segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Reserva de emergência: por que é importante ter uma e como montar?


O imprevisto bateu à porta. Pode ser uma falha mecânica no carro, um parente com problema de saúde, uma reforma urgente na casa ou a perda do emprego. Todos estamos sujeitos a uma infinidade de eventos aleatórios que, no fim das contas, podem sair caro. Há duas formas de minimizar os efeitos desses transtornos: prever exatamente quando eles vão ocorrer ou se preparar desde cedo para estas eventualidades.

Como a primeira alternativa é inviável (mesmo para os mais crentes em futurologias e afins), resta somente a prevenção. Tudo se resume a um objetivo: a montagem de uma reserva de emergência. É um tipo de poupança que deve ser usado somente nas horas de aperto – porque como qualquer crise inesperada já dá dor de cabeça suficiente, é melhor não ter que se preocupar também com “de onde tirar o dinheiro” para resolver estes problemas.

·  Como montar essa reserva de emergência?
·  O que devemos levar em conta na hora de preparar este fundo?
·  Onde deixar o dinheiro guardado?
·  Em caso de uso, como restaurar a conta?

São essas questões que este artigo busca responder.

Como montar uma reserva de emergência?
A montagem da reserva de emergência deve começar com um cálculo das contas mensais. Para quem já tem um controle financeiro eficiente, com anotações dos gastos fixos e do consumo eventual, não há muito com o que se preocupar.

Com emprego ou sem emprego, contas de água, luz, telefone, condomínio ou aluguel e muitas outras continuam a chegar. A reserva de emergência deve ser feita para que, em meio a eventos imprevistos, estas contas continuem sendo pagas.

Anotar todos os gastos fixos (esses citados acima) é o primeiro passo para transformar o fundo de emergência em algo palpável. Alguns gastos variáveis, como as compras no supermercado ou na farmácia, também devem entrar na conta – afinal, a família precisa continuar se alimentando. Uma estimativa aproximada das compras mensais ajuda a mensurar essas despesas.

O que levar em conta para preparar o fundo?
Pegue o resultado equivalente a um mês de despesas e multiplique por três. Essa é a reserva mínima para segurar as contas da casa por três meses em caso, por exemplo, de desemprego. Uma reserva mais segura considera seis meses de gastos fixos e variáveis.
Nesse tempo, é possível manter as contas em dia enquanto se busca, entre outras saídas, uma fonte extra de renda.

Onde deixar o dinheiro guardado?
Não basta deixá-lo sob o colchão. É preciso mantê-lo, na pior das hipóteses, na mais simples das opções de investimento – a caderneta de poupança. Ela tem rendido menos, sobretudo após a queda da taxa básica de juros, mas ainda assim é garantida para a hora do aperto.

É possível deixar o dinheiro da reserva em algum investimento que renda mais do que a poupança? Sim, mas é preciso ter em mente duas coisas quando o assunto é emergência: liquidez e custo.

A liquidez é a facilidade para ter o dinheiro na mão, ou seja, transformar o número do extrato em grana de verdade. O investimento devolve o dinheiro na hora ou ele tem um tempo de “carência” para o resgate? Prefira os investimentos que resgatam “na hora” (eles terão resgate do tipo D+0. Procure por estes).

O custo impacta o retorno e o saldo final. Quais os impostos que serão cobrados sobre a aplicação? Terá incidência de Imposto de Renda? Há fundos que cobram taxas menores quanto mais tempo o investimento for mantido, o que vira um perigo no caso de necessidade rápida do dinheiro. Sobre a poupança não incide IR e o resgate é automático.

Um dica importante: evite contas poupança ligadas à conta corrente. Isso porque é fácil de confundir o dinheiro e, assim, usar a reserva de emergência como saldo de consumo. Vale a pena, neste caso, abrir uma conta poupança especial para esta finalidade emergencial. Deixe sua conta corrente separada da reserva de emergência.

Se você já tem algum dinheiro guardado na poupança para eventualidades e uma vida bastante regrada, pode até escolher um lugarzinho melhor para deixar a reserva de emergência, como fundos de inflação (repito: prefira fundos D+0 ou D+1) de grandes instituições e bancos de investimento. São seguros e ainda protegem o dinheiro da desvalorização.

Para este caso (dinheiro rápido em caso de problemas), fuja da renda variável, que oferece mais risco e pode oscilar para baixo (fazendo o poupador correr risco real de perder dinheiro). Numa emergência, é tudo o que queremos evitar, não?

Após o uso, como restaurar a conta?
Quando a situação apertar, o dinheiro estará lá, pronto para ser usado. O imprevisto não importa. O que importa é saber como restaurar o fundo após o uso. Se o problema não envolveu a perda de emprego, separe parte do salário todo mês para repor a grana usada.

Um método factível é pegar o total usado e dividir, por exemplo, por 12. Pode parecer bastante, mas pense que se tivesse usado o cartão de crédito ou o cheque especial para quitar estas dívidas, o consumidor ainda teria que pagar juros e a dor de cabeça seria maior. Imagine o banco cobrando 10% de juros ao mês pelo uso do limite. No fim dos 12 meses, o cliente terá pagado mais que o triplo do dinheiro usado.

Com o passar do tempo, o ato de poupar para a reserva virará um hábito. Depois que ela estiver cheia de novo, vale a pena manter o costume de poupar para investir ou realizar outros sonhos. Mas isso é assunto para outro texto no Dinheirama. Até lá.

Este artigo foi escrito por Marcel Gugoni.
Jornalista de economia e finanças pessoais que se interessa pelo mundo da economia do dia a dia. Aprendeu como sair das dívidas ao sentir na própria pele o sofrimento do endividamento e agora estuda sobre investimentos e proteção do capital. 

Fonte: dinherama

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

À vista ou a prazo? Educador financeiro dá dicas para pagar IPVA e IPTU


Mais um início de ano e, neste momento, parece que a avalanche de contas a pagar fica muito maior e mais complicada de se resolver. Conta do cartão referente às compras de Natal, material escolar, uniformes, contas fixas (luz, água, telefone, etc.) e, para quem tem automóvel e moradia própria, os vilões do primeiro semestre: IPVA e IPTU.


Como lidar com esses dois impostos anuais que tanto complicam a vida de diversos brasileiros? O desequilíbrio no orçamento financeiro pode ser grande se não houver planejamento e organização. Para lidar com os dois gastos, qual a melhor opção: pagar à vista ou parcelar?


O educador financeiro e consultor da Rádio Jovem Pan, Reinaldo Domingos - da DSOP, define que as pessoas podem se encontrar em três níveis, que são: endividada, equilibrada financeiramente ou investidora. E, por isso, o pagamento do IPVA e IPTU varia com o orçamento disponível de cada família.


Veja abaixo algumas orientações de Domingos para pagar os impostos e não comprometer o orçamento:
1. Se a situação for endividada ou equilibrada financeiramente, a resposta é simples, pois, já se sabe que, se não há dinheiro disponível para o pagamento à vista, a pessoa será obrigada a optar pelo parcelamento.


2. Em caso da necessidade de financiar estes compromissos, a situação fica ainda mais complicada porque, além de não obter o benefício do desconto, virão os juros. Todo cuidado é pouco: não recorra ao cheque especial ou mercado financeiro, pois, com os juros altíssimos, será inviável arcar com os compromissos.


3. Para a pessoa que estiver na situação de investidor, a recomendação é para o pagamento à vista, que tem 3% de desconto no IPVA e 6%, em média, para o IPTU. Mas é preciso ficar atento aos compromissos futuros: muitas pessoas acabam sendo influenciadas pelo desconto e esquecem que existirão outros compromissos também de grande importância, o que pode levar a problemas financeiros. Assim, antes de pagar, esteja certo de todas as contas e com reservas para imprevistos.


4. Se planeje para estes e outros gastos sazonais que normalmente as pessoas não dão atenção, mas que trazem grande dificuldade de pagamento.


5. Neste início de ano, com os diversos compromissos, opte por pagar a conta de maior prioridade para a família (no caso daquelas que têm o carro como fonte de renda, o ideal é dar preferência ao IPVA) ou aquela em que o valor do desconto será maior. O restante deve ser parcelado.


6. Antes de pagar à vista, tenha certeza que o dinheiro não fará falta para compromissos futuros, pois, caso contrário, você ficará vulnerável a entrar no cheque especial ou em financiamentos com juros altos.


7. Se for parcelar, insira imediatamente o valor das prestações no orçamento financeiro, lembrando que o controle financeiro é a base para a sustentabilidade financeira.


8. Se não conseguir pagar à vista, faça uma reflexão e busque o motivo da impossibilidade de se beneficiar deste desconto.

Publicado Por: Caio Dias - http://jovempan.uol.com.br

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Economia, mercado e política: retrospectiva 2012 e votos para 2013


Caros leitores, iniciarei o texto com uma breve retrospectiva do ano de 2012, que não foi um ano fácil. Mais do que isso, foi um ano difícil de entender, repleto, como sempre, de perdas e êxitos.

A cidadania em 2012
No campo institucional, o julgamento do Mensalão se destaca como uma clave em favor da institucionalidade, com atenção especial para o relator do caso e agora presidente do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa.
Não merece menos destaque a defesa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para que o dito Mensalão mineiro seja julgado, com o mesmo rigor, num claro posicionamento em prol da naturalidade com que devemos encarar a apuração de suspeitas envolvendo políticos e importantes lideranças e seus inevitáveis desdobramentos jurídicos.
A economia em 2012
No front econômico, vivenciamos o fim do ufanismo, que, ao que parece, caminha mesmo para se tornar algo fora de moda e de contexto. Penso que isso não ocorre simplesmente por não termos o que comemorar, mas talvez por nos conscientizarmos de que festas e trombetas antes da hora geralmente trazem o efeito inverso. A velha síndrome do “jogo ganho” nunca dá certo.
O melhor é prosseguir trabalhando e construindo, com disciplina, com realismo, descartando o pessimismo e o otimismo exagerado. Ai sim geralmente os resultados surpreendem.
E não foi fácil terminar o ano com o crescimento pífio que tivemos, ainda mais em um modelo de capitalismo tão pouco livre. Não, engana-se quem pense que defendo o liberalismo econômico radical, mas também não me empolgo com a carga de intervenção estatal que pouco a pouco se perpetua como modelo.
Essa ingerência espanta investidores, deprecia a percepção de uma boa gestão de riscos e, por fim, dilui o chamado “espírito animal” do empresariado, que precisa viver sem tantas amarras, em um ambiente jurídico mais seguro e ágil, com regras (é claro!), porém mais claras e estáveis.
Os escândalos de 2012
De resto, o de sempre: denúncias e mais denúncias, escândalos e novos escândalos. Mas o fato é que avançamos sim. Vagarosamente, gradualmente, mas avançamos, protegidos de efeitos mais perversos e desastrosos, justamente por sermos uma sociedade tão plural – tão difícil de interpretar e analisar e economicamente tão diversa e ampla.

Como escutei recentemente de um empresário espanhol que veio para ficar (sic) na esteira da crise que assola a Europa, “não existe país no mundo com melhor perspectiva de progresso econômico e social do que o Brasil”. É bem possível que ele esteja certo, e é essa torcida.
Mas, não podemos nos acomodar e nem tão pouco abdicarmos do cultivo de um certo ceticismo crítico. E eu não tenho nenhuma dúvida de que é justamente isso que garante a perpetuidade das grandes nações. E os meus votos vão nesta direção.
O que esperar de 2013?
Desejo que lutemos com afinco pelo que acreditamos como país, mas sem perder o senso crítico. Quero um Brasil plural, sem grupos de exceção, confiante no seu futuro, mas certo de que o futuro se constrói no presente, e muitas vezes com suor e lágrimas.
Desejo uma democracia ainda mais livre, menos estatal, mas sem radicalismos liberais econômicos. Rogo por uma sociedade mais atuante, exigente, ciosa de seus direitos e vigorosamente credora do retorno que se deve esperar pelos tributos pagos.
Por fim, quero o império do contraditório, onde todas as forças políticas passem a conviver com o antagonismo de uma oposição competente, nos permitindo rever opções e corrigir caminhos.
Por fim, rogo por um ano de progresso, onde mais uma vez sejamos exitosos em construir as bases necessárias para uma trajetória estável e sólida de evolução, servindo para todos os outros anos que virão. Mesmo que seja assim, de forma gradual.
Por Gustavo Chierighini (@GustavoChierigh), fundador da Plataforma Brasil Editorial.

Fonte: dinheirama

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dilma e o destino


Há situações que me causam alguma perplexidade. Durante o governo Lula o empresariado queixava-se dos juros escorchantes, com exceção dos banqueiros, está claro. De sua alegria cuidava o presidente do BC, Henrique Meirelles. Em compensação, o vice-presidente da República, o inesquecível e digníssimo José Alencar, defendia com ardor a demanda dos seus pares.

Agora o governo Dilma abaixa os juros, e todos se queixam, em perfeito uníssono. Busco uma explicação, embora me tente recorrer a um dos grandes escritores do absurdo, movido pela convicção de que somente eles seriam capazes de explicar o Brasil. Este é um país que consegue viver contradições abissais, a começar pelo seguinte fato: atravessamos no mesmo instante épocas diferentes. A modernidade tecnológica e a Idade Média política e social.

No caso dos juros, os lances mais recentes do governo Dilma revelaram outro fato bastante significativo: muitos brasileiros que se dizem empresários são, de verdade, apenas e tão somente especuladores. Contaminados pelo vírus do neoliberalismo, acertaram sua irredutível preferência pela renda no confronto com a produção, e a baixa dos juros os atinge na parte mais sensível do corpo humano, ou seja, o bolso, como disse há muito tempo o professor Delfim Netto.

Seria preciso assumir o autêntico papel do empresário e, em vez de acompanhar os movimentos das bolsas e das oligarquias financeiras, trabalhar para produzir e enfrentar a concorrência e riscos variados como, creio eu, vaticinava Adam Smith. Os próprios banqueiros perdem benesses e têm de arregaçar as mangas para voltar às tarefas da Banca di San Giorgio.

O governo Dilma dá um passo adiante em relação àquele que o precedeu. Mexe com os interesses do poder real, conforme a opinião de analistas atilados. Ousa o que Lula não ousou. E o balanço da primeira metade do seu mandato há de registrar esse avanço em primeiro lugar.

É justo perguntar aos nossos botões por que um país tão favorecido pela natureza não atingiu o grau de desenvolvimento que lhe compete. E a resposta é inescapável: a casa-grande ficou de pé e conseguiu, sem maiores esforços, a bem da verdade, manter a Nação atada ao seu próprio tempo de prepotência. “Eles querem um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”, dizia Raymundo Faoro.

Poder absoluto de um lado, submissão do outro. Getúlio Vargas, eleito democraticamente em 1950, tentou enfrentar a casa-grande e morreu suicidado. O novo desafio demorou 48 anos e começou com a eleição de Lula, início de um capítulo inédito da história, este por ora a mostrar-se duradouro. Como se deu com Getúlio, mas em circunstâncias diferentes, o povo identificou-se com seu líder. No entanto, ao contrário de Getúlio, Lula é seu povo, e chegou depois de uma ditadura de 21 anos imposta pela casa-grande e de uma fase da chamada “redemocratização”, na prática voltada à manutenção do poder real e dos seus privilégios medievais.

Dilma, nesses seus últimos dois anos de mandato, deu continuidade à obra do antecessor sem deixar de conferir marca pessoal ao desempenho. De saída, livrou-se de ministros incômodos, como o exorbitante “operador” Antonio Palocci, ou Nelson Jobim, atucanado militarista. Prosseguiu pelos caminhos traçados por Lula na política social e exterior e foi recebida mundo afora como digna sucessora do “cara”. Lança, enfim, as bases de uma política econômica afinada com os objetivos de um governo social-democrático habilitado à contemporaneidade do mundo.

Janus bifronte mostra o cenho franzido na face que encara o passado, enxerga um 2012 difícil, de desenvolvimento econômico medíocre, abalado por uma crise mundial muito antes que brasileira. Não está desanuviado o rosto que olha para o futuro. O ministro Mantega promete em 2013 um crescimento de 4%, ou pouco mais, índice excelente nas circunstâncias. Não me arrisco a analisar a promessa. As dificuldades para Dilma se espraiam bem além da situação econômica, a despeito das influências que esta exercerá em outros quadrantes.

A “Operação 2014”, desencadeada pela mídia contra Lula e contra o governo não arrefecerá certamente na perspectiva do pleito do ano próximo. De certa maneira, a campanha eleitoral já partiu e definiu seus temas recorrentes. Sim, os tempos mudaram e os porta-vozes do poder real não alcançam a maioria da Nação. Sobram, porém, os problemas criados dentro do PT, da base governista e até do governo. Semeados inclusive pelo Supremo Tribunal Federal, lunaticamente inclinado a subverter as regras basilares da democracia e a agredir a Constituição. Será que o ministro da Justiça tem mesmo de resignar-se diante de tanto descalabro?

Assustam, sejamos claros, um STF e um procurador-geral da República claramente engajados na Operação 2014. Para seu próprio bem, cabe ao governo uma reação à altura, também em outra frente, para reestruturar o Partido dos Trabalhadores, hoje dividido, depauperado e em estado de confusão. Neste campo, a intervenção do fundador é indispensável. Lula é o líder em condições de conduzir o partido no retorno ao passado, para reencontrar aquela agremiação que o sustentou por três eleições e enfim o levou à Presidência em 2002.

Quanto à base governista, os problemas parecem insolúveis. Governar exige alianças de ocasião e as melhores intenções acabam por lastrear o caminho do inferno. Há parceiros confiáveis e outros que veem na carreira política a escada da vantagem pessoal. Há quem sugira uma ação para buscar o favor do empresariado. Talvez aqui a tarefa seja menos complicada do que a tentativa de formular planos comuns com, digamos, o PMDB do vice-presidente Michel Temer e do senador José Sarney, ou com o PDT de Miro Teixeira e outros do mesmo jaez.

Permito-me, de todo modo, como se daria a aproximação ao empresariado descontente com a política econômica. Por meio de um seminário sobre o capitalismo de Adam Smith e John Maynard Keynes? Mesmo assim, tentativas menos ingênuas poderiam ser experimentadas, com algum êxito, quem sabe.

Pego-me a olhar para os colegas da redação, dobrados sobre seus computadores, intérpretes da modernidade, enquanto eu batuco na minha -Olivetti Linea 88. Sou francamente arcaico, mas temo que o computador me engula como fez e faz com tantos outros. Não escapo à sina, também eu mereço Ionesco, ou Beckett. Certo é, sem qualquer parentesco com o absurdo, que às vezes o bonde da história passa pela porta de casa. Não da minha, é óbvio. Falo de Dilma Rousseff. Sinto nela a crença, a energia, a determinação, a capacidade e o porte dos escolhidos do destino.

por Mino Carta - Carta Capital blog do Nassif

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ainda bem que a credibilidade da mídia é pequena


O Compromisso da Continuidade
Foi-se metade do governo Dilma. Restam-lhe, portanto, dois anos. Diz-se que, para os governantes, os primeiros dois passam devagar e que eles se sentem como se tivessem a eternidade pela frente. E que os segundos voam, pois o fim do mandato se torna um dado cada vez mais palpável e mais presente no dia a dia. Esse não é apenas um sentimento.

Desde antes do fim do terceiro ano, a sucessão torna-se assunto principal. Cessam as inovações e as experiências. A pauta do governo fica limitada e a cobrança de resultados intensifica-se. É preciso ter coisas, de preferência “concretas”, para pôr na mesa. Tudo começa a girar em torno de um objetivo central: reeleger-se ou escolher quem possa vencer a eleição que vem a seguir.

A segunda metade dos governos costuma ter, portanto, dois tempos distintos: um terceiro ano predominantemente administrativo, mas já político, e uma “reta final”, marcadamente política. Se Dilma estivesse mal, se a população se sentisse insatisfeita com ela, os dois anos que tem pela frente seriam suficientes para que revisse rumos e encontrasse meios de consertar problemas.

Já vimos isso acontecer com governadores e prefeitos. São muitos os casos dos que conseguiram recuperar a imagem depois de atravessar dificuldades no começo. Mas Dilma está bem. Na verdade, muito bem. Segundo dados das pesquisas CNI-Ibope, ela saiu da eleição de 2010 com a imagem de que faria uma administração “ótima” ou “boa”. Em dezembro daquele ano, era assim que pensavam quase dois terços (62%) dos entrevistados pelo instituto.

Depois de ter alcançado, em março de 2011, a marca de 68% de avaliações positivas, Dilma foi a 55% em julho (sempre de acordo com o Ibope). De lá pra cá, cresceu sistematicamente. A cada pesquisa, foi batendo os recordes de seus antecessores em igual momento. Nenhum presidente da República foi mais bem avaliado que ela. Nem Lula.

Nas mais recentes, seus números igualam ou ultrapassam as expectativas da população antes que começasse a governar. Em outras palavras: a maioria imaginava que seria uma presidenta “ótima”ou “boa” e acha que é isso que ela está sendo.

Para o eleitorado, quando disputou e venceu a eleição de 2010, Dilma fez uma promessa fundamental: faria um governo de continuidade. Era o que as pessoas queriam. Apesar das dificuldades, elas entendem que Dilma cumpriu seu compromisso nos primeiros 24 meses do mandato.

Ela manteve as políticas mais claramente identificadas com Lula, como o Bolsa Família, o ProUni, o Minha Casa Minha Vida. Não houve mudança na retórica ou em sua implementação. Foram ampliadas e aperfeiçoadas. Prosseguindo a principal opção da política econômica que herdou, renovou a aposta no mercado interno e continuou a procurar a expansão do emprego, da renda e do consumo.

As pesquisas mostram que insistir nas políticas do governo Lula nunca foi demérito para ela. A vasta maioria da população não desejava que fossem alteradas ou esperava que quem havia sido parte importante do governo anterior as mudasse. Com o agravamento da crise na economia internacional. Essa continuidade mostrou-se mais significativa. Em vez de retroceder e voltar à prática conhecida de “apertar os cintos”, diminuindo gastos públicos e controlando a moeda, o governo manteve suas escolhas. E as aprofundou.

No segundo semestre de 2012, o governo mudou o discurso e passou a agir para corrigir velhas distorções no funcionamento da economia, algumas particularmente prejudiciais ao cidadão comum. Juros estratosféricos, impostos exorbitantes, preços abusivos da energia elétrica, incompetência e falta de transparência das prestadoras de serviços públicos básicos, coisas que as pessoas consideravam males eternos e sem remédio, começaram a mudar.

Em razão disso, cresceu a aprovação das ações do governo em relação, por exemplo, à inflação (entre junho e 2011 e setembro de 2012, a desaprovação caiu de 56% para 45%) e à taxa de juros (a aprovação subiu de 29% para 49%, no mesmo período). Alguns dos poucos temas de política econômica em que a insatisfação predominava diminuíram de gravidade.

Terminamos o ano com o aumento das preocupações relativas à crise, mas com a maioria da população acreditando que o Brasil está mais preparado que o resto do mundo para superá-la. Ainda bem que é pequena a credibilidade do noticiário econômico produzido pela imprensa oposicionista, que nos diz que vivemos à beira do abismo.

As pessoas acreditam que o País e o governo vão bem, seja porque a economia está corretamente administrada, seja porque a opção social que caracteriza as administrações petistas foi mantida. Mas também porque a presidenta está sendo, desde o início, uma boa surpresa. Sua “maneira de governar” é aprovada por 77% e reprovada por 18%. Confiam nela os mesmos 77% e há 22% que dizem que não. Nas duas dimensões, as respostas positivas vêm aumentando desde 2011.

É a primeira vez que temos no Planalto alguém como ela. Que não chega lá para fazer “grandes mudanças”, mas para continuar. Que não exibe uma biografia de “coisas notáveis”, mas um perfil de administradora e gerente. Que não tem passado na política e revela pequena paciência com seus hábitos e personagens.

Com tantas particularidades, ela tinha um enorme desafio quando tomou posse: governar o País sem deixar que a população sentisse saudade de Lula. Não era fácil suceder “o melhor presidente que o Brasil já teve”, de acordo com a opinião majoritária. Mesmo para políticos experientes seria difícil. Imagine-se para quem estava em começo de carreira.

Ao longo do primeiro ano, enfrentou e resistiu ao desgaste de uma série de problemas nos ministérios. Diversos ministros acabaram substituídos, quase todos por suspeita de irregularidades, algumas graves, outras menores. Em nenhum episódio foi vista como conivente ou tolerante. Atravessou-os como a maior interessada no seu esclarecimento, como quem queria aproveitá-los para fazer uma “faxina” na administração federal.

No exterior, sempre foi considerada uma importante liderança, que assumiu, com naturalidade, o papel de porta-voz de um Brasil com mais protagonismo.

O segundo semestre de 2012 tinha todos os ingredientes para ser um inferno astral para Dilma. Na economia, estabeleceu-se uma conjugação perversa de problemas complicados: crise na economia internacional, aumento das pressões inflacionárias internas, uma sensível retração na indústria.

Na política, o jogo pesado da oposição extrapartidária, procurando transformar o julgamento do “mensalão” em um tribunal de condenações ao PT e suas lideranças. A mídia conservadora, o empresariado que a sustenta e os setores da sociedade inconformados com a longa duração da hegemonia petista apostavam que enfraqueceriam o partido. Com isso, que fragilizariam o governo, seja o desgastando diretamente, seja por meio do aumento do custo público de manter o bloco situacionista em condições operacionais no Congresso. 

Embora ainda vá correr muita água sob a ponte nesse front, o saldo da atual etapa da guerra do “mensalão” foi negativo para as oposições. O efeito eleitoral imediato que buscavam, ao interferir na eleição municipal, foi pequeno. O julgamento não teve consequências relevantes na escolha dos prefeitos.

Pelo que revelaram as pesquisas, especialmente qualitativas, realizadas durante a eleição, nem Dilma nem o governo estiveram em discussão, sequer entre as parcelas do eleitorado sensibilizadas pelas críticas ao PT. O que reprovavam no partido e no comportamento das lideranças condenadas nunca foi estendido à presidenta. Com isso, assim como enfrentou a piora do cenário econômico dando resposta positivas, ela atravessou o julgamento com a naturalidade de quem não tem contas a prestar pelo que aconteceu em 2005.

A eleição de outubro foi uma espécie de batismo para Dilma. Pela primeira vez, subiu ao palanque para pedir votos para outras pessoas. Nos diversos balanços de resultados publicados pela mídia conservadora, prevaleceu a noção de que ela fora malsucedida no novo papel. Que seus candidatos não emplacaram.

É uma avaliação incorreta. Nunca é decisiva a influência do apoio presidencial na escolha dos prefeitos. Como mostra nossa história recente, presidentes mal avaliados não enterram seus candidatos e mesmo os mais populares não fazem milagres. De positivo, a principal contribuição que podem dar é servir de argumento para correligionários e aliados, permitindo que usem com proveito seu nome e realizações.

Isso Dilma ofereceu a candidatos do Brasil inteiro, o que a torna corresponsável pelos bons resultados de seu partido. O saldo de sua entrada direta na eleição em determinadas cidades não deve ser medido pelo número de prefeitos eleitos – mesmo que tenha desempenhado papel nada irrelevante na vitória de Fernando Haddad, a mais importante. Ao subir ao palanque, ela mostrou-se mais do que uma administradora competente ou uma “gerente”. Assumindo papel eleitoral, Dilma sinalizou para o sistema político que faz parte dele, à sua maneira, mas de forma plena. O que ela não podia era se recusar a essa identificação.

Em termos dos indicadores da popularidade, aconteceu na eleição municipal de 2012 o que ocorrera nas anteriores: uma alta da aprovação. Se todos os antecessores se beneficiaram, não havia razão para imaginar que não se repetiria com Dilma.

Ao olhar as pesquisas disponíveis, o que se vê é que o PT está indo para a próxima eleição presidencial com nítido favoritismo. Nas que estão sendo feitas atualmente, seus dois possíveis candidatos lideram com folga. Seja Lula, seja Dilma, têm, sozinhos, mais de quatro vezes a soma dos adversários.

Quando um partido tem um nome com 60% e outro com 70% das intenções de voto, a decisão a respeito de qual deve concorrer deixa de ser eleitoral e passa a ser exclusivamente política. Quando, juntos, têm 80% dos votos espontâneos, a questão se torna estratégica e não instrumental.

Muita coisa pode acontecer até o fim de 2013 e o início de 2014, quando a escolha tiver de ser feita. A guerra do “mensalão” não terminou e novas batalhas vão acontecer no futuro próximo, agora que os antilulopetistas se descobriram tão amigos de alguns integrantes do Judiciário.

Nada sugere que a imagem do governo venha a atravessar perturbações significativas em 2013, a ponto de impactar na eleição. Salvo uma hecatombe altamente improvável, o mais certo é que Dilma e o governo mantenham níveis de aprovação semelhantes aos de agora.

Devemos a Fernando Henrique Cardoso uma curiosidade de nosso sistema político: em um país que cultua o futebol, todo ano de eleição presidencial tem Copa do Mundo (se ele não tivesse reduzido para 4 anos o mendato em troca da reeleição, as duas só coincidiriam a cada 20 anos). Temos suficiente experiência para saber que as duas coisas não são relacionadas. 

Ganhar ou perder nos gramados foi irrelevante nas eleições de 1994 para cá. Em 2014, o caso é outro. Não que a eleição dependerá do futebol. O relevante é a outra Copa que, simbolicamente, estaremos disputando. Um campeonato para mostrar ao mundo e a nós mesmos que somos capazes de organizar com competência o evento. Onde os adversários serão nossos problemas crônicos – nos transportes, nas comunicações, na saúde, na segurança pública, na mobilidade urbana, nos aeroportos e rodovias.

Essa Copa é mais importante para as pessoas do que o resultado esportivo. Elas lamentarão muito mais se ocorrerem falhas na organização do que se a Seleção for goleada. Se houver problemas, a responsabilidade será do governo federal e da presidenta. Tudo o que acontecer de ruim cairá em seu colo. E podemos apostar a quem nossa “grande imprensa” atribuirá a culpa.

A final da Copa do Mundo vai acontecer em 13 de julho de 2014. Dali a dois meses e meio, teremos a eleição. Tudo o que conhecemos hoje sobre a opinião pública brasileira aponta para o favoritismo do governo. O que ele não pode é ignorar que será julgado na véspera pelo que ocorrer na Copa do Mundo.

Se existe uma prioridade para Dilma nos próximos dois anos, é organizar uma Copa do Mundo sem problemas. Ao menos, sem os problemas evitáveis.

Fonte: por Marcos Coimbra, em CartaCapital, através http://www.viomundo.com.br

sábado, 5 de janeiro de 2013

Quando a esperança venceu o medo


A primeira imagem que guardei da primeira eleição para presidente do Brasil pós-ditadura foi a de um vizinho chegando em casa com uma pilha até o pescoço de vídeos em VHS. Era uma espécie de estoque de alimentos para as horas de propaganda eleitoral gratuita recém-iniciada e considerada maçante por quem não se sentia minimamente empolgado em dar seu primeiro voto a um candidato à Presidência após quase 30 anos de repressão.

A vida pública, para o meu vizinho, não inspirava interesse. Ele estava bem, morava numa bela casa, tinha dois belos filhos, viajava constantemente, tinha carro do ano, televisão de última geração e, como todo mundo daquela época, estava mais empolgado com as novidades tecnológicas (a principal inovação era o microondas) do que com mudanças no rumo das coisas. Para ele, como para muitos daquela rua, daquela cidade, daquele país, não era hora de mudar. O melhor dos mundos, aliás, era o mundo imutável.

A imagem deste meu vizinho me veio à cabeça na quinta-feira 3 quando deixei a sessão de cinema. Acabava de assistir “No”, filme do diretor Pablo Larrain sobre o plebiscito de 1988 que definiu o futuro do ditador Augusto Pinochet no Chile. No poder desde o golpe de 1973, general havia convocado, por pressão internacional, um referendo para que a população chilena dissesse se ele deveria ficar ou não mais oito anos no governo. A oposição, pela primeira vez, teria quinze minutos diários, durante cerca de um mês de campanha, para convencer os chilenos de que era preciso dizer “não” à continuidade da ditadura. O governo, que via na eleição apenas um protocolo para legitimar seus desmandos, precisaria convencer os eleitores de que tudo estava bem, obrigado.

Se saltasse do Chile de 88, quando ocorreu o plebiscito, e aportasse na minha vizinhança em 89, correria o risco de tomar um choque térmico. A mobilização popular do plebiscito chileno em nada lembrava a apatia da classe média de minha cidade que preferia deixar o salário numa locadora de vídeo para não se envolver num processo político do qual desdenhava. (Ninguém dali precisava debater nada porque ninguém estava disposto a mudar a posição: votar em qualquer candidato que não fosse o Lula).

Mas, fora da minha rua, numa cidade afastada dos grandes centros, o Brasil de 89 não era tão diferente do Chile de 88. Eram países vizinhos que vinham de anos de ditadura comandada por militares – no caso do Brasil, numa transição mambembe – com um saldo de mortos e desaparecidos políticos dos anos pós-golpe. Eram países, sobretudo, amedrontados. Convencer o eleitor a sair de casa e se mobilizar por um futuro distinto do passado sangrento era missão inglória: poucos sabiam como usar a liberdade dos minutos garantidos pela propaganda eleitoral para convencer alguém a mudar os rumos da história recente.
Ao retratar o grupo responsável pela campanha anti-Pinochet, muitos dilemas são colocados à mesa. A mensagem de Pinochet era clara. Numa das cenas, o idealizador da campanha governista diz ser necessário mostrar como o ditador havia conseguido modernizar o país e afastá-lo do projeto socialista de Salvador Allende, o presidente morto e deposto no golpe de 73. A ideia, explica o publicitário, era mostrar que no Chile de Pinochet qualquer um poderia enriquecer. E ressalta: “’Qualquer um’ não significa ‘todos’. As pessoas querem acreditar que elas podem ser este ‘qualquer um’”. Apostava, portanto, numa discussão entre “socialismo do passado” versus “capitalismo do futuro” para manter o poder.

Do outro lado, o desafio dos opositores, assumido pelo publicitário René Saavedra, personagem de Gael Garcia Bernal, era não assustar demais o público, o grande público que demonstrava cansaço de tanto sangue derramado e preferia levar uma vida medíocre, sem liberdade, a verem os filhos, as casas e os poucos bens em riscos diante de uma possível comoção nacional.

É uma aula sobre como vender uma ideia. E sobre como esse processo envolve desgastes tais quais convencer a velha guarda da esquerda chilena, traumatizada pelo terror de Estado, de que o revide poderia ser dado com uma mensagem leve, alegre, sem o uso exagerado de imagens da tragédia recente. (A primeira ideia da campanha era mostrar corpos estilhaçados pelos soldados de Pinochet do golpe em diante).

Vinte e cinco anos após a campanha, o filme provocou reações diversas pelo Chile, como mostrou recentemente o site Opera Mundi. Quem participou da campanha reclamou, por exemplo, do excesso de peso atribuído à televisão para definir o jogo do plebiscito. Argumentaram que quem fez a ditadura ruir foram as bases sociais – resultado de um país que crescia para poucos – que se mobilizaram, saíram às ruas, e lutaram voto por voto. Haveria, portanto, uma disposição real que não precisava de um jingle bem-feito para se posicionar.

É verdade.
Mas, como lembra na mesma reportagem o jornalista Patricio Bañados, âncora do programa anti-Pinochet, também retratado no filme, o programa não visava apenas levar os eleitores a se posicionar contra a ditadura. Visava fazê-los perder o medo e sair de casa para votar num processo que consideravam forjado em benefício do ditador.

Era preciso, para citar o slogan que no Brasil só seria usado muitos anos depois, fazer com que a esperança vencesse o medo. Daí a arriscada e bem-sucedida decisão de levar à tela não apenas cenas de mortos, terror e destruição, mas gente animada, descolada (para os padrões da época) e bem-humorada.

Essa gente, mostraram os publicitários, não demonstrava pânico em dizer que novos tempos, novos e melhores tempos, estavam chegando. “A alegria já vem”, dizia o slogan numa mensagem simples, direta, até reducionista para alguns – a tortura do passado recente e de quem vivia na censura, afinal, não tinha nada de alegre. Mas era clara, algo como “saiam para ver o sol”.

Se a mensagem fosse passada, não haveria como perder a causa, ainda que o referendo conferisse mais oito anos ao ditador. Porque uns vendiam números sobre a economia. Outros vendiam algo imensurável: a liberdade. Mais que isso: a alegria de ser livre.

Na introdução do livro com suas melhores crônicas no Pasquim, Millôr Fernandes faz um balanço sobre todas as quedas-de-braço perdidas para os militares no período. No último parágrafo, concluiu: “Eles só não conseguiram nos tirar uma coisa: nossa capacidade de levar na esportiva”.

Porque as armas numa ditadura (ou numa democracia mal ajambrada) não são as mesmas. Como o Pasquim, a campanha anti-Pinochet precisava de habilidade, a habilidade de quem consegue arrebentar uma ditadura ao meio sem precisar gastar uma bala. E a galhofa é o melhor argumento para convencer o grande público de que a caricatura não retrata apenas o assassino, mas quem leva uma vida compactuada com os assassinatos. Era preciso dizer, portanto, que o general Augusto Pinochet era uma piada. Uma piada de mau gosto, mas uma piada.

Entre uma bandeira e outra, havia (há?) uma massa indisposta a mudar as coisas porque prefere não se envolver. Prefere alugar filmes para não se chatear com a propaganda política. Essa apatia não é combatida sem consciência. E a consciência não prescinde do humor, o humor que, como Millôr, não quer fazer rir. Quer fazer pensar – isto sim um bombardeio letal.

Por  Matheus Pichonelli  - www.cartacapital.com.br

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Intercâmbio: transforme seu roteiro de férias numa oportunidade de carreira


Na hora de definir o roteiro da viagem, não são mais apenas os preços e a as belas paisagens que influenciam a escolha. Com a customização dos planos de estudo feita pelas agências de viagem, é possível identificar opções de férias diferentes e fazer cursos ligados ao próprio hobby ou à profissão.

Felipe Quintino, gerente regional do Student Travel Bureau (STB), no Rio de Janeiro, indica que as recentes exigências do mercado provocaram essa mudança no perfil dos viajantes, que incluem desde jovens executivos a profissionais que ocupam cargos de gerência. "A demanda é crescente, pois estes projetos proporcionam um diferencial no currículo, ao trabalhar com a criatividade e oferecer novas experiências e atividades de lazer", relata.

Entre as opções mais procuradas, segundo Quintino, está o Gap Year - pessoas que sentem necessidade de atualização ou pensam em mudar de área e reservam um ano para fazer programas de estudo em diferentes habilitações. "Essa pausa é cada vez mais valorizada pelo mercado, pois mostra a capacidade de adaptação da pessoa e a busca constante por se atualizar", indica.

Os destinos mais frequentes para profissionais na faixa dos 26 aos 40 anos, que buscam atividades complementares como culinária, business, idioma e pós-graduação, são as rotas que levam aos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França e Itália. Além deles, Japão, Austrália e até a América Latina são roteiros diferentes que vêm ganhando força na hora de aliar passeio com aprendizado.

Rumo ao conhecimento
Fabiana Forastiere, gerente de Marketing da Siemens, é uma que se encaixa nesse perfil "executiva viajante". Ela fez um curso intensivo de inglês integrado a Business em abril de 2010, em Londres, pela EF Corporate Language Training. Fabiana conta que a necessidade profissional motivou sua escolha e que, além do aperfeiçoamento da língua, o curso contribuiu para seu crescimento pessoal.

"Meu programa de estudos incluía opções de lazer e cultura, como passeios, visitas e festas. Tive a oportunidade de conviver com pessoas de todo o mundo, como da Arábia Saudita, América Latina e Europa, o que me permitiu adquirir conhecimentos sobre outras culturas", relata.

O analista de sistemas Eduardo Lembruger também encarou esse tipo de intercâmbio. Ele queria aprimorar o inglês, já que trabalha no segmento de turismo e na ambientação de congressos, por isso, passou quatro semanas estudando na London English School, pela STB. "Após a experiência, me senti muito mais seguro quanto à minha profissão, pois o curso ofereceu uma real imersão no idioma", revela, afirmando que faria tudo outra vez.

Carla Dolezel, diretora do Instituto Brasileiro de Estudos Avançados (IBEA), indica que a realização de cursos no exterior que agregam programações de lazer e turismo às atividades propostas em sala de aula são fundamentais para levar ao aluno uma relação mais profunda com outra cultura. Dolezel revela que o público e as opções de cursos de formação no exterior estão bem segmentados.

Entre as opções mais procuradas está o MBA. Marcelo Ramos, professor e sócio da escola MBA House, afirma que essa pós-graduação fora do país se tornou um dos elementos-chaves para a formação do profissional do futuro, que precisa adquirir um forte senso de internacionalização. Ele aponta que o índice de satisfação dos alunos que cursaram MBAs top 20 no mundo é de 97%, e que muitos descrevem a oportunidade como "uma mudança de vida".

Carla Dolezel aponta que não há limite de idade para uma formação internacional. "Atualmente, o IBEA tem alunos de 28 a 84 anos fazendo doutorado na mesma turma. O que vale é o desejo de enriquecer a cultura e trocar experiências", indica o professor.

Por Isabela Pimentel, Revista Administradores