O guarda diz também que denunciou tudo ao seu superior, mas que "nenhum procedimento foi tomado: me entristece só de falar nisso".

De fato, quem não se entristece é a porta-voz da ex-Blackwater, Stacy De Luke, que, no Washington Post, nega "com força essas acusações anônimas e sem provas: a política da empresa proíbe o tráfico humano". Claro.

O caso das trabalhadores do leste que pensam em voar para Dubai e acabam no Iraque foi descoberto por uma jornalista freelancer. Aqui, a organização era muito mais acurada. Um verdadeiro tráfico organizado por subcontratantes que trabalham para o Exército e para o Exchange Service da Aeronáutica: nome que deveria indicar o escritório que se ocupa de organizar o serviço de restaurantes, mas que evidentemente também se ocupa de outras coisas. Assim que aterrizam, as pobrezinhas são privadas do passaporte.

A fábrica do sexo é ainda mais sólida no Afeganistão. Lá, há quatro anos, uma centena de chinesas foram libertadas em uma série de blitzes que, ao invés do Talibã, atingiram os bordéis. Mas o tráfico continuou. Com a "aquisição" de uma mulher por 20 mil dólares, um empresário do ArmorGroup, a empresa que, até pouco tempo atrás, se ocupava da segurança da embaixada norte-americana em Kabul, se orgulhava de poder organizar um tráfico rentável.

A investigação que iniciou rapidamente chegou ao altos níveis do FBI. Mas parou por aqui. Os federais defendem que não tiveram meios suficientes. Nas zonas de guerra, enfileiraram-se cerca de 40 agentes, mas eles já têm muito a fazer ao se ocupar de fraudes e corrupção.

Mas os ativistas dos direitos humanos têm uma outra explicação: a verdade é que as autoridades preferem fechar um olho. Diz Christopher H. Smith, deputado e autor de uma lei antitráfico, para a crônica republicana: como é possível tolerar que essa gente possa explorar as mulheres com o dinheiro que nós pagamos?

Fonte: Carta Maior